6 de abril de 2018

Samhain – Do antigo festival da colheita ao culto a Wesley Safadão

Forças ocultas pareciam ter conjurado uma trama sórdida, ensaiando por baralhar dois planos paralelamente ambíguos. O ritual começa com uma convenção social, camisa xadrez, calça remendada com panos de cores sortidas, cinto com fivela e a bota que proporciona a pegada country. O último detalhe: o velho lápis preto, para desenhar um bigode e cavanhaque proporcional ao seu rosto.
Assim que saísse por aquela porta, o forrozeiro arretado percorreria o trajeto que o levaria a Rei do Milho, tomando a forma de uma sumidade, que brindaria a própria sorte com seus súditos e sentaria no trono para beijar a Rainha, a garota mais bonita do vilarejo. Ao bater a porta de casa e avançar para a noite mais vultosa de sua vida, acabou aturdido, com seus olhos demorando para se habituar à penumbra, sem reconhecer toda a luminescência rarefeita. Observava as labaredas formadas pelas chamas sendo arrebatadas pelo sopro da ventania. Também fitava o milharal, que se estendia além do alcance ocular, e a lua, o elo entre os orbes singulares, que naquela excêntrica noite resolveu se apresentar como uma circunferência colossal, alaranjada, escalando o horizonte para lumiar todas as ações.
Os andarilhos, gradativamente, abandonavam o caminho de pedras e se embrenhavam a esquerda na plantação. Antes, empunhavam e acendiam suas lanternas, utensílio essencial para se protegerem da escuridão, afugentando espectros que pudessem cruzar seus caminhos. O postulante a Rei do Milho aproximou-se de um pequeno bando e, sem se deixar notar, acompanhava suas pegadas, enveredando por aquelas fileiras regulares, cheias de sombras. A luz advinda das luminárias guiava sua andança até a clareira que converge o milharal. Ladeados pela plantação, a maioria dos andantes projetava-se empertigadamente até a clareira, enquanto outros pareciam fustigados pelo trajeto mordaz. Outros seguiam trépidos pelas extensões das fileiras, como se percorressem o caminho da morte, ou até carregando nos ombros a insofismável condição de profanadores do milho.
A cada trote, espanto e estupefacção, a oportunidade de confrontar os piores medos. O pressentimento de cada passo estar sendo observado pelo mal, sorrateiro nas sombras, vigiando, afinal, estavam desatadas as trancas dos portões que separam os planos invulgares. A plantação emanava o cheiro do milho amalgamado com o odor dos fertilizantes orgânicos. E se espalhava, invadindo narinas, embevecendo a peregrinação, quase o cheiro do finamento.
Também era possível vislumbrar um som quase imperceptível, sequioso, sussurrante do silêncio. Em alguns ensejos, a força do vento ensandecido era cortada pelos pés de milho, formado uma entoação advinda das almas errantes incubadas, ecoando a liberdade em honra aos poderes das trevas. Já não podia diferenciar se presenciava o milharal farfalhando ou sua serenidade sendo dizimada pelo êxtase assombroso... desconhecido. A incursão finalmente chegou ao fim quando escaldados, os vagantes puderam desembocar na clareira em pequenos grupos, onde eram aguardados por uma estranha figura, que apenas se atinha a fitá-los.
Nada daquilo está acontecendo? Era apenas um pesadelo bobo? Com o mistério formado, tentava manter-se incrédulo em meio a possibilidade de estar diante de uma liturgia satânica com sua essência puramente voltada para o mal. A saída era idear uma mostra de encenação surrealista e todos acabariam resgatados incólumes diante do evento.
Numa espécie de púlpito improvisado, a estranha figura sacerdotal trajava um indumento intimidante. Uma túnica negra, seu aparente artigo cerimonial, com marcas de sangue estancado. Por cima, uma toga traçava seu corpo débil e a chapeleira que cobria a cabeça fazia com que apenas sombras pudessem ser visualizadas por todos que tentavam observar as feições de seu rosto.
Com fala cadenciada, passou a fazer a pregação sem sequer se apresentar ou cumprimentar a plateia. Suas palavras eram carregadas de ódio, rancor. Tinham poder de arrancar suspiros, tocar o íntimo, despertar o sentimento de vingança, praticando o desamor.
- Eles pagarão por seus pecados com o sangue que lhes alimenta a vida! Reparação! Somente pelo sangue do cordeiro nos salvaremos. Profanadores, asseclas traidores. O milho estava morrendo por excesso de pecado. A fartura só retornará com sacrifícios nas fileiras.
- Esse profano é insano – comentou um andante, quase como um cochicho.
Quando afinal irá começar o show do Wesley Safadão? Indagava em seu intimo o Rei do Milho, mesmo diante daquela figura pagã, capaz de conduzir seu pecaminoso rebanho em sacrifício. Brumas passaram a ladear toda a clareira e lentamente, um a um, os pecadores se lançavam à plantação, assistindo o esvanecimento da vida, sendo tragados pela névoa e luz a emergir do milharal. Antes que pudessem desbravar horizontes inauditos, “aquele que caminha por detrás das fileiras”, protetor da plantação, em deleite, sussurrava um murmúrio encantador.

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19 de setembro de 2017

Sonho ou fantasia

Por volta da meia noite, com as janelas fechadas, sem um único som na sala, entre móveis cobertos de pó, uma estranha figura, na forma de um vulto negro, aparece para desejar bom dia. Depois simplesmente desvanece, deixando-me sem saber: estava diante de uma assombração ou do simples fruto da minha imaginação?

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Atividade Fantasmagórica

O fantasma que assombrava. Tons escuros e acinzentados estampavam as paredes do quarto, aliado a parca iluminação cálida, semelhante à luz de velas, reconstruindo perfeitamente toda a atmosfera de um cômodo assombrado, habitado apenas por espectros do passado. Flashs de memórias vêm e vão, a cada minuto. Ilusões, lá fora, a noite é tão segura, ali é tão escura. Fantasma de um passado: assombra, lágrimas e fantasia, temor assola, vários devaneios, brumas, não é permitido temer garras e sombras em seu próprio pesadelo. O medo teme o medo, no mistério soturno o desconhecido se apresenta, na forma de um vulto gracioso, tem a face mergulhada, alma despojada. Não se deixa exorcizar. No fim, o delírio foi enfim sepultado, a treva fria alumia, a sombra do passado. E ali jaz o fantasma que assombrava.

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27 de julho de 2017

A Visita

Pela janela, testemunhava flashes de luz cortando o horizonte, tornando ainda mais soturna a escuridão da noite. Trêmulo, não sabia o que temia mais: a iluminação rarefeita do quarto ou aquela figura desconhecida, postada em frente ao casebre. Sua indumentária negra denunciava ser o emissário do desconhecido e, mesmo tomado pela agonia, não deixava de reparar no sombreiro sobre sua cabeça, que sequer se movia diante da força do vento ensandecido.
Após um período estático, o vulto negro passou a se mover de forma compassada. Capaz de intimidar os seres das trevas, a figura sombrosa não parecia se inibir diante do ímpeto da ventania e chuva. A distância o fazia ostentar um olhar negro, trazendo um clima ainda mais nefasto à cena, principalmente quando suas vestes, banhadas pelo temporal, eram capazes de reluzir a luz dos relâmpagos...
Continua... Se o estranho visitante permitir que viva para narrar seu desfecho!

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7 de setembro de 2016

Nas garras do assassino

Em um dos sonhos, estou a caminhar, sem saber ao certo por onde, quando subitamente sou vitimado por uma rajada de tiros. Antes de padecer, tento determinar a direção das balas e ao mesmo tempo em que sinto a vida se esvaindo, não demora para me tornar estatística, com direito a requintes de crueldade. Em outra perspectiva, durante um assalto qualquer, acabo me vendo sob a mira de um revólver e algumas vezes, antes de retornar ao mundo real, até consigo ouvir, distante, os estampidos dos disparos.
Em determinadas cenas, o devaneio parece oferecer uma trégua, afinal o alvo já não sou mais eu e sim algum desconhecido. Fica o lamento pelo sonho bom ter dado lugar à cena de crime, geralmente regada a muito sangue. O pior pesadelo se configura como uma trama trágica.
Diante dos meus olhos, atentam contra a vida das pessoas que mais amo, fadadas a partir, sob meus braços. Além de ser submetido à visão lutuosa, a dor se mistura a uma inconveniente sensação de impotência, além do ardoroso sentimento de vingança.
O consolo vem da certeza: tudo está na minha cabeça! Apesar de ninguém ter morrido, só eu sei o quanto parece real e como essas experiências me assombram. Verdadeiro a ponto de ser o mais próximo do inferno que quero ou me permito chegar.

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31 de março de 2014

Deus, apareça!

#Intrigado! Estava no elevador e lá havia um homem que creio nunca ter visto na vida, sequer sei se realmente mora no condomínio. Após um breve silêncio, o desconhecido olhou para mim, como se quisesse puxar algum tipo de conversa e disparou: se você pudesse fazer uma pergunta a Deus, qual seria? Confesso ter ficado deveras assustado e como o elevador chegou rápido ao andar onde iria descer, acabei me despedindo e não respondi a indagação.

O estranho é que logo quando ouvi a pergunta, subitamente me vi invadido pela resposta. Como posso nunca mais voltar a vê-lo e considerando a hipótese desse senhor ter, bem na base do acaso, o poder para acessar minha página, creio que durante interação com Deus iria querer saber: por que as coisas são mais fáceis para algumas pessoas do que pra outras? No entanto, a resposta é só para não deixar meu ilustre desconhecido no “vácuo”. Possivelmente se me fosse dada essa chance, rechaçaria a oportunidade, reservando-me ao silêncio, até para não correr o risco de ouvir o Senhor responder algo do tipo: cada um tem o que merece... Isso sim seria deveras desestimulante! #misterio

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Fantasia

Com um pouco de imaginação, durante a confecção daquelas enfadonhas matérias policiais, consegue se ver na condição de um escritor, em seu provável leito de morte, ostentando uma caneta e um caderno puído e borrado. Sucumbido pelas enfermidades, tenta reunir as últimas forças para compor sua obra derradeira e gradativamente, os fatídicos assassinatos, assaltos e estupros adquirem uma conotação distintiva, sobressaindo mostras de inventabilidade e conteúdos menos nefastos.

Agora, entorpecido pelo encanto da ilusão, está a desbravar horizontes desconhecidos e por poucos minutos, consegue se tornar um escritor de verdade, até chegar a hora de avançar para outro plano, afinal, todos estão fadados a morrer! E partirá, levando consigo a certeza de que cessação mesmo seria: renunciar a tal fantasia!

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