11 de maio de 2020

Seios e coca-cola

Pelo corredor estreito, a bela se movia lascivamente. Nas mãos, sustentava latas de meu refrigerante predileto, acondicionadas em um balde paramentado por gelo. Descamisada, enquanto fitava o rotundo par de seios desnudos, orbitando meus ressequidos lábios, fiquei admirado ao perceber seu reflexo turvo bruxuleando a vermelhidão enlatada.

Sem mais delongas, impelido pelo êxtase da sofreguidão, não hesitei em avançar, chegando a esgar pela imersão do prazer... Juro ter sorvido cada milimétrica gota daquela deleitosa coca-cola.

Continue...

Suicídio Ocasional

“Os sonhos eram mais variados do que podia recordar, mas o desfecho, esse era sempre igual. Subitamente me via despencando do topo de um arranha céu, cada segundo cruzando com diferentes pessoas, no interior do prédio, diretas do seu andar, compenetradas no trabalho a ponto de, sequer, observar minha condição. Meu corpo se aproximava do solo com incrível celeridade. Cada milésimo de segundo testemunhava a vida sendo gradativamente drenada e quando enfim contemplaria a finitude da existência, despertava antes do choque , totalmente ileso.”

Seu nome era João de Santo Cristo. Qualquer semelhança com o personagem chave da música Faroeste Caboclo , da Legião Urbana, não era fruto do mero acaso, afinal a banda liderada por Renato Russo despontava como a favorita de sua mãe, uma eterna entusiasta da Turma da Colina e do rock nacional anos 80.

João de Santo Cristo gastava horas tentando decifrar o enigma por trás do excêntrico devaneio, todas as noites insistindo em profanar seu descanso. Talvez, a cena incessantemente reprisada, tivesse alguma relação com seu ofício de zelador. Ao contrário da ilusão projetada pelo inconsciente, não mantinha vínculo profissional com um suntuoso prédio, repleto de vidraças espelhadas, abrigando verdadeiras sumidades do ramo jurídico ou do mercado financeiro.

O Santo Cristo trabalhava em um prédio mais mirrado, um antiquado empreendimento de cinco andares, servido de residência para dezenas de famílias classe média. Esse aspecto fazia toda dubiez despertar sobressaltos inquietantes: se jamais trabalhara (quiçá sequer havia entrado) em uma edificação suspensa e ornada por caixilho com vidros, os sonhos não poderiam mesmo representar uma situação de iminente perigo. Para assepsiar as poucas vidraças sob sua responsabilidade, não precisava arriscar a pele com elevadores externos, plataformas aéreas e tampouco recorrer a técnicas verticais de rapel.

Quem sabe até, aquela queda não pudesse representar uma inanição cognitiva, uma sugestão intrinsecamente fulcral para proporcionar uma fuga, abortando a realidade fatídica. Nem sempre as pessoas conseguem se tornar aquilo que queriam ser quando crescessem e, dessa vez, o Santo Cristo não hesitaria em cumprir sua sina, livrando-se de toda sofreguidão vital.

Um disparo certeiro na cabeça ou uma corda amarrada sobre o pescoço? Conforme o desvaio sugeria, precisava saltar para alcançar a liberdade. Para, então, concretizar seu anseio, ocupou o corredor do quinto e último andar do residencial. Em frente à moldura, ouvia os gemidos das lufadas de vento ainda esvoaçando seus finos cabelos compridos. O zelador utilizou um banco para, em segurança, montar no peitoril da janela. Tudo precisava ser devidamente ensaiado, pensou, especialmente para parecer um acidente. Estava pronto para morrer, ainda assim rechaçava comentários do tipo, “a depressão o matou”, “o Santo Cristo se entregou, não foi forte o bastante”, “agora ele irá pro inferno”. Preferia mesmo suscitar a piedade coletiva e talvez seu jogo de cena pudesse ludibriar o Criador.

Com um pano posicionado na mão direita e um produto do tipo “limpa vidros” na outra, seus pés propositalmente deslizavam sobre a travessa inferior dos marcos das janelas. – Estou perdendo o equilíbrio, alguém me ajude, acho que vou cair – esgoelava, mais um teatro barato, necessário para tornar a mentira convincente.

O pesadelo agora era real. De olhos fechados, o Santo Cristo sentia a força da gravidade sorver seu corpo para baixo. Em questão de segundos, enfim, estaria livre, não havendo tanto tempo, como em seus devaneios, para serenar com a morte... uma morte que como nos pesadelos, na realidade por detalhes, não aconteceu!

Tudo por causa do famigerado vizinho do primeiro andar acima do térreo, que prevendo a possibilidade de alguém tentar ceifar a vida nos próximos dias, expurgando sua existência do mundo, mudou toda estrutura do toldo, novo o bastante para atenuar a queda. Embora a lona não tenha se esgarçado por completo, a estrutura metálica cedeu diante do peso multiplicado, fazendo o Santo Cristo rolar por alguns centímetros até seu corpo ser projetado sobre o teto de um carro antigo, estacionado em frente ao prédio.

Essa é a triste sina de João de Santo Cristo, sendo-lhe outorgada a vida que ele já não queria mais. Ao menos aqueles sonhos, reais o bastante para desencadear pensamentos suicidas ocasionais, jamais voltaram a perturbar seu repouso. Uma mentira egoica, contada diversas vezes, pode levar todos (ou quase) a rememorar o final feliz de um acidente com elementos suficientes o bastante para um desfecho trágico. Quando se trata do passado umbroso, todo mundo manipula os acontecimentos, evocando a ficção.

Continue...

9 de abril de 2020

A sombra que me persegue


Esse não é um texto literário, devendo ser concebido como um intrínseco relato acerca de uma aparição fantasmagórica. Aquele não era um espectro qualquer, parecia um tanto aturdido, como se os devaneios suscitados por sua iminente presença também o tivessem alvejado, resultando agora em um fantasma assombrado pela própria condição espectral.

Havia uma canção, serenamente previa uma verdade: “todo mundo esperava (mesmo) alguma coisa de um sábado à noite”, desde baladas com música alta, bebedeira e bastante “pegação”. Há quem recorra a opções mais privativas, como um churrasco entre amigos, uma pizza suculenta ou quem sabe a melhor pedida não possa ser um passeio com a mulher amada sob a anuência da lua.

Naquela noite, minha noiva e eu preterimos todas essas alternativas, elegendo o cinema como nossa fuga da realidade, ainda mais atrativa porque as telonas não exibiriam uma produção qualquer, como filmes no melhor estilo “água com açúcar”, regados à tragédia e beijos arfantes ou mesmo aqueles que abdicam do bom roteiro para apostar em enlevadas cenas de ação. A escolha não poderia ser outra senão um bom longa-metragem de terror, bem daqueles repletos de sangue, vingança, situações inverossímeis, conjugando o melhor possível a se esperar nas últimas horas de um sábado.

Antes de ocuparmos a sala, paramos para garantir pipoca e refrigerante, um verdadeiro assalto capaz de despertar até arrependimento pela ideia de deixar o sacrossanto lar. Quando o pavoroso filme – no melhor sentido possível - já estava lá pela metade, voltei a amaldiçoar o oneroso copo de refrigerante, além de me deixar alguns reais mais pobre, ainda despertava a correr para o banheiro antes dos créditos finais saltarem as telas.

Por sorte, o popular WC ficava anexo à sala, há menos de cinquenta metros do assento ocupado por nós. A vontade de descarregar era vertiginosa a ponto de me fazer abdicar de uma cabine sanitária, recorrendo ao urinol, bem menos reservado. Estava já quase liberto do incômodo e pude perceber que meus ouvidos vinham sendo invadidos por estranhas sucessões de palavras, todas aparentemente sem nexo algum.

As frases ilógicas eram golfadas por um jovem, posicionado na outra extremidade do banheiro, postado à frente do mictório, totalmente impassível. Parecia uma assombração rija, entorpecida por alguma substância, com apenas a boca se movendo, vertendo incongruências, como se tivesse, se tivesse... sem explicação.

- Os protozoários são os seres mais avançados da humanidade.

- As pontas de plástico, no começo e final dos cadarços de sapatos, foram criadas para atender a um propósito maquiavélico. – Nesse instante notei a existência de um terceiro elemento, disposto entre mim e o excêntrico garoto no final do cômodo sanitário. A situação tomou contornos ainda mais apavorantes, quando esse rapaz abandonou o banheiro de forma totalmente autêntica, como se não estivesse testemunhando o invulgar comportamento do estranho, magro e de negros cabelos crespos e curtos, trajando camisa polo estampada e calça jeans. Seu olhar afastado contemplava a parede, tornando impossível, para mim, observar suas feições. Teria ele as órbitas carcomidas, realçando os olhos cerrados, acarminados como um mar de larvas vulcânicas?

Ao mesmo tempo em que me recompunha, voltei a refletir sobre o terceiro elemento. Talvez, ignorasse aquela estranha figura pelo simples fato de que aos seus olhos não havia ninguém ali, além de mim, claro. Não estava diante de algo vivo, mas sim de uma aparição sobrenatural, a se tornar visível somente diante dos meus olhos. Por que eu? O que diabos queria de mim? Iria acompanhar meus passos pelo resto da vida? Vestido no meu medo e possivelmente com os cabelos esvoaçantes, deixei o banheiro sem olhar para traz e também sem lavar as mãos. Mas o fantasma permanecia lá, até o ouvi bradar delírios do quilate:

- Jesus Cristo não se sacrificou pelos seus irmãos. Queria apenas impressionar o pai da garota que amava.

- No fim, a garota que Jesus Cristo amava se casou com seu maior desafeto.

Com minha noiva novamente entre meus braços, até tentei voltar a prestar atenção na trama fílmica, mas o verdadeiro horror a embalar minha agonia esteve dentro daquele fétido sanitário. Não demorei a rememorar a história de um adolescente, com características físicas parecidas com a dele. Reza a lenda que tinha ceifado a própria vida no banheiro daquele cinema, só não lembrava ao certo se foi através da ingestão de veneno ou teria posicionado a arma e apertado o gatilho contra a cabeça.
Os créditos subiam, indicando o final do filme. Talvez a produção pudesse ter configurado uma experiência deveras satisfatória, mas não pude acompanhar o suficiente para opinar. Felizmente, era chegada a hora de retornar ao lar e ficar bem longe do cinema pelos próximos sábados. No entanto, por infortúnio do destino, o dispendioso refrigerante protagonizava mais uma forçosa visita ao assombrado e mal cheiroso toalete masculino.

A súbita vontade fisiológica talvez fosse o oportuno momento para comprovar que a estranha aparição teria sido apenas coincidência ou um espasmo fantasmagórico. Aquela altura estaria se atendo a assombrar outra freguesia, andarilhar novas moradas, bem longe de mim, daquele cinema e também do shopping.

Foi exatamente o que constatei ao entrar no banheiro. Por via das dúvidas, voltei a ignorar as cabines sanitárias, recorrendo pela segunda vez a um dos muitos mictórios instalados. O alívio não durou muito, sendo surpreendido novamente pela insólita alma errante, surgindo de uma das cabines que antes parecia vazia.

- Todos os segredos devem permanecer sempre escondidos.

- Filmes de terror fazem parte de um experimento verdadeiramente sinistro – tagarelou, passando por trás de mim, aparentemente flutuando em direção à porta. Não demorei também para sair em disparada, sendo interceptado por minha noiva, que estava me aguardando próximo à entrada do banheiro.

- Algum problema, Armando? Até parece que viu um fantasma? - Indagou percebendo algo estranho no ar, afinal era evidente estar um tanto pasmado.
- Mariane, por acaso você avistou um rapaz esquisito, bem magrinho, saindo por essa entrada do banheiro, há no máximo uns dois minutos?
- Não vi ninguém sair daqui, além de você, claro. Por quê?

- Vamos cair logo fora daqui. – Aquela deveria ter sido minha resposta, mas diante do epicentro da tormenta, percebendo que estava mesmo ante uma aparição sobrenatural, apenas me ative a caminhar até a saída do shopping, cruzando o empreendimento deserto, a iluminação rarefeita, talvez espraiado por verdadeira horda de seres das sombras.

Do lado de fora, na fachada do shopping, uma chuvarada incessante atingia a região, postergando a ânsia de me deslocar até o carro, para assim dar logo o fora daquele lugar. Talvez precisasse tentar evocar o lado bom da coisa, possuía uma bela história para narrar aos amigos. Quem sabe reuniria nos próximos dias um grupo de desocupados para caçar a tal assombração, devolvendo as trevas aquele expurgo... Enquanto a chuva insistia em não cessar, narrei os fatos a minha noiva, deixando-a um tanto atônita com os acontecimentos. Antes de poder tecer qualquer opinião, assistimos a porta magnética novamente se abrir e de lá emergiu aquela assombração de camisa polo e calça jeans. A entrada triunfal me pasmou menos do que o semblante natural, ausente do antes ideado, olhos vulcânicos e órbita minada, apenas caminhando compassadamente até um táxi parado na porta do shopping. (Jesus Cristo não se sacrificou pelos seus irmãos, apenas queria impressionar o pai da garota que amava.)

- Mariane, diga pra mim: por acaso está vendo aquele cara ali, entrando no carro...

- Claro que sim, por que não estaria! – A resposta colocou ponto final ao mistério. Aquele jovem poderia ser muitas coisas, mas não estava diante de uma assombração e se não fosse aquela noite tempestuosa, essa dúvida permearia por muito tempo, quiçá para sempre. ( Filmes de terror fazem parte de um experimento sinistro.)

No fim, esse poderá continuar não sendo um texto literário e tampouco será concebido como um intrínseco relato acerca de uma aparição fantasmagórica.

Continue...

Noite de Halloween


É noite de Halloween.
Somos os olhos da escuridão.
Seres das sombras vagueiam,
asas de morcegos adornam
os jazigos no chão.
Onde repousam inertes,
fantasmas da solidão.

Céu estrelado com teias de aranha
A luz da lua, ofuscada pelas lanternas de abóboras,
que iluminam o caminho por onde passam,
Os funestos seres das trevas.
Esqueletos saltam dos túmulos,
assistem a dança das almas errantes,
em homenagem ao dia das bruxas.

Escondida na floresta, a casa assombrada,
misteriosa, prepara uma festa em honra aos mortos.
Apenas nesse dia, eles podem se misturar com os vivos e...
Quem sabe nunca mais voltar.

Só depois que a lua adormece
o encanto acaba e
o sol novamente acontece.

Continue...

22 de agosto de 2019

Lua de fel

Parte de uma trama sórdida traçada pelo destino, os recém-unidos em matrimônio teriam a primeira noite, juntos, sob a anuência do plenilúnio. O deleite pela nudez do momento contrastava com a pureza simbólica do vestido branco, esgarçado pela volúpia, cedendo lugar a qualquer vestígio romanesco, afinal as mostras de sentimentalismo foram exaustivamente encenadas nos longilíneos cinco anos divididos entre o flerte, compromisso, noivado e a enfim chegada do casório.

Queriam mais agora se render ao pecado carnal, teriam outros dias, a sós, para declamar poemas, tecer planos para o futuro, lamentar não terem durante aquela meia década se rendido antes à lascividade. Desnudos, apenas o semblante pervertido do recém-marido, entorpecido diante dos seios avantajados da ruiva, era o bastante para despertar sua excitação. Estacado sobre a cama, também fitava outros tributos do corpo de sua Senhora, seduzido até a desbravar o enigmático olhar o qual não havia sido ainda apresentado. Cada segundo mais enfronhados no prazer, as investidas lúbricas eram testemunhadas apenas pela lua gorda a aclarar o aposento. Pela janela, todo contorno circulante da órbita era emoldurado, abrindo-se na cadência veloz de uma estrela para adornar o ambiente aconchegante. Posicionando-se sobre o amante, a Mulher recorria a um movimento compassado, vertiginoso, levando-o a esgar de prazer. Pura exuberância como os cabelos vermelhos, esvoaçantes, roçando contra seu abdômen, proporcionando uma sensação inenarrável.
- Você me ama, Marido?

- Diga logo se você me ama, Marido – insistiu, após segundos silentes. Acanhado pela inoportuna indagação, pretendia evitar sobressaltos e lutava para não enrubescer de vergonha.

- Eu te amo sim. Te desejo mais do que tudo – respondeu sem muita convicção, torcendo para não se prolongar a sessão de ultrarromantismo.

Lá fora, a força das lufadas desvairadas impulsionavam as poucas nuvens no céu escuro, enquanto na alcova, os passionais indefectíveis foram acometidos pelo incitador calafrio. A luz prata, provinda da noite enluarada, penetrou mais intensamente no cômodo, passando a luzir os cernes descamisados. O uivo estrépito emergiu, rompendo abruptamente o epicentro do prazer. Pávido, o marido observava a metamorfose perturbante, com os belos cabelos rubros desatando do couro, ao mesmo tempo as mãos e dedos se alargaram, ficando cobertos por felpas em tom acinzentado.

O rosto, antes dotado de belas feições, deu lugar a um focinho franzido, repleto de pelos desgrenhados. Os olhos da besta fez o recém-Marido se ver diante do emissário da morte, eram amarelos como fogo, cintilantes, tão penetrantes. A criatura aluada ostentava afiadas presas, amedrontadoras em proporção parecida com as garras, saltando pelas opulentas patas.

O rugido da besta foi ouvido por quase toda a cidade. Com um movimento célere, a fera cravou os afiados dentes contra o pescoço daquele que há instantes, fora seu marido. A morte instantânea foi indolor, mas a felpuda abelha-rainha não estava saciada, fincando seguidamente as garras sobre o peito da vítima, rasgando ossos como papel, arrancando o coração ansioso, repleto de paixão, abocanhado em míseros segundos. O sangue jorra por toda parte e urrando às trevas, a sanguinolenta viúva lobisomem se delicia como mel avermelhado, escorrendo pelas presas aguçadas, enxovalhando os pelos do focinho achatado.

Esviscerado, o semblante congelado do marido denuncia um derradeiro e inusitado pensamento: além de proteções, vinhos e estimulantes, podia não ter se esquecido de trazer uma bala de prata para essa lua de mel, em plena noite de lua cheia ... Amarga como uma lua de fel .

Continue...

17 de junho de 2019

A Aparição

Uma casual conversa de bar, passando por uma incidental visita a uma cena de crime, até ser surpreendido por uma aparição fantasmagórica. Às vezes, quando a gente está procurando uma coisa, na base do acaso, acaba sendo encontrado por outra, afinal é impossível delinear os preceitos regidos pelo destino.
Aquela se anunciava como uma tarde diferente. Meu pai, padrinho e eu estávamos numa mesa de bar, jogando conversa fora enquanto transcorria o tempo. Entre goles de cerveja gelada, os dois conversavam sobre economia, evolução e queda abissal do mercado financeiro, um pouco sobre futebol, enquanto eu tentava sair incólume daqueles assuntos pouco inspiradores, preferia vislumbrar o suculento pastel de queijo, devorado com volúpia enquanto sanava a sede deglutindo generosos sorvos de coca-cola.
O pastel oleoso proporcionava uma gula verdadeiramente lasciva, que acabou sendo rompida pelo garçom, ah aquele maldito garçom, surpreendeu a todos com uma notícia nada jubilosa.
- Acabaram de assassinar a Jéssica! E você não vai acreditar seu Carlos, o pai dela, o professor Manuel, é acusado de ter praticado o crime! Tudo indica ser por causa de uma gravidez acidental. Vocês acreditam? – disparou o rapaz, arfante! Após resfolegar por alguns segundos, mencionou ainda a prisão do suposto autor daquele crime bárbaro.
- Quem é Jéssica afinal? – indaguei. Aquela altura o pastel descia de forma nauseante, azando inconveniente vertigem.
- Eu conheço toda família! Manuel foi meu cliente, inclusive. Como pode fazer uma coisa dessas? – lamentava o padrinho, desolado, mencionando o desejo de prestar condolências à família, diante de um momento indubitavelmente tão adverso e violento. Sugerindo que o acompanhássemos naquele penoso propósito, assisti meu pai aceitar o convite de prontidão. Para não me caracterizarem como uma figura dotada de preceitos egóicos, não hesitei em seguir com eles.
No curto percurso até ao apartamento onde moravam, pensei na garota, que teve a vida dizimada por uma mostra de violência tão desmedida, impulsionada por razão tão banal. A família até poderia reunir forças para seguir em frente, dar a volta por cima, mas o alicerce familiar permaneceria eivado.
Na portaria do condomínio onde residiam, foi autorizada nossa entrada. Ainda no hall do luxuoso edifício, meu padrinho mostrou a foto da garota morta, uma jovem com aparentemente menos de 18 anos, seu semblante revelava uma pureza singular, agora maculada pela ira descomunal de um pai tresloucado. Pensava que com o mundo habitado por figuras tão nefandas, o demônio é representado em sua essência natural!
Na porta de entrada para o apartamento, logo após tocar a campainha, lamentava ter que visualizar o local onde repousava a jovem, aquela trama sórdida e com traços obscenos. Uma mulher, possivelmente a secretária, atendeu e permitiu nossa entrada naquele apartamento com energia tão onusta, capaz de despertar inquietude. Mal entrara e estranhamente me sentia confinado naquela caixa de tijolos, areia, cimento, argamassa....
- A dona Vera pode nos receber? - Perguntou meu padrinho, me levando a concluir que a pessoa citada seria esposa do tal assassino e mãe da menina que momentos atrás teve a vida ordinariamente ceifada. – Não sei se chegamos em boa hora. Como amigos, viemos para prestar comiseração nesse...
- A dona Vera saiu para tratar do velório e enterro da filha – interrompeu a secretária. Demonstrando estar muito chocada, lamentou o triste fim imputado à garota por um pai impelido de puro ódio e vaidade! – Tantas meninas engravidam nessa idade. Ainda posso ouvir os gritos dela, enquanto o miserável cravava as facadas contra seu corpo – expôs com os olhos marejados. Antecipando as respostas para outras perguntas, confirmou que Manuel já havia sido preso e o corpo da garota recolhido há poucos minutos.
Embora nos tratasse de maneira amistosa, era perceptível que a secretária estava acometida pela tragédia. Pensei em preencher algumas lacunas, dúvidas a saltar sobre meus olhos, como saber se o tal Manuel demonstrava antes comportamento violento ou se havia alguma rusga entre família e o pai da criança. Mas não tive coragem de ser tão invasivo e petulante.
- Eu vou passar um café para vocês. Se quiserem ver o local do assassinato, foi no segundo quarto à direita – comentou. Antes de seguir para a cozinha, frisou que os investigadores orientaram a entrada de uma pessoa por vez, pedindo ainda para o cômodo ser mantido climatizado, visando a preservação da cena do crime!
- Quem, em sã consciência, teria o mau gosto de visitar o aposento, pano de fundo para um assassinato tão brutal? – refletia assistindo meu padrinho se mover pelo corredor. Torci para ser um alarme falso, naturalmente estava procurando o banheiro, até seus passos lhe levarem precisamente ao segundo corredor à direita. Com a saída do padrinho, foi a vez de meu pai entrar. Como sempre acreditei que é sempre melhor nos arrependemos pelo que fizemos, assim que deixou os aposentos resolvi bisbilhotar também.
A primeira impressão, ao ocupar o dormitório, foi de ter sido alvejado por um choque térmico, afinal a temperatura estava bem álgida em relação a sala de estar. O aposento da jovem era bastante amplo e, como em muitos outros quartos de garotas, tinha a decoração baseada nas cores branco e rosa. Havia ursos de pelúcia sobre vários nichos montados na parede, prateleiras adornadas por livros, além de um televisor tamanho médio pendurado na parede.
A direita ficava o extenso guarda roupa, praticamente caberia uma boutique ali dentro. Dividido em duas partes, a cama ficava entre elas, havendo um criado-mudo de pequenas dimensões no canto esquerdo. De frente a cama, uma escrivaninha, com algumas gotas de sangue que formavam um caminho até ao leito, encharcado pelo líquido.
A despeito de não despontar como um especialista em assassinatos era possível presumir: Jéssica estava sentada na cadeira, de frente ao computador quando foi surpreendida pelo pai. Empunhando uma faca, desferiu os primeiros golpes contra a filha, que, ferida, tentou se desvencilhar do agressor. Havia um ponto no qual era mais concentrada a abundância de sangue, possivelmente ali foram desferidos os golpes mais profundos. Sem forças, a garota tombou sobre a cama, onde permaneceu sofrendo a investida até sucumbir completamente.
Há alguns metros da cama, uma das portas do roupeiro estava aberta e lá havia um espelho. Estranhamente o objeto refletia uma nevoaça, somente visualizada através do reflexo. Observando atentamente, da neblina vi emergir uma garota, coberta por sangue que escorria pelos longos cabelos. Ardilosa nas sombras, ostentava olhos cerrados, negrumes, carregando nas mãos um amontoado de carne humana, semelhante a um feto, completamente desfigurado, exalando um choro pavoroso, mais semelhante a um sussurro agudo.
- Salve o meu bebê, salve o meu bebê, salve o meu bebê, salve o meu... – vociferava cada vez mais alto. A misteriosa e desvairada aparição se aproximava, lentamente. O choro da criança ficava mais intenso, enquanto permanecia se aproximando, bem lentamente... Os passos seguintes deixaram-na tão próximo a ponto de, na tentativa de correr com todas as forças, acabei foi despertando do sono, deveras assustado, como se escapasse da masmorra do inferno.
No mundo real, narrei a trama para amigos. Alguns argumentaram que meu subconsciente armou uma arapuca previsível, nítida pela forma como o enredo foi costurado. Já que tudo não passava de um sonho, lamentei não ter sido capaz de salvar a Jéssica dentro de meu próprio estranho mundo. Por que diabos, o inconsciente preteriu a oportunidade de me tornar herói, apenas para idear uma personagem morta, vivendo tão somente para me assombrar!

Continue...

5 de junho de 2019

De olhos bem fechados

A sensação, de estar diante do proibido, despertava mais deleite do que propriamente o ato prestes a ser praticado. Não era sempre que Armando tinha Laura descamisada, sobre seus braços fortes, com o quarto onde os pais dela dormem servindo como alcova para o pecado a se suceder. Se lá fora, a noite era negrume, com uma lua encafurnada pelas nuvens em meio ao céu “desestrelado”, dentro os corpos eram como carvão crepitante, com as peças de roupas se esgarçando diante da tão ávida lascividade.
Os dois se amavam com volúpia, degustando a cama que não lhes pertenciam, por entre as cobertas que já cobriram os corpos de outro casal, talvez até durante núpcias que nove meses depois permitiriam a chegada de Laura ao mundo, a mesma Laura que experimentava ali a excitação descabida, no palco de sua fecundação. O soído da cama, acentuado pela intensidade do movimento corporal, deixava Laura em ainda mais êxtase, enquanto Armando se via cada segundo mais atraído pelo hiperbólico sussurro da amante. E assim seguiram, experimentando, cada vez mais acometidos pela jubilação, até alcançarem juntos a plenitude da fruição!
De olhos bem fechados, antes que o véu retornasse ao seu rosto, sendo tragada a nudez de um murmúrio encantador, Laura seguiu para os braços do seu galanteador, ensaiando um beijo deveras refolegado. – Pena que acabou – lamentou a ruiva, com charme, tocando seu longo e avermelhado cabelo. Ainda despida, deixou a cama que testemunhara a travessura, caminhando languidamente até ao banheiro.
- Será que devo ir embora? – perguntou Armando, ainda arfante. Apesar de atleta, daquele que passa horas debruçado sobre aparelhos de ginástica na academia, faltava-lhe forças para domar os ímpetos da bela ruiva!
- Meus pais ainda vão demorar muito a chegar! Você pode dormir algumas horas, mas precisa ir embora antes de amanhecer! – respondeu Laura, antes de ligar a ducha. Impotente diante do esforço descomunal, sofreguidão praticada durante àquelas horas, Armando não podia se fazer de rogado e aceitou repousar sobre a cama dos sogros.
Fatigado, não demorou a sucumbir, sem perceber os passos dados na suíte. Sequer percebeu a figura postada em frente à cama, velando seu sono de maneira acintosa. Após alguns minutos, deslocava-se compassadamente em direção ao banheiro, deixado com a porta entreaberta. A luz paca, que emergia da lâmpada do espelho, era suficiente para deixar perceptível o vapor proveniente do chuveiro elétrico.
A água, pelando, escorria pela vermelhidão capilar e de lá percorreria todos os cantos daquele corpo exuberante, seios inebriantes, pernas tonificadas, que instantes atrás estavam sedentos pelo prazer cintilante. Mesmo que estivesse se banhando com o líquido frígido daquela noite gélida, ainda permaneceriam acesas as labaredas, bastava rememorar algumas daquelas traquinagens e quantas. Por um instante, chegou a se sentir mal, como se tivesse invadido a intimidade dos pais, profanando seu antro de amor, mas a vontade de se render ao proibido acabou sendo mais austera. Apenas Armando havia lhe despertado essa espécie de libido e ficou assim a pensar, como era bom ter encontrado a pessoa certa.
- Eu acho que vou acabar me casando com esse cara – pensava, exultante por experimentar sensações dessa magnitude, ao contrário dos outros relacionamentos aviltantes os quais acabou colecionando. Laura desligou o chuveiro, apanhou uma toalha pendurada no cabide e passou a se enxugar, começando pelos cabelos, depois as pernas, passando para as partes íntimas. Quando sentiu que poderia sair, sem deixar inundado o banheiro dos pais, deu conta que estava sendo observada por Armando.
- Meu amor, você está acordado! Por um momento, ao desligar o chuveiro, pensei ter ouvido o seu ronco. Você nunca gostou muito de me espiar tomando banho. Juro que se tivesse lhe visto antes de terminar, iria te convidar para aproveitar a água quentinha... – Laura resolveu parar de falar compulsivamente, ao perceber o silêncio do namorado.
O vapor do banho quente havia formado uma espécie de bruma e com a fumaça gradativamente se dissipando, Laura pode perceber que havia algo estranho no semblante do namorado. Ostentava um olhar enegrecido, barba por fazer, diferente de minutos atrás, o cabelo também possuía algumas mechas brancas. O que mais lhe assustou foram os olhos vermelhos, revelando um vazio nunca antes testemunhado, parecia até exalar maldade. Como em minutos, o namorado gracioso, dava lugar aquela persona tão controversa, apinhada de dualidades!
Exibia um sorriso caliginoso enquanto a olhava fixamente, intenso a ponto de despertar desassossego. – O que está acontecendo? Você está tão estranho! – indagava Laura, já em prantos. Armando, ou aquilo que tomava sua forma, limitou-se a responder: - Putinha, suja! Você é uma vadia realmente devassa! – bradou com voz repulsiva, em seguida, deixando o banheiro a passos trôpegos.
Com a toalha cobrindo o corpo, a ruiva não se permitiu nutrir raiva pelas duras palavras e adornada pelo medo seguiu até ao quarto, encontrando Armando ainda prostrado sobre o leito, em estado de pura letargia. Ainda enrolada na veste improvisada, sem vestígio da estranha aparição, faltou-lhe coragem de procurar seus rastros pela casa. Apenas deitou ao lado do namorado, também ansiava por um repouso, faltavam algumas horas para os seus pais chegarem.
Exaurida, buscou refúgio entre a amplidão de músculos braçais do desfalecido amante. Destinaria algumas horas para dormitar, mas sem piscar, mantendo a cada segundo seus olhos bem abertos!

Continue...