7 de setembro de 2016

Nas garras do assassino

Em um dos sonhos, estou a caminhar, sem saber ao certo por onde, quando subitamente sou vitimado por uma rajada de tiros. Antes de padecer, tento determinar a direção das balas, ao mesmo tempo em que sinto a vida se desvairando e não demora para me tornar estatística, com direito a requintes de crueldade. Em outra perspectiva, durante um assalto qualquer, acabo me vendo sob a mira de um revólver e algumas vezes, antes de retornar ao mundo real, até consigo ouvir, distante, os estampidos dos disparos.
Em determinadas cenas, o devaneio parece oferecer uma trégua, afinal o alvo já não sou mais eu e sim algum desconhecido. Fica o lamento pelo sonho bom ter dado lugar à cena de crime, geralmente regada a muito sangue. O pior pesadelo se configura como uma trama trágica.
Diante dos meus olhos, atentam contra a vida das pessoas que mais amo, fadadas a partir, sob meus braços. Além de ser submetido à visão lutuosa, a dor se mistura a uma inconveniente sensação de impotência, além do ardoroso sentimento de vingança.
O consolo vem da certeza: tudo está na minha cabeça! Apesar de ninguém ter morrido, só eu sei o quanto parece real e como essas experiências me assombram. Verdadeiro a ponto de ser o mais próximo do inferno que quero ou me permito chegar.

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31 de março de 2014

Deus, apareça!

#Intrigado! Estava no elevador e lá havia um homem que creio nunca ter visto na vida, sequer sei se realmente mora no condomínio. Após um breve silêncio, o desconhecido olhou para mim, como se quisesse puxar algum tipo de conversa e disparou: se você pudesse fazer uma pergunta a Deus, qual seria? Confesso ter ficado deveras assustado e como o elevador chegou rápido ao andar onde iria descer, acabei me despedindo e não respondi a indagação.

O estranho é que logo quando ouvi a pergunta, subitamente me vi invadido pela resposta. Como posso nunca mais voltar a vê-lo e considerando a hipótese desse senhor ter, bem na base do acaso, o poder para acessar minha página, creio que durante interação com Deus iria querer saber: por que as coisas são mais fáceis para algumas pessoas do que pra outras? No entanto, a resposta é só para não deixar meu ilustre desconhecido no “vácuo”. Possivelmente se me fosse dada essa chance, rechaçaria a oportunidade, reservando-me ao silêncio, até para não correr o risco de ouvir o Senhor responder algo do tipo: cada um tem o que merece... Isso sim seria deveras desestimulante! #misterio

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Fantasia

Com um pouco de imaginação, durante a confecção daquelas enfadonhas matérias policiais, consegue se ver na condição de um escritor, em seu provável leito de morte, ostentando uma caneta e um caderno puído e borrado. Sucumbido pelas enfermidades, tenta reunir as últimas forças para compor sua obra derradeira e gradativamente, os fatídicos assassinatos, assaltos e estupros adquirem uma conotação distintiva, sobressaindo mostras de inventabilidade e conteúdos menos nefastos.

Agora, entorpecido pelo encanto da ilusão, está a desbravar horizontes desconhecidos e por poucos minutos, consegue se tornar um escritor de verdade, até chegar a hora de avançar para outro plano, afinal, todos estão fadados a morrer! E partirá, levando consigo a certeza de que cessação mesmo seria: renunciar a tal fantasia!

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9 de outubro de 2011

Mentiras

Mentiras

Você voltou eu sei...
Mas não te encontrei
Não encontrei você

Os Sonhos mudam de espaço
A Lua míngua
Até quando se faz dia
Língua que desliza devagar...


Eu sempre fiz questão de acreditar
Você encenava bem o seu papel
Representava um amor de mentira...
Enquanto tentava buscar desejo em seu olhar

Mentiras!
Não te encontrei

Vidas devoradoras de energia
Voracidade, fantasia
Obsessão que fere qualquer coração

Eu me apaixonei
Você só brincou
Inventando um falso prazer para iludir
Jamais achei verdade em seu amor
Só encontrei mentiras!
Não te encontrei

Mas...
Quem se nega quando ama
Está fadado a ficar sempre sem ninguém

Eu me apaixonei
Você só brincou!

Você voltou, eu sei...
Mas, não te encontrei
Nunca encontrei você!

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25 de agosto de 2011

Sintonia dos corpos

Ver você suspirar brandamente
com sons plangentes.
Evocando...
Sussurrando o meu nome
Sucumbindo da falta de minha alma.

E no âmbito dessa paixão
Na plenitude do seu gozo
Está confinada a me desejar para sempre
Fadada a padecer eternamente da mais louca desventura...
Quer é ter nascido:
Para me amar

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6 de agosto de 2011

Senhora da solidão

O amor deve ser experimentado
E não apenas idealizado...
Mas você me proibiu Senhora
Que pudesse expressar de qualquer forma
Sobre o quanto padeço pela sua ausência!

Sequer tenho Senhora a quem recorrer
A quem direi:
O quanto sinto e sofro por sua iminente partida
Talvez só a você mesmo Senhora.

Ou a quem vou depositar meus ímpetos de carinho
Expondo todo o meu amor
Se não for a você Senhora.
A partir do que se viveu
Do que não existe mais.

PS: só pra dizer que atualizei o blog

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11 de julho de 2011

♪ Sweet amada♫



O coveiro que vocês mais gostam está de volta, trazendo uma boa pedida, em especial para os sepultados que têm uma namorada de prenome Raquel/Rachel e se forem apenas “ficante”, também serve.

Em decorrência de alguns compromissos vinha meio afastado do mundo das músicas, sem muitas novidades para postar aqui, em termos de Alquimia Musical. No entanto, na base do acaso e pra variar meio sem querer, acabei encontrando outra relíquia, Sweet Rachel, que precisava ser compartilhada aqui com meus mortos.

É possível que alguns de vocês já conheçam a bela canção, mas para a maioria deve de ser novidade e como disse acima, sem dúvidas, é uma boa pedida para quem está emocionalmente envolvido com alguma Raquel/Rachel, inclusive você pode até dar uma de espertalhão, em uma espécie de desventura pela poesia em língua britânica, assumindo a autoria da obra. É crime, bem verdade, mas creio que os compositores da banda Beau Coop não devem acionar você na justiça, tudo é válido quando praticado em nome do amor – ao menos quase tudo.

Para mim essa é a melhor música que vi entre aquelas intituladas com o nome próprio de alguém. Inclusive estou lamentando muito não existir uma Raquel/Rachel em minha vida para contemplar meu envolvimento com essa belíssima canção. Aí me veio à cabeça uma “ideia” básica, a gente mantém a letra original, conserva o sweet e altera apenas o nome da musa, aí teremos Sweet Sandra/Sweet Barbaba/Sweet Aline... e todos seremos felizes com suas respectivas amadas, para sempre!

Confiram a letra e a tradução:

Sweet Rachel


Rachel
What do i do now
You got me going
But i can't seem to find out what to do

Cause i'm a man that finds himself giving all that i can
But then you tell me time will bring us closer at hand

Sweet rachel
When am i gonna' find out
That the world is not always what i want it to be
Sweet rachel
When are you gonna' find out
That life will always be harder for me

When i was younger
I could run all around
But now i'm older
And dreams seem to settle down

I've got so much love living down inside of my soul
But i'm afraid my heart can't pay another lonely toll

Sweet rachel
When am i gonna' find out
That the world is not always what i want it to be
Sweet rachel
When are you gonna' find out
That life will always be harder for me

========
Tradução
========

Doce Rachel

Rachel
O que eu faço agora ?
Você vai me levando
Mas não consigo descobrir o que fazer

Porque eu sou um homem que se encontra dando tudo que posso
Mas então você me diz que o tempo nos aproximará cada vez mais

Doce Rachel
Quando eu vou descobrir
Que o mundo não é sempre da maneira que eu quero que ele seja
Doce Rachel
Quando você vai descobrir
Que a vida será sempre mais difícil para mim

Quando eu era jovem
Eu podia correr por todos os lados
Mas agora estou velho
E os sonhos parecem terem se acalmado

Eu tenho muito amor vivendo dentro de minha alma
Mas eu temo que meu coração pague por outra sentença

Doce Rachel
Quando eu vou descobrir
Que o mundo não é sempre da maneira que eu quero que ele seja
Doce Rachel
Quando você vai descobrir
Que a vida será sempre mais difícil para mim

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10 de julho de 2011

Vazio Íntimo

Vazio Íntimo

Não há o que dizer
Tão pouco há o que pensar
Folha branca
Silêncio
Paredes congeladas


Nesse cenário
O palco em que ainda persiste a insegurança,
A angústia de está preso a incerteza
Tentar manter, do amor, o último rastro de luz acesa;

No leito, sinto seu perfume pelo ar,
Na marca de seu corpo, ainda latente;
Ouço o timbre duma ressonância

No princípio e o espelho da memória
Rasga a invólucro do instante
Vincula o presente ao passado
Sombrio

Há um vazio que espera ser preenchido
Não com metáforas e poesias
Nesse fluido vivo, desenfreado
Dissimulado e oculto
Como se fosse nada

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5 de junho de 2011

Romance

O João amava a Maria... e a Maria... bom, a Maria...

Nas pegadas da amabilidade, afinal quanto tempo se leva para encontrar um amor verdadeiro? Talvez não muito, quando se parte do ponto que o princípio ativo desse demônio conhecido como amor, vem de dentro para fora. O sentimento já habita o íntimo e se prolifera em ritmo constante, às vezes desenfreado, bastando apenas se deparar com um tolo e o elegermos como súdito desse tesouro (erário) em clima de maldição. Não importa, o desafio maior é encontrar alguém disposto a asilar nossos ímpetos de afabilidade.

O procedimento é distinto, o critério de escolha pode beneficiar candidatas de diversos tipos. As mais populares, inteligentes e quem sabe as gostosonas em meio a seus cabelos cacheados, acompanhados pelas pernas avantajadas. Também tem as carentes ou as mais tímidas, aquelas bem ricas também apresentam bons atrativos. Mas claro, para variar, logo se encantou e acabou preferindo a esquisita e contraditória, atraído simplesmente pela indiferença que exibia em cada minuciosa atitude, o olhar contido, jeito rude, comportamento arredio, servindo para denunciar o medo, carência e, sobretudo, solidão. Ela procura alguém que lhe cuidasse e ele almejava quem quisesse se deixar proteger.

O diálogo e a cumplicidade nunca foram os pontos fortes, eram suprimidos pelo encantador clima de disputa, afinal formavam um casal (a)normal, ansiando elementos modernos para fomentar a relação ardilosa. Ambíguos, o alimento eram as suas brigas e discussões variadamente fúteis. O murmúrio encantador renegava os campos abstratos e figurava como uma condição mais concreta, por meio da ausência de humor que ostentava, unidos as brincadeiras idiotas que fazia uso, que misturadas a plenitude do gozo, acabavam apenas referendando mais um experimento hilário naquele malfadado casamento.

A beleza não lhe era ausente, embora peculiar, constantemente ofuscada pelo semblante nefasto e a índole inconstante. Mas, aparentemente, a resultante desses defeitos era positiva. Ele nunca mentiu quando disse que a amava, porque talvez não compreendesse o seu modo de amar. Seus olhos vislumbravam uma espécie de latria que dialogava com devoção e excessiva obsessividade. No entanto, possuía um lado mais puro, romantizando milhares de ilusões, com direito a fatos jamais acontecidos, fingindo acreditar nas mentiras que inventa, deletando o que nunca existiu, por ser vitimado por uma saudade que assombra, um desprezo que condena, um amor que só destrói.

Definitivamente, os fim não justificam os meios, não há como abortar da maldição que o cerca. Também não importa quantas vezes se abandonem, dará posteriormente um jeito de trazê-lo de volta. E retomará o desafio, mesmo sabendo que nada poderá fazer para ajudá-la, alterando o fatídico cenário de dor e desvelo, padecendo do vazio que a cerca, o palco da iminente derrota está erguido, nunca imprimindo qualquer mudança significativa.

Sim um amor, acometido pelo desgosto da incerteza, nunca saberá ao certo a qual das duas incide o sentimento, na personagem real ou diante de uma figura dramática criada por seu inconsciente insano, ligada ao seu íntimo fantasioso. Desconfia estar loucamente apaixonado por uma extensão de sua mente que não se sabe bem como, resolveu habitar sem permissão o corpo dela.

Certeza é que no fim, ambas, a real e aquela correspondente ao seu pensamento, não precisam mesmo desse amor, apego e dedicação, que ousou jurar que lhe pertenceriam para sempre.
PS:Uma relação intrínseca e misteriosa que está muito além de uma reles concepção de estilo literário.

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4 de junho de 2011

Lendo as cartas da Cartomante Machadiana II (Final)

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Foco Narrativo

O narrador, no âmbito de uma perspectiva básica textual, assume o caráter de uma entidade responsável por narrar aquele determinado acontecimento. É uma das três esferas em uma história, sendo os dois outros o autor e o leitor/espectador. O ledor e o escritor dialogam com o mundo real. É função autoral estabelecer um mundo alternativo, paralelamente ambíguo com as figuras dramáticas rodeadas por cenários e eventos disformes que fomentam a ideia escrita. Nesse processo, o leitor também possui o seu papel, sendo incumbido de entender e interpretar a mensagem. O narrador existe meramente no mundo da história, formando o fio tênue entre leitor e trama de uma forma que possa compreendê-la.

A história, claramente narrada em terceira pessoa, tem a presença onisciente do autor, que usa dessa mesma onisciência para narrar e descrever os fatos. O narrador, nesse caso Heterodiegético - não é personagem da história, a forma mais comum na literatura. -, às vezes, assume apenas a posição neutra, transmitindo a realidade através da descrição das ações. No entanto, em outros momentos, prevalece a condição de narrador onisciente intruso, com liberdade plena, assumindo-se um conhecedor do âmago pensante e psicológico de suas personagens.

O advento perpétuo de uma voz onisciente é relevante por incitar a narrativa com uma atenuante, acentuar os passos dramáticos da obra, suscitando os conflitos internos das pessoas, formando um prólogo de recursos literários mais intensificados. Na ausência dessas soluções, o texto seria conferido em uma atmosfera mais uniformemente mórbida e invariavelmente monótona pela facilidade de presumir o seu desfecho. Também se atribui a esse recurso, o poder do autor em situar o leitor durante o curso do enredo, não somente ilustrando eventos como textualizando narrativamente.

O conto ainda utiliza dois discursos, tanto direto como indireto. Já que em diversos trechos os personagens ganham voz dentro da história, com o narrador, interrompendo a narrativa, para lhes conceder o direito de fala. Mas, em outras passagens, a perspectiva é diferente, não há diálogo, o narrador não as coloca a falar diretamente, mas faz-se o intérprete de sua voz, transmitindo ao leitor o que disseram ou mesmo pensaram.

Estrutura textual, Figuras dramáticas e a Trama

O texto é intrigante pelo poder de, em poucas linhas, desencadear em um incomum experimento no quesito estrutura narrativa, dividida em três partes. Na primeira, o período inicial, no qual o autor se preocupa em traçar um panorama introdutório, usando da precisão textual que lhe é peculiar. O leitor toma conhecimento que Rita, uma bela jovem, vítima da libido pecaminosa da carne, porém dotada de um espírito ingênuo, recorre a uma cartomante para saber se seu amante, Camilo, havia deixado de amá-la, já que há tempos não recebia suas visitas. O aparente mal entendido é desfeito, quando num segundo momento, o narrador transcende ao passado para atestar como se montou a relação, dando ao conto características alineares. Camilo era amigo de infância de Virela, que afastados pelo tempo, acabam se reencontrando, quando este já está casado com a jovem.

A amizade é o elemento central responsável por nutrir a intimidade entre Rita e o amante, ainda mais após a morte da mãe dele. Em nome do afeto que sente por Virela, Camilo até relutou contra seu desejo, embora, a atração por ela acabou sendo mais forte. No trecho crucial de A Cartomante, Camilo recebe um bilhete de Vilela, algo do tipo “Vem já já”. A princípio, isso logo lhe pareceu o enúncio do fim, o amigo parecia ter descoberto tudo. Partindo de imediato, vê-se preso devido ao grande tráfego causado por um acidente, exatamente nos arredores da casa da cartomante. Após uma profusão de conflitos e de romper muitas barreiras, Camilo também resolve aderir ao misticismo. A visita dura pouco, mas demora o suficiente para que lhe sejam galgados veredictos deveras animadores. Seu alívio veio junto ao trânsito que se dispersou e então resolveu partir a casa do colega. Logo quando foi recebido, além do rosto desfigurado de Vilela, completamente entregue ao desejo de vingança, o corpo de Rita, agora somente uma carcaça, falecida sobre o sofá. Antes que se recuperasse do choque ou que pudesse esbanjar qualquer reação, foi vitimado também pela ira do marido traído.

O enredo essencialmente conta com quatro personagens protagonistas, que seriam na ordem Vilela, Camilo, Rita e a figura incógnita da cartomante. No entanto, há outros personagens importantes que não marcam presença direta na história, é o caso da mãe morta de Vilela, que não obstante de secundária, assume uma atribuição capital na envoltura amorosa entre Camilo e Rita. Essas participações, portanto, não são e muito menos podem ser ideadas como o fruto de um acaso não intencional, fazem parte da inteligibilidade narrativa, e figuram-se como determinantes para o enredo da contextura. Machado de Assis além de analisar, também enfatiza psicologicamente todos os papéis, preconizando dilemas e conflitos interiores bem como aquilo que mais temem.

Quando a proposta é abordar o enredo, impossível logo não se remeter ao triângulo amoroso apresentado, a peripécia do adultério, abordada em Memórias Póstumas de Brás Cuba. Amigos de infância, Camilo e Vilela se encontram após um longo período de distantes. Depois de se reencontrarem, Camilo descobre que o amigo casara-se com Rita, a quem posteriormente é apresentado. O resto é até simples presumir, um misto de paixão, traição, adultério seguido de morte, mas isso o leitor só vai descobrir no final.

A formação do triângulo amoroso é que dará continuidade a montagem de Machado, com a jovem entrando em cena, já que sua desventura extraconjugal é o ponto de partida para buscar os conselhos de uma cartomante, que imediatamente prevê muita sorte e alegria nos novos rumos que sua vida vinha enveredando.

Já o amante, uma figura cética, na iminência de assentir um chamado urgente do amigo, vê-se atormentado pelo sentimento de culpa, ironicamente – na base do acaso –, busca consulta nas palavras da mesma cartomante, que também lhe conjetura um futuro próspero, em forma de duas balas que lhe atingiram o peito, desferidas a queima roupa, vendo sua vida esvaecer ao lado do cadáver da amada que o esperava, na vitória pré-estabelecida do ceticismo que coroa o texto.

Em A Cartomante, o desfecho justifica o conceito narrativo, mistério e misticismo, perspectivas que o texto dialoga, subitamente saem de cena, dando vazão a veracidade, no fim o realismo prevalece, na esfera psicológica, o natural desejo de vingança que assola e seduz. E não se pode negar que Machado não forneça evidencias de seu idealismo, no ritmo lento da narrativa, contrastando com o desfecho, o qual a velocidade subitamente dobra ou triplica no último ato.

Por fim, basta se aventurar por novos contos e romances de um dos mais antigos e atuais autores da Língua Portuguesa, que partiu faz tempo, deixando hereditariamente um legado que se renova, a cada leitor, inspirando gerações que vêm e vão, todos sempre fascinados pela presença da ironia, desse romântico às avessas, sarcástico e com a dose perfeita de pessimismo. O caminho para conhecê-lo é um só, pôr-se a ler sem parar. Porque a fórmula para sucesso é submissa à vontade, a gama pelo conhecimento ainda desconhecido, nesse emaranhado de palavras e orações, que precisam ser devorados, com volúpia semelhante à aptidão natural de um machado flamejante em dizimar suas vítimas.

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