21 de abril de 2021

IT

Foram sucessivas semanas dedicadas a desbravar as nuances de uma obra atemporal. Por longos anos preteri o desejo de encarar o maléfico Pennywise e suas mais de mil páginas. Até não haver mais como adiar esse momento, teria de enfrentar o maldito bufão a me aterrorizar desde a década de 90, quando Tim Curry, com performance emblemática, encarnou A Coisa na adaptação It – Uma Obra Prima do Medo.

It - A Coisa não desponta por acaso como um dos principais trabalhos de Stephen King. A narrativa rechaça o lugar comum, abdicando da possibilidade de meramente traçar a história de um assassino sobrenatural com cara pintada e roupas coloridas, embora essa perspectiva por si só já seja suficientemente tétrica.

O leitor é levado à fictícia Derry, em dois momentos distintos, separados por um intervalo de 27 anos, em 1958 quando Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly ainda eram crianças e em 1985, já adultos. Como já esperava, a trama é iniciada com o pequeno Georgie Denbrough trajando no dia tempestuoso sua imponente capa amarela, acompanhando o barquinho de papel parafinado singrando pelas águas pluviais. O irmão mais novo de Bill acabou tendo o infortúnio de ficar diante do aterrorizador Pennywise, que em grande estilo entrou em cena após imergir da escuridão, ostentando uma pletora de balões.

O assassinato da inocente criança desponta como o pano de fundo para iniciar de uma jornada épica, repleta de centelhas nostálgicas, desenvolvida ao mesmo tempo em que conjuga eventos após a morte de Georgie e na década de 80, quando a obra foi composta pelo mestre do terror. Com a alternância de períodos King consegue atribuir o caráter alinear à narrativa e sem pedir licença, remete ao leitor à condição de testemunha ocular de uma série de acontecimentos violentos, nos quais crianças e jovens desaparecem ou são trucidados por um homicida misterioso .

O conjunto de acontecimentos acarreta passagens verdadeiramente angustiantes, e esbanjando capacidade de suscitar reflexão sobre o mal por traz de Pennywise, um reflexo itinerante da natureza humana, hora capaz de ser mais pérfido e inclemente em relação à mal-ajambrada vilania. No fim das contas, It é um imenso bodoque e os elásticos presos sobre as extremidades impulsionam a munição, capaz de sobrepor à psique dos leitores para tornar praticamente inexequível o anseio de abortar a narrativa, capaz de reverberar para fora do calhamaço , e em eclosão encontra eterna morada no âmago dos leitores.

Um dia, seguramente, dedicarei outras semanas para reler a vultosa obra. Um novo encontro já está marcado e enquanto esse apoteótico momento não chega, espero até lá que o palhaço me visite algumas noites, assombrando meus piores pesadelos. Estarei esperando, vestido no temor e armado de muito, muito encanto.

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21 de janeiro de 2021

Picadeiro dos Sonhos

Já tive alguns pavorosos sonhos adornados por um palhaço deveras aterrorizante, formando uma experiência perturbadora a ponto de preterir irromper novamente nesses delírios. O arlequim a povoar meus insanos pesadelos é muito semelhante ao da foto dessa pintura de 1966 que coincidentemente (ou não?) pode estar na família da minha mãe há mais de cinco decênios.

A última vez que estive na casa dos meus avós foi em 1997 e não tenho qualquer lembrança desse quadro. Então, qual seria a razão dessa figura assombrar minha vida por tantos anos? Durante os sonhos, o palhaço se manifestava emulando uma dança sinistra, desengonçada, ensaiando falso carisma, até que as máscaras desmancham e o bufão, enfim, passa a ostentar um sorriso caliginoso, gadanhos cortantes brotam dos dedos, até, de maneira trôpega, dar os primeiros passos em minha direção, garantindo que não importa o quanto corresse, minha alma estava condenada a habitar os umbrais do inferno... .

Ou talvez tudo não passe de um relato virtuoso, ideado para chamar atenção. O que será pior: os palhaços maquiavélicos ou as pessoas que se aproveitam deles para fomentar o medo? Sem dúvida, os palhaços são muito, muito piores!

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20 de janeiro de 2021

Credo da remissão

Quando se tem nove anos de idade, é um tanto intimidador ficar diante daquele representante do Senhor, com sua sotaina branca, crucifixo opulento e um par de óculos estampando a face. Começava pedindo a reza do Pai Nosso, chegava a atropelar algumas palavras, mais por conta do nervosismo. Depois era a vez da Ave Maria, também nada capaz de representar um grande infortúnio. Os sobressaltos inquietantes eram tracejados no ato do terceiro desafio, quando o sacerdote postado a minha frente dizia: muito bem, agora o Credo!

- Creio em Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo seu único filho, nosso Senhor...

- E?

- Desculpa padre, vou recomeçar: Creio em Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo seu único filho, nosso Senhor...

O bom padre chegou a passar um verdadeiro sermão, sobre a importância de aprender o credo de cor e salteado. O filme se repetiu pelo menos outras duas vezes e como antes, lembrava apenas do começo e do trecho "desceu a mansão dos mortos" , isso era tão assustador, se tivesse de partir não ansiava descer àquela vultosa morada.

- Se você não souber recitar o Credo de cor, não poderá fazer primeira comunhão – disparou o padre. Lembro-me de relatar o episódio para algumas pessoas, ficaram horrorizadas com a exigência. No fim, acabei me sagrando campeão daquela “queda de braço”, porque fiz a primeira comunhão e não aprendi o tal Credo . Para dizer a verdade, nunca tive orgulho disso, era como triunfar sem benemerência, prevalecendo um impertinente gosto de malogro.

Tantos anos depois, em tempos tão difíceis impostos pela pandemia do novo Coronavírus, as pessoas sentem a necessidade de se apegar a alguma coisa, sendo marcado um reencontro com o Credo e dessa vez acabei assimilando toda a oração, como era esperado pelo padre há quase três decênios. Talvez estivesse certo quem dizia: antes tarde do que nunca! Enfim, agora pareço poder comemorar os êxitos de minha primeira comunhão e até consigo idear o semblante de contentamento do velho sacerdote.

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10 de julho de 2020

O amaro preço da mentira

“Meu último anseio, sentir o doce do seu beijo, sob a anuência dos feixes da luna mais rotunda”. Beijo é um ato animalesco, talvez impulsionado por forças tão intempestivas quanto incógnitas e, pelo jeito, quanto mais se recorre aos ósculos, mais ainda se parece imergir em um campo inexplorado. Se até Jesus Cristo se viu traído por um afável toque de bochecha, por parte de Judas com a boca, não é muito difícil testificar homens (e até mulheres) recorrendo à mentira em detrimento do prêmio: meia dúzia de ardentes osculações.

Longe de querer evocar o estilo santarrão ou promover um estamento ideológico a respeito de atos dessa espécie, mas confesso sempre ter nutrido repugnância por pessoas capazes de recorrer a métodos tão banais para concretizar seus anseios. Aquela velha história, baseada na premissa: definitivamente os fins não justificam os meios, afinal, meios ruins acarretam em fins ainda piores... Até um dia me descortinar, articulando estratagemas ascorosos para ser agraciado pelo méleo beijo da menina mais bonita!

Isso aconteceu no final da década de 90, no período de meio do ano, marcado pelas festas juninas. Acompanhado por alguns amigos, subimos em um ônibus com destino a uma cidade interiorana, jovens ansiosos, prontos para desfrutar do melhor que a noite pudesse oferecer. A cidade estava vestida para a festividade, fogueiras adornavam a fachada das casas, o cheiro de milho cozido se misturava as lufadas do vento, ensandecido, tentando extirpar as bandeirinhas de São João a formarem uma tenra cobertura, capaz de manter secos os corpos dançantes diante da garoa.

À medida que a festa decorria no ritmado sonido da sanfona, em invulgar harmonia com seus íntimos triângulo, sanfona, zabumba e pandeiro, meu grupo foi dizimado em subgrupos, até me ver sozinho na festa, mexendo meu corpo de forma canhestra e tendo meia lata de Coca-Cola como a melhor companheira de dança da noite. Mal sabia, o melhor estava por vir, em forma de uma estonteante morena de negros cabelos ondulados, pernas pomposas devidamente tracejadas no jeans justo e cintado, com uma encurtada blusa quadriculada, deixando parte do abdômen a mostra, além do vestiário típico ser completado pelas botas de salto alto, apetrecho final para a galhardia.

As maçãs do rosto eram salientes de ternura. Seus negros cabelos cacheados despontavam como a moldura para um rosto perfeito, alindado por um olhar penetrante, capaz de suscitar uma airosa vertigem. Lutava para não permitir que os participantes da festa formassem uma parede, ocultando a poética visão: a garota inominada compassadamente dentando uma espiga de milho. Enquanto a fitava, tentando não me deixar notar, nossos olhares subitamente cruzaram, e assim permanecemos, até a exuberante figura desviar o rosto, seguindo até o lixo onde depositaria o sabugo do cereal.

Outra garota, possivelmente as duas estavam juntas na festa, seguiu até ela e pelo gesto, estava sugerindo partirem para outro lugar. Antes, minha nova musa mais uma vez me ofereceu um olhar, juro até ter avistado um singelo sorriso e logo desapareceram, embrenhadas na multidão. Vai logo atrás dela, deixa de ser tão tépido! Seria a decisão mais acertada, mas ao invés disso, apanhei mais uma lata de refrigerante e segui para um ponto menos povoado, contemplando a lua no compasso cadente do xote, xaxado e baião.

- Apostaria que você não é daqui e também não gosta muito de dançar! – Talvez meus olhos estivessem me pregando uma peça, quem sabe estivessem sucumbindo a minha imaginação delirante: a voz invadindo meus ouvidos era mesmo dela. Antes de festejar o presente concedido pelo cupido espírito dos sanfoneiros, pude absorver o iminente conflito. Caso admitisse ser apenas um visitante, minhas chances com a bela morena seriam ínfimas, reduzidas a zero.

- A propósito, eu me chamo Bárbara! – Após me apresentar, tocando sua mão com leveza e encostando meus lábios, molhados de Coca-Cola, em cada lado das perfumadas bochechas, pude ensaiar uma mentirosa solução.

- Sou novo na cidade! Meu pai foi transferido para a agência bancária da praça lá atrás. Ainda não conheço ninguém, além de você, claro! – Nos aproximamos um pouco mais da festa, permanecendo longe o bastante para que pudéssemos papear um pouco, compartilhar nossas agruras. Depois, arriscamos alguns passos de dança e de tão polida, em momento algum transpareceu irritação com minha desengonçada habilidade para conduzi-la. Quando a chuva nos atingiu com maior rigor, Bárbara sorveu o restante de Coca-Cola. Pelo olhar, estava certo de transparecer vontade de encarar seus lábios macios, um beijo resfolegante, marcado pela aceleração da frequência cardíaca. Por um segundo, tentou evitar, talvez me dissuadir alegando não gostar “muito de ficar”.

- Podemos namorar se você quiser! – Então a trouxe depressa pra mim, não podia mais esperar. Dessa vez, Bárbara não oferecia resistência, foram ósculos prolongados, com gosto de “”coca”, como queria ter arrancado uma daquelas bandeiras, testemunha fulcral do momento. Meus lábios, com suavidade, deslizavam pelo seu pescoço, sentindo seus cabelos sedosos emanarem um atordoante cheiro de mato verde, as suas bochechas rosadinhas, o queixo modelado com singular esmero.

Antes do fim da festa, Bárbara disse que precisava ir e pediu para encontrá-la mais tarde na praça, pouco antes da hora do almoço. – De repente, você pode conhecer seus sogros, ainda hoje. Só preciso ver como estará o clima! Tudo bem pra você?

- Claro que sim. Estarei lá, já contando as horas, minutos, segundos... – Como queria estralar os dedos e tornar verdade aquelas famigeradas mentiras. – Você podia me passar o número do seu telefone?

- Mais tarde, na praça! – E depois nossos lábios toparam pela última vez. Horas depois, minha boca experimentava o amaro saibo do remorso. Na estrada, seguindo para casa, podia imaginar Bárbara me esperando no banco da praça, enquanto já estaria repousando na minha cama, em outra cidade.

Há situações que indubitavelmente nos leva para o lado negro e é ainda pior quando temos plena consciência disso. Os cabelos dela tinham um saboroso cheiro de mato. Tantos anos depois, quando caminho por um parque, com a mata regada pela chuva, sou invadido por aquele cheiro inebriante, sendo impossível não rememorar nossos tenros momentos. Possivelmente, Bárbara já olvidou minha existência, mas eu ainda me lembro dela, dos abrasados beijos afanados e do insipiente gosto de Coca-Cola.

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4 de julho de 2020

Andando com os mortos

Os mortos podem vir nos visitar à noite, seja para assombrar ou apenas matar a saudade, um pouco! Se por um lado jamais desacreditei nessa premissa, também não podia atestar sua veracidade, isso até uma madrugada qualquer. Mais invulgar ainda, foi experimentar os sonhos oferecendo a possibilidade de interatuar com uma pessoa morta, tendo como atenuante o fato de, pelo menos naquele mero instante, haver regressado a vida. E quando essa noção resplandece durante o delírio e simplesmente não conseguimos....

... Tudo começou ao ver-me trabalhando em uma espécie de revista, participando de algo semelhante a uma reunião de pauta. A atividade parecia ter se prolongado, o céu estava bem escuro quando foi encerrada. Lembro-me de levantar, pretendia seguir para casa, até ficar diante de uma colega de trabalho, velha amiga de infância, irei chamá-la de Brenda.

- Rafinha, a reunião rendeu, em? – Foi mais ou menos o começo da conversa, transparecendo ter passado um longo período desde nosso último contato. Recordo, sem segundas intenções, ter me oferecido para acompanhá-la até em casa, nunca se sabe os perigos aos quais uma mulher se submete, caminhando sozinha pela rua.

Sem pestanejar, Brenda aceitou a oferta após perguntar se desviar um pouco meu caminho não traria qualquer prejuízo. Ledo engano, como permaneci longo tempo sentado, ansiava mesmo por caminhar alguns quilômetros, em boa companhia, degustar um dedinho de prosa. Afinal, nem sempre a vida reservava essas possibilidades.

Não consigo rememorar, com precisão, o conteúdo dos assuntos. Tudo decorria meio fragmentado, vindo à tona somente alguns lampejos da prosa, passando pelas peripécias no colégio, o período de faculdade e, claro, a expectativa com o novo emprego. Os mistérios passaram, então, a tomar contornos mais tracejados, não chegávamos ao destino ou Brenda, como se fosse possível, já não sabia mais onde morava.

Seguimos como dois errantes, rindo a vagar sem destino, até subitamente uma reminiscência sobrepujou a alegria, acalentando sobressaltos inquietantes: Brenda estava morta! Agora amentava bem o triste acontecimento, um episódio inusitado, realmente marcado por certa estranheza, bem do tipo que se leva uma vida inteira para conceber. O baque foi tão intenso a ponto de me deixar estático, assistindo a falecida vagante permanecer tagarelando, inteiramente alheia ao meu conflito.

- Brenda, eu preciso te dizer uma coisa...

- O que? Pode falar!

Brenda, amiga, você morreu, faleceu há algum tempo, cerca de um ano. Eu tenho certeza! Como pode estar aqui, ao meu lado, andejando? Ansiava por fazer esses questionamentos, no entanto, as palavras se amotinaram desobedientes. Talvez também estivesse morto. Poderia aquela ser alguma maldita realidade paralela? Estaria minha mente sintonizada em alguma existência oculta? Em alguma fenda no canto do universo remoto, Brenda e eu seríamos colegas de trabalho?

De tanto caminhar, sem explicação, acabamos chegando à entrada do condomínio onde moro. O destino não deveria ser a minha casa, embora tenha sido lá que chegamos. Brenda perguntou se podia subir, queria um pouco d’água. No elevador, tentei novamente colocá-la a par dos fatídicos acontecimentos, envolvendo sua existência interrompida, e as malditas palavras insistiam em permanecer recônditas. Na cozinha, Brenda sorveu a água com volúpia e disse que seguiria só.

- Chegamos até aqui. Faço questão de...

- Não precisa. Você foi muito generoso. Deve estar...

- Eu faço questão! Não quer sentar um pouco, caminhamos tanto!

- Eu bem que gostaria. Preciso voltar, desculpe, não tenho muito tempo!

E assim retornamos, a iminência de uma nova caminhada. Novas tentativas de transportá-la a dura realidade seriam postas em práticas, só não ideava mais o triunfo, a revelação parecia fincada sob as garras do anonimato. Já na portaria do prédio, dei por falta do meu celular.

- Brenda, acho que esqueci o meu telefone! Vamos subir, preciso...

- Desculpa, eu não tenho mais tempo.

Por um mísero segundo, dei-lhe as costas. Quando voltei para fitá-la, argumentando que levaria no máximo cinco minutos, minha amiga havia desaparecido, quem sabe regressado ao mundo dos mortos. Não me daria por vencido tão fácil, Brenda estava ali, há míseros segundos. Retornei para falar com o porteiro.

- Você viu a menina que estava aqui comigo, agora!

- Boa noite, Rafael!

Educação é importante, mas o bom homem aparentemente não captou minha agonia. – Você viu pra que direção foi a moça, que estava comigo?

- Moça?

- Sim, a que subiu e desceu comigo, bem agora!

- Rafael, você chegou e desceu sozinho. Está acontecendo alguma coisa com você?

Lembro-me ter regressado à rua e não vislumbrei qualquer pista do paradeiro dela. Antes de despertar, pensei na razão de Brenda repetir sucessivamente: eu não tenho muito tempo. Apesar das chances, por que algo ou alguma coisa me impedia de revelar sua morte? Antes de despertar, em meu íntimo, despedi-me mais uma vez de Brenda e agradeci por ter proporcionado uma última e singela lembrança!

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29 de junho de 2020

Estrada dos sonhos

A felicidade não vive nas sinuosas curvas da estrada. O asfalto é a própria felicidade, oferece a possibilidade de fitar as nuances do mundo pela metade do pára-brisa, além de vislumbrar a ultrajante risca tracejada, marcando infinitamente o centro da via. O sonho, o sonho será sempre a melhor estrada!

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Personagem das sombras

O ambiente aberto parecia irrompido por um véu negro. Seja a um metro de distância ou no máximo permitido aos olhos chegarem: era apenas consentido fitar a escuridão, não existindo sequer uma fagulha de lume para incitar a formação da penumbra. Não despontavam obstáculos para refrear o caminhar a passos largos, ou correr impelido pelo medo. Não havia nada, o manto preto talvez tivesse drenado tudo, como se no fim das contas, não tivesse saído do mesmo lugar, tudo persistia apagado. Era impossível descortinar o cenário umbrático, desarvorar o breu enigmático.

Logo, linhas disformes passaram a estampar a escuridade. Formas e traços não chegavam a atingir nitidez, mas vinham carregados pela certeza de haver, sim, algo ali. Podia ser imaginação ou mesmo alguma espécie de poluição visual, até que um riso pavoroso, emergido da figura desmedida, inundou os ouvidos. Diante das trevas, é impossível debelar a escuridão, inútil lutar para se desvencilhar dela.

O gargalhar tornava-se mais estridente à medida que se aproximava, vogando morosamente em minha direção. Pelos contornos tracejados, as carrancudas maçãs do rosto eram bem salientes, adornadas pelas órbitas carcomidas, mais escuras se comparadas com o negro véu. Era uma figura morta, exibindo um semblante um tanto pávido, pelo rosto quase por completo desprendido do crânio, emoldurado por brancas mechas de cabelos esvoaçantes.

- Seria capaz de escalar até as mais elevadas masmorras do inferno para te pegar - asseverou a bruxa, uma voz compassada, marcada pelo timbre tíbio e perturbante.

- O que você quer afinal? – Indaguei, em sobressaltos inquietantes.

- Enfim, perguntou! Me retrate em uma de suas histórias. Ou irei te assombrar, voltarei para encomendar sua alma! – De maneira paulatina, a voz foi ecoando, a luminosidade passou a transfixar o véu, refletindo diante de meus olhos o começo de um novo dia.

Sem hesitar, ative-me logo a escrever para manter distante a assombração. Dará certo, afinal? Por enquanto, sim. Talvez... Apenas por enquanto!

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