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19 de outubro de 2022

Assombração no Gas Station

Cemitérios, igrejas, hotéis... Quem sabe hospitais, escolas ou casas antigas. Quando o assunto é assombrações esses seriam os locais mais propícios para registro de atividades dessa espécie. Disse seriam porque a esfera sobrenatural costuma contrariar as regras – isso se existirem regras – e às vezes um ambiente não lá muito apropriado, como o banheiro de um posto de combustível, pode servir de morada para uma assombração ou talvez uma mera alma errante se manifestando durante breve passagem.

Do lugar de onde vim, postos de combustíveis não servem somente para abastecer os carros. Essa até pode ser uma das funções mais desimportantes do local içado por um amontoado de ferro, sustentados pelo conjunto de vigas interligadas ao piso lajeado. Debaixo das placas de cimento, há um paquidérmico tanque recheado de material inflamável, portanto bastaria apenas uma centelha flamejante para colapsar a estrutura, colocando tudo pelos ares.

Ainda assim, dizem que postos de gasolina são locais muito seguros e a prova disso são as chamadas lojas de conveniência, que acabam servindo como uma ponte para estreitar a distância entre amigos imposta pela vida. Afinal, quem nunca reuniu a galera ao redor de um carro estacionado no posto. Cada um pode escolher – e melhor ainda pagar – pela própria bebida , jogando conversa fora a noite inteira, com direito até a trilha sonora, mas sem abusar demais do volume.

O nosso posto era o Gas Station. Passava ao largo de ser o point, embora estivesse sempre aberto, seja durante a semana ou nas fogosas noites de sexta e sábado, quando não se tinha nada melhor para fazer, e naturalmente, isso quase nunca ocorria. E mais uma noite, marcando o começo do fim de semana, era inaugurada em nossa segunda casa, tendo sobre nossas cabeças a estrutura em ferro corroído, já carecendo de reforma, antigas bombas de abastecimento reclamando por aposentadoria, além do piso escurecido com sua coleção de fissuras. Em contrapartida, a antiga loja de conveniência esbanjava precisão em reabastecer o estoque de bebidas estupidamente geladas e a melhor parte: praticava preços bem abaixo da concorrência.

Eu já estava na terceira lata de Coca-Cola, as duas primeiras foram batizadas com algumas gotas de vodca, afinal ninguém é de ferro. Enquanto Thiago protagonizava um monólogo sem fim, sobre a possibilidade de o Gas Station fechar temporariamente para reforma, os outros dois amigos se entretinham no celular e eu me limitava a observar os fachos de luz, provenientes dos faróis dos carros a vararem a escuridão da via. Nessa toada, enfim notei a necessidade de esvaziar a bexiga e nunca fiquei tão satisfeito em ocupar o sanitário fétido, a oportunidade perfeita para debelar o insuportável assunto.

Logo na entrada do banheiro havia uma pia equipada com duas torneiras e um espelho paramentado por manchas escuras, comprometendo a reprodução de imagens. Com mais alguns passos, e tentando respirar o mínimo possível, cheguei ao urinol. Alguns segundos foram o bastante para debandar minha agonia e voltar para os amigos e a Coca-Cola, terceira lata não batizada.

Já estava pronto para marchar de volta, quando fui surpreendido por uma estranha figura, postada defronte ao velho espelho. Mais do que a presença em si, estranhei o fato de não ter escutado o som de passos anunciando a chegada. Aparentemente se tratava de uma mulher, bastante maltrapilha, usando calças com várias partes esgarçada, permitido mirar as pernas mirradas com inúmeras marcas de sangue coagulado. A blusa também tinha rasgos suficientes para deixar à mostra uma parte do abdômen, repleto de traços roxos. Talvez aquela mulher precisasse de ajuda, só não estava necessariamente diante de um herói.
- Não sei se percebeu, mas a senhora entrou no banheiro masculino. O das mulheres é logo... – O silêncio dela, mais do que incômodo, passara a ser agoniante e me fazia desejar sair logo dali. - Está tudo bem com a senhora?

Àquela altura não sabia ainda se a mulher mais parecia uma mendiga, se foi espancada em alguma mostra de crueldade humana ou a pior hipótese: vítima de violência sexual.
- A senhora precisa de ajuda, precisa que chame alguém? – Lógico, eu não era o alguém capaz de ajudá-la e tinha um reencontro marcado com meu refrigerante.

A mulher insistia em permanecer de cabeça baixa, emudecida, apenas encarando o espelho de soslaio. Não havia observado antes, mas as mãos executavam um estranho movimento rítmico, talvez parte de um estranho e involuntário estímulo cerebral. Agora, com deslocamento paulatino, passou a lançar seu olhar, movendo a cabeça em minha direção.

Confesso não ter permanecido no banheiro para acompanhar o desfecho. Do lado de fora, estava crente que meus amigos, logo quando saísse, estariam entregues ao riso compulsivo. Só que não exibiram qualquer gargalhada. Thiago continuava falando sobre a iminente reforma no posto e agora Paulo lhe emprestava atenção, só Nando seguia firme no celular. Talvez estivessem fazendo cena, os risos iriam irromper apenas quando a mulher deixasse o sanitário. No entanto, os minutos transcorriam e tanto ela não cruzava a soleira da porta como eles não diziam nada.
- O que foi, Daniel? Parece ter visto fantasma! - Thiago me surpreendeu, seguindo para o sanitário. Em meu íntimo, respondi que talvez tivesse mesmo visto algum. Quando regressou, indaguei Thiago quanto a ter percebido algo estranho, talvez a mulher também o tivesse assustado.
- O cheiro? Hoje parece pior do que nunca, como se houvesse algo podre lá dentro. Ainda hoje, não sei se me arrependo por não ter tido coragem de entrar novamente e observar se a mulher permanecia no banheiro do Gas Station. Estava claro, todos naquela noite ocuparam o sanitário, lidaram com o cheiro pútrido, mas somente eu fui contemplado pela estranha presença.

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7 de fevereiro de 2022

Halloween – No picadeiro do pequeno palhaço

Era como estar preso no pior pesadelo... e nunca conseguir acordar... ou sequer ser capaz de gritar.

Espessas nuvens pardacentas moviam-se freneticamente no céu, anunciando a iminência de uma noite tempestuosa. Até parecia resultado de uma brincadeira infame, um mar de flores algodoeiras banhadas com coca-cola, prontas para a qualquer momento verter cada gota de litros absorvidos. Antes de a tormenta roubar a cena, chegávamos secos a morada para acompanhar às seis horas restantes da melhor noite do ano. Sim, após certa animosidade, acabei cedendo e aceitando passar o Halloween em casa. Iria ascender a abóbora e seu brilho fulgurante ajudaria a levar um punhado de pipocas à boca enquanto nos debruçávamos sobre alguns filmes de terror .

Agora já estava conformado, mas horas atrás, ainda no carro, essa alternativa despertou imenso dissabor.

- O que você tem em mente, arrumar uma fantasia essa hora da tarde e caçar alguma festa para invadir? Porque até onde saiba, ninguém te convidou pra nenhuma! – provocou Christine, em seguida, curvando a cabeça e apoiando as mãos na nuca, gesto adotado frequentemente quando estava impaciente e inteiramente indisposta a embarcar em uma contenda ardorosa. Azar o dela! Eu tinha planos para aquela noite e não pretendia abrir mão deles, pelo menos não tão facilmente.

- Sabe muito bem que não há festa alguma. Mas, quero dar uma espiada no movimento, ver se tem alguma brincadeira rolando por aí. Quem sabe não encontramos algum conhecido e até consiga um convite inesperado. Também não vim despreparado, trouxe na mala do carro umas coisinhas, tipo um chapéu de bruxa, capa, uma ou duas máscaras, tem ainda uma abóbora de plástico. Quem sabe não estamos perdendo alguma coisa boa por aí!

- Não vai rolar nada disso. A cidade está uma loucura, vem muita chuva, chuva grossa.

- Meu amor, se não encontrarmos nada, paramos em alguma praça, pegamos os enfeites que trouxe e tiramos umas fotos. Mas, antes, vamos dar umas voltas.

- Você é alguma espécie de idiota ou está se fazendo? Só falta, Cláudio, inventar de sair por aí com uma bolsinha roxa ou alaranjada tocando campainhas das casas e reclamando por doces. Você não está nos Estados Unidos, isso aqui é Brasil. Além do mais, não percebe como está o tempo? – Foi quando Christine posicionou o dedo indicador para cima, com sua explanação sendo respaldada por uma trovoada, daquelas arrebatadoras, legitimando todo o discurso.

- Ou seja, embora esteja de carro, devo esquecer o Halloween que passei meses ansiando, voltar para casa e me esconder entre as cobertas com medo de relâmpagos e trovões. Naturalmente, por conta de a senhorita ter tido um péssimo dia no trabalho.

- Realmente, Cláudio, tive um péssimo dia e não aguento mais esse emprego. Bem que gostaria que pudesse ter passado o dia comigo, naquela clínica, atendendo todas aquelas clientes insuportáveis. Você se daria conta que as bruxas realmente existem....

- Ah para! Esse papo de novo – tratei de interrompê-la. - Como sempre, você tem capacidade de distorcer as coisas. Agora, pra variar, a culpa é toda minha. Eu quem sou o incompreensível, insensível, e quanto mais íveis possam existir. Definitivamente, hoje não, Christine!

- Na verdade, não estou pedindo para você desistir de nada. Vamos passar um instante no shopping, é caminho de casa. Quem sabe não tenha alguma liquidação daqueles adereços de Halloween que tanto gosta. Você sabe melhor que eu como ficam as ruas dessa cidade com qualquer chuvinha, tudo acaba alagado. É melhor passar, como mesmo você chama: A MELHOR NOITE DO ANO assistindo filmes do que aqui, numa rua cheia d’agua, presos no trânsito. Sem falar na possibilidade de danificar seu amado carrinho...

- “Quem sabe não tenha alguma liquidação daqueles adereços de Halloween que tanto gosta”, tratei de arremedá-la, sabia bem o quanto aquilo a irritava e para minha surpresa não vociferou algo do tipo “Pare de mangar de mim” ou “não se atreva a ficar me imitando”. – Christine, não posso crer que, depois de tudo, você ainda irá me convencer. Até o Monstro de Frankenstein seria mais insistente. Eu realmente não passo de...

- Esquece isso, amor! – Dessa vez a espevitada tratou de invadir meu discurso. - Eu faço a pipoca, com bastante manteiga. Dessa vez, pode tomar quantos copos de refrigerante quiser e também pode escolher os filmes que preferir. O que acha?

- Amor? Foi isso mesmo que ouvi? Mal faz um minuto, você me chamou de idiota. Incrível como as mulheres podem ser volúveis quando é de seu agrado. Mas, agora não tem como voltar atrás, eu escolho os filmes e não irei admitir nenhum tipo de censura.

- Só não me venha com Candyman, sabe o quanto detesto abelhas. Também esqueça Sexta-feira 13, Halloween, Fred Krueger, Cemitério Maldito, O Exorcista, Pânico, Brinquedo Assassino... Definitivamente, estamos fatigados de assistir essas coisas, os tais clássicos. Eu topo ver alguns dos filmes daquele casal, os Warren, desde que não tenha aquela freira diabólica, como é medonha aquela criatura trevosa.

- Eu achava que você tinha concordado em não se intrometer. Além disso, pensei em rever os dois capítulos de IT, talvez Hereditário ou Suspíria, a versão de Dario Argento, naturalmente. Algum filme de vampiro iria bem, digo vampiros de verdade como em A Hora do Espanto, não os genéricos. Quem sabe também alguma produção assinada por expoentes do quilate de Wes Craven, John Carpenter, James Wan - comentei, citando outros cineastas como Mike Flanagan, Jordan Peele, Tobe Hooper, José Mojica Marins...

- Como quiser, meu amor! – Hummmm, parece que agora eu estava vencendo a peleja. Tudo que realmente queria, era curtir de VERDADE uma assustadora noite de Halloween.

O humor de Christine melhorou muito depois do atrito. Embora a visita ao shopping tenha sido breve, até nos divertimos um pouco antes de seguir para o marasmo de casa. Antes, para ilustrar o momento, cheguei a tirar uma foto com duas garotas gêmeas, de aproximadamente oito anos de idade. As duas realmente esbanjavam capacidade de validar o adjetivo estranho.

Pouco tempo depois o ânimo de Christine, inesperadamente, esvaeceu durante a chegada ao apartamento. Percebi logo ao cruzarmos o limiar da sala. Estava um tanto absorta, desnorteada, como se tivesse sido atingida por uma estúrdia sonolência, morbosa por alguma substância ou feitiço. Sua condição suspicaz me fazia ignorar alguns sonidos incógnitos. Em vez de seguir para a cozinha, onde logo um amontoado de pipocas despontaria como a especialidade da noite, Christine deu alguns passos à frente, espiando a varanda de reduzidas dimensões, regressando logo para fitar o compartimento adornado pela mesa de jantar com quatro lugares, mesinha de centro, sofá com dois lugares, duas poltronas de plástico e um aparador instalado próximo ao umbral, precisamente no canto da parede que seguia até a entrada do espaço onde os alimentos eram preparados.

Alguns passos à esquerda a levaram até o corredor onde os três cômodos do imóvel estavam alinhados. A princípio pensei que seguiria para a sala de tevê, ornamentada para agradar um fã inveterado de filmes de terror, com diversos pôsters, bonecos de personagens clássicos como o palhaço Pennywise, os serial killers Jason Voorhees, Michael Myers, Leatherface, Chucky, Ghostface e até entidades maléficas como Valac e Annabelle, além de vários adereços característicos do Halloween como Abóboras Sorridentes (jack-o'-lantern), caldeirões, bruxas, fantasma...

No entanto, o transe a levou a tomar a estreita passagem à direita, possivelmente em direção à suíte, talvez para tomar um banho e trocar de roupa. Resolvi segui-la, quando notei que estava no “quarto do meio”, como chamávamos o escritório e a biblioteca, inteiramente estirada sobre a poltrona pousada de frente a parede, perto da porta.

- Pensei que estava indo para o banheiro trocar de roupa e tomar banho, como gosta de fazer ao voltar do trabalho. – A resposta só não veio em forma de um silêncio quase sepulcral, por conta de diferentes soídos a serem ouvidos em diferentes pontos da casa. Havia até uma espécie de sussurro reverberando, ora parecia mais longe e outros momentos mais próximo. Mais do que um evento meramente heteróclito, o cenário adquiria ares tenebrosos e um tanto dantesco.
Meio tépido, eu disfarçava a sensação de haver alguma coisa errada. Os esforços estavam a serviço de ensaiar uma maneira de retomar a normalidade, apesar de aquela altura já não fazer questão alguma de perpetuar, nas horas seguintes, o clima do Dia das Bruxas.

- Que tal se você adiar o banho um pouco e fosse pra cozinha fazer a pipoca que prometeu, enquanto vou pra sala de tevê escolher os filmes... - Acabei interrompido por um rijo estrondo, trovões ribombavam o céu. Através da moldura vítrea era possível fitar os contornos dos relâmpagos a se formarem, por alguns segundos expurgando a escuridade da noite, ostentando uma alvura intensa. Como o edifício fora erguido em uma região alta, quase como um promontório, a visão de alguma forma acabava privilegiada.

No último clarão resultante de uma descarga elétrica, a luz do condomínio inteiro aparentava ter sido drenada. Ao mesmo tempo foi possível ouvir o barulho de alguma coisa despencando na sala de tevê. Em disparada, fui ver o que aconteceu, cedendo ao impulso de tatear o interruptor, tendo esquecido a falha energética. Para meu espanto, a claridade irrompeu o ambiente, com a queda perdurando então por não mais de 20 segundos. Isso não me causava qualquer estranheza, perturbava mesmo a desagradável surpresa de ver o televisor, antes fixado em um painel de madeira, acabar pendendo e agora repousava sobre o rack.

- Que loucura! Christine, venha aqui, veja que coisa mais estranha. – Sem resposta, acabei empostando a voz em tom quase agressivo. – Não ouviu que estou chamando você? Christine, vem até aqui e que seja logo!

- Eu não quero sair daqui – finalmente ela respondeu, com a voz compassada, como se estivesse alheia a todos os eventos.

- Christine, venha de uma vez. Preciso de ajuda para...

- Já estou aqui! – Confesso que me assustei, não sei exatamente se pelo fato de ela já estar bem atrás de mim ou pelo timbre murmurante da voz, um tanto estrídula e fleumática.

A despeito de totalmente abstraída, acabou me ajudando a içar o televisor e acondicioná-lo novamente no painel, logo acima do rack. Embora o aparelho, por obra do acaso, tenha despencado da peça pregada na parede, não aparentava ter sofrido qualquer avaria. Sequer tive tempo para idear os fatores responsáveis pela queda, afinal não parecia resultado dos estrondos relampejantes, minha atenção de imediato sucumbiu a um dos “assustadores” adornos dispersos no quarto.

Lembro ter ouvido antes barulhos suspeitos ecoarem do palhaço, em contra partida, nunca suas feições adotaram um tom hilário e menos ainda emanava uma luz parca e estranha. O esdrúxulo bufão atracou em nossa “sala de teve” como um presente inusitado de Christine, mas ninguém nunca soube ao certo apontar a gênese da criatura insepulta. No começo, achei seu visual atípico e um tanto soturno, com um alvacento chapéu pontiagudo encimado de cabelos pardos bastantes desgrenhados. A face ainda ostentava o nariz rubro e estrelares olhos, negros como o céu mais escuro, além da boca composta por uma estranha fenda escancarada (encompridada). As roupas cinzentas, no mesmo tom do chapéu, eram repletas de estampas, imitando o formato de bocas brancas com contornos cetrinos, com as vestes se estendendo ao restante do mirrado corpo, inclusive os braços escassos.

Naquela noite, o palhaço adotava a forma de uma criatura ainda mais esfíngica e sombrosa. Escutando pequenos cicios irromperem de sua direção, resolvi tomá-lo entre as mãos, não cedendo à insensatez imposta pelo assombroso delírio. O silvo do vento, de maneira súbita, despertou o palhaço adormecido, o riso mais tétrico varava o silêncio, sendo possível mirar os olhos banhados de ódio. Dezenas de gadanhos passaram a travar uma luta para escapulir da arcada e encontrar estada em meu pescoço para assim sorver cada gota de sangue a percorrer as veias e artérias.

O palhaço não escondia o êxtase de conseguir utilizar as presas, tão afiadas como faca, para extirpar minha carne, desossá-la, antes descosendo os músculos e tendões. Por um instante, pude notar que apesar do formato irregular dos dentes cortantes, a conversão torava-se perfeita quando permaneciam serrados. Enquanto reunia forças para conter a investida, apesar de leve projetava-se contra mim com farta vitalidade, a criatura colocava ainda em prática o intento de tentar me desestruturar com a voz gutural, proferindo insanas ameaças: “Eu vou te matar seu paspalho. Não sabe o quanto esperei por isso. Essa sala agora será minha, irei deixá-la vermelha com seu sangue, extrair suas vísceras e pendurá-las. Irei arrancar suas tripas para enrolá-las na televisão, o enfeite perfeito para o Halloween”.

Enquanto tento conter as ofensivas do palhaço, olho para Christine, empedernida. Não podia me preocupar com ela agora, era necessário dar um jeito na criatura maquiavélica, antes que arrumasse uma maneira de cumprir suas ameaças. Passei a segurar seu corpo escasso com ainda mais força, ao mesmo tempo, abria e fechava a boca de forma célere, como um cão raivoso. O bufão resistia, balburdiando bravatas e tentando cravar as presas em alguma parte do meu corpo.

Com esforço, consegui levá-lo até a cozinha e apesar da luta e dos gritos incessantes pude acondicioná-lo em um volumoso frasco, capaz até de suprimir suas ameaças quando acionei a tampa. Apesar da resistência, o mal estava contido no recipiente, deixado sobre a pia enquanto retornava ao cômodo para ver Christine e tentar demovê-la do choque. É possível que a exasperação lhe tenha trazido de volta ao mesmo lugar de antes, repousando aturdida na poltrona.

- Christine, não temos muito tempo a perder! Precisamos levar essa coisa daqui o quanto antes. Espero que não seja muito tarde, que essa maldição não tenha se arraigado no apartamento, nos assombrando, encontrando eterna morada aqui.

- Eterna morada, assombrando... O picadeiro do palhaço.

- Christine escuta – realmente estava extenuado – sei que o palhaço é seu e lamento muito por isso. Vou encharcar o pote com álcool e queimá-lo. Depois arremessá-lo em algum lugar, provavelmente no esgoto que é o lugar deles. Espero que nossos vizinhos não tenham...

- Tah

- Sabe Christine. Eu penso que, por mais estranho que pareça, estamos diante de uma demonstração do sobrenatural. Podíamos filmar o palhaço, antes de fazer churrasquinho dele. Ainda assim, não acreditariam, ninguém acreditaria, acho.

- Não acreditariam, acho!

- Você poderia vir comigo, para me ajudar, segurar o pote e vigiá-lo. A coisa está...

- Vir comigo... Não!

- Poxa, Christine! Por favor, eu preciso...

- Por favor, poxa... Não quero sair daqui – dizia, mantendo os olhos abertos, sem piscar por um mero segundo.
Sabia que algo estava errado, era nítido e, talvez, fosse necessário me livrar do emissário das sombras para finalmente trazê-la de volta, embora não sabia se queria isso, talvez gostasse dessa Christine. Então começo a caminhar, compassadamente, de volta a cozinha, tinha um novo encontro marcado com um palhaço aterrador e não seria nada salutar deixar o ser sombroso esperando.

O percurso nunca pareceu tão longo, uma marcha peregrina, até o barulho de algo se espatifando vir da cozinha. Alguns rápidos passos para traz me levaram de volta a soleira do “quarto do meio”, onde Christine, apesar dos olhos abertos, convivia com sua letargia. Um novo relampejar fulgente preencheu o longínquo horizonte com seu clarão ominoso, acompanhado pela tríade de estrondos, novamente levando o apartamento a completa escuridão.

A luz não retornava por mais moroso que fosse meu movimento. No picadeiro do palhaço, gargalhadas sussurrantes e o barulho de passadasr rompiam o silêncio perpétuo aliado à escuridão mais perturbante. O emissário das trevas estava ali, em algum lugar, à espreita, sorrateiro nas sombras, com as presas cortantes prontas para extirpar. Talvez pudesse novamente ouvi-lo se movendo caso o ronco de Christine não reverberasse intensamente. Isso era o mais perto do inferno que podia chegar, diante da mais assustadora e verdadeira noite de Halloween.

- Cláudio, decidi ajudar você a procurá-lo – Exprimiu atrás de mim. Era a voz de Christine, retumbando em perfeita sincronia com timbre manifestado antes pelo bufão. Senti então uma coisa inquietante nas costas, atingindo a pele, os músculos, arrefecendo tudo que pudesse ter pela frente.

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21 de abril de 2021

Debaixo dos cobertores

O artificio para fazer as palavras brotarem é sempre semelhante. Começo rememorando todos os pontos a serem explorados na narrativa e quando cada pedaço parece devidamente aglutinado, o desafio se torna deslindar um ponto de partida, por meio de palavras ser capaz de atiçar a curiosidade alheia. Alvejado por um turbilhão de ideias em forma de letras, mesmo concentrando energia para atravancar o desejo, sou impelido pelo súbito desejo de lançar a pergunta: como será que Stephen King faria?

Tudo bem, até aceito o fato de não ser o mestre do terror, mas ao lançar ao léu a despropositada indagação, ao passo de um singelo estralar de dedos, a antes claudicante trama passa a ser adornada por novas nuances, a irromper na mente como resultado de alguma bruxaria ou coisa do tipo.

Certa feita, durante um bate-papo deveras inspirador, duas perguntas acarrearam instantes de ruminação fulcral. Você praticamente venera alguns escritores, mas parece evitar a todo custo “copiar” o estilo deles. Certo? Nunca tinha analisado as coisas por esse prisma. Talvez eu me leve a sério demais para resumir minhas desventuras literárias à condição de reles simulacro, mesmo comprometendo o resultado final. No entanto, o experimento é um tanto mais complexo, acaba atrelado a uma segunda pergunta, até incessantemente respondida por outros autores mais gabaritados: por que o terror? Simplesmente por não ter outra escolha, embora não seja raro me ver enveredando por caminhos diferentes, às vezes mais líricos e melosos.

Essa falta de “escolha” acaba dissociando os textos produzidos das leituras cotidianas. Em quase letargia, agarro mais forte as cobertas enquanto a chuva espessa se choca contra a janela. Ao abrir os olhos, alguma coisa se revela, parece velar meu sono, sorrateira no breu. Se simplesmente me rendo ao temor e tento me ocultar em meio ao cobertor, os pés e tornozelos acabam desnudos, vulneráveis aos gadanhos capazes de desossá-los e gradativamente esgaçar todas as partes corpo, para seguidamente deixar reverberar um riso inclemente, retumbante.

A aparição cessa antes de berrar alto o bastante para despertar os mortos. Será que realmente se foi ou ocultou-se debaixo da cama? Não tenho coragem de olhar! O melhor a fazer é voltar a dormir e, se mais uma vez puder acordar, irei me ater a escrever. Narrar até poder ser o que me mantém vivo, mas o terror, o terror sim é a minha vida.

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IT

Foram sucessivas semanas dedicadas a desbravar as nuances de uma obra atemporal. Por longos anos preteri o desejo de encarar o maléfico Pennywise e suas mais de mil páginas. Até não haver mais como adiar esse momento, teria de enfrentar o maldito bufão a me aterrorizar desde a década de 90, quando Tim Curry, com performance emblemática, encarnou A Coisa na adaptação It – Uma Obra Prima do Medo.

It - A Coisa não desponta por acaso como um dos principais trabalhos de Stephen King. A narrativa rechaça o lugar comum, abdicando da possibilidade de meramente traçar a história de um assassino sobrenatural com cara pintada e roupas coloridas, embora essa perspectiva por si só já seja suficientemente tétrica.

O leitor é levado à fictícia Derry, em dois momentos distintos, separados por um intervalo de 27 anos, em 1958 quando Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly ainda eram crianças e em 1985, já adultos. Como já esperava, a trama é iniciada com o pequeno Georgie Denbrough trajando no dia tempestuoso sua imponente capa amarela, acompanhando o barquinho de papel parafinado singrando pelas águas pluviais. O irmão mais novo de Bill acabou tendo o infortúnio de ficar diante do aterrorizador Pennywise, que em grande estilo entrou em cena após imergir da escuridão, ostentando uma pletora de balões.

O assassinato da inocente criança desponta como o pano de fundo para iniciar de uma jornada épica, repleta de centelhas nostálgicas, desenvolvida ao mesmo tempo em que conjuga eventos após a morte de Georgie e na década de 80, quando a obra foi composta pelo mestre do terror. Com a alternância de períodos King consegue atribuir o caráter alinear à narrativa e sem pedir licença, remete ao leitor à condição de testemunha ocular de uma série de acontecimentos violentos, nos quais crianças e jovens desaparecem ou são trucidados por um homicida misterioso .

O conjunto de acontecimentos acarreta passagens verdadeiramente angustiantes, e esbanjando capacidade de suscitar reflexão sobre o mal por traz de Pennywise, um reflexo itinerante da natureza humana, hora capaz de ser mais pérfido e inclemente em relação à mal-ajambrada vilania. No fim das contas, It é um imenso bodoque e os elásticos presos sobre as extremidades impulsionam a munição, capaz de sobrepor à psique dos leitores para tornar praticamente inexequível o anseio de abortar a narrativa, capaz de reverberar para fora do calhamaço , e em eclosão encontra eterna morada no âmago dos leitores.

Um dia, seguramente, dedicarei outras semanas para reler a vultosa obra. Um novo encontro já está marcado e enquanto esse apoteótico momento não chega, espero até lá que o palhaço me visite algumas noites, assombrando meus piores pesadelos. Estarei esperando, vestido no temor e armado de muito, muito encanto.

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21 de janeiro de 2021

Picadeiro dos Sonhos

Já tive alguns pavorosos sonhos adornados por um palhaço deveras aterrorizante, formando uma experiência perturbadora a ponto de preterir irromper novamente nesses delírios. O arlequim a povoar meus insanos pesadelos é muito semelhante ao da foto dessa pintura de 1966 que coincidentemente (ou não?) pode estar na família da minha mãe há mais de cinco decênios.

A última vez que estive na casa dos meus avós foi em 1997 e não tenho qualquer lembrança desse quadro. Então, qual seria a razão dessa figura assombrar minha vida por tantos anos? Durante os sonhos, o palhaço se manifestava emulando uma dança sinistra, desengonçada, ensaiando falso carisma, até que as máscaras desmancham e o bufão, enfim, passa a ostentar um sorriso caliginoso, gadanhos cortantes brotam dos dedos, até, de maneira trôpega, dar os primeiros passos em minha direção, garantindo que não importa o quanto corresse, minha alma estava condenada a habitar os umbrais do inferno... .

Ou talvez tudo não passe de um relato virtuoso, ideado para chamar atenção. O que será pior: os palhaços maquiavélicos ou as pessoas que se aproveitam deles para fomentar o medo? Sem dúvida, os palhaços são muito, muito piores!

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10 de julho de 2020

O amaro preço da mentira

“Meu último anseio, sentir o doce do seu beijo, sob a anuência dos feixes da luna mais rotunda”. Beijo é um ato animalesco, talvez impulsionado por forças tão intempestivas quanto incógnitas e, pelo jeito, quanto mais se recorre aos ósculos, mais ainda se parece imergir em um campo inexplorado. Se até Jesus Cristo se viu traído por um afável toque de bochecha, por parte de Judas com a boca, não é muito difícil testificar homens (e até mulheres) recorrendo à mentira em detrimento do prêmio: meia dúzia de ardentes osculações.

Longe de querer evocar o estilo santarrão ou promover um estamento ideológico a respeito de atos dessa espécie, mas confesso sempre ter nutrido repugnância por pessoas capazes de recorrer a métodos tão banais para concretizar seus anseios. Aquela velha história, baseada na premissa: definitivamente os fins não justificam os meios, afinal, meios ruins acarretam em fins ainda piores... Até um dia me descortinar, articulando estratagemas ascorosos para ser agraciado pelo méleo beijo da menina mais bonita!

Isso aconteceu no final da década de 90, no período de meio do ano, marcado pelas festas juninas. Acompanhado por alguns amigos, subimos em um ônibus com destino a uma cidade interiorana, jovens ansiosos, prontos para desfrutar do melhor que a noite pudesse oferecer. A cidade estava vestida para a festividade, fogueiras adornavam a fachada das casas, o cheiro de milho cozido se misturava as lufadas do vento, ensandecido, tentando extirpar as bandeirinhas de São João a formarem uma tenra cobertura, capaz de manter secos os corpos dançantes diante da garoa.

À medida que a festa decorria no ritmado sonido da sanfona, em invulgar harmonia com seus íntimos triângulo, sanfona, zabumba e pandeiro, meu grupo foi dizimado em subgrupos, até me ver sozinho na festa, mexendo meu corpo de forma canhestra e tendo meia lata de Coca-Cola como a melhor companheira de dança da noite. Mal sabia, o melhor estava por vir, em forma de uma estonteante morena de negros cabelos ondulados, pernas pomposas devidamente tracejadas no jeans justo e cintado, com uma encurtada blusa quadriculada, deixando parte do abdômen a mostra, além do vestiário típico ser completado pelas botas de salto alto, apetrecho final para a galhardia.

As maçãs do rosto eram salientes de ternura. Seus negros cabelos cacheados despontavam como a moldura para um rosto perfeito, alindado por um olhar penetrante, capaz de suscitar uma airosa vertigem. Lutava para não permitir que os participantes da festa formassem uma parede, ocultando a poética visão: a garota inominada compassadamente dentando uma espiga de milho. Enquanto a fitava, tentando não me deixar notar, nossos olhares subitamente cruzaram, e assim permanecemos, até a exuberante figura desviar o rosto, seguindo até o lixo onde depositaria o sabugo do cereal.

Outra garota, possivelmente as duas estavam juntas na festa, seguiu até ela e pelo gesto, estava sugerindo partirem para outro lugar. Antes, minha nova musa mais uma vez me ofereceu um olhar, juro até ter avistado um singelo sorriso e logo desapareceram, embrenhadas na multidão. Vai logo atrás dela, deixa de ser tão tépido! Seria a decisão mais acertada, mas ao invés disso, apanhei mais uma lata de refrigerante e segui para um ponto menos povoado, contemplando a lua no compasso cadente do xote, xaxado e baião.

- Apostaria que você não é daqui e também não gosta muito de dançar! – Talvez meus olhos estivessem me pregando uma peça, quem sabe estivessem sucumbindo a minha imaginação delirante: a voz invadindo meus ouvidos era mesmo dela. Antes de festejar o presente concedido pelo cupido espírito dos sanfoneiros, pude absorver o iminente conflito. Caso admitisse ser apenas um visitante, minhas chances com a bela morena seriam ínfimas, reduzidas a zero.

- A propósito, eu me chamo Bárbara! – Após me apresentar, tocando sua mão com leveza e encostando meus lábios, molhados de Coca-Cola, em cada lado das perfumadas bochechas, pude ensaiar uma mentirosa solução.

- Sou novo na cidade! Meu pai foi transferido para a agência bancária da praça lá atrás. Ainda não conheço ninguém, além de você, claro! – Nos aproximamos um pouco mais da festa, permanecendo longe o bastante para que pudéssemos papear um pouco, compartilhar nossas agruras. Depois, arriscamos alguns passos de dança e de tão polida, em momento algum transpareceu irritação com minha desengonçada habilidade para conduzi-la. Quando a chuva nos atingiu com maior rigor, Bárbara sorveu o restante de Coca-Cola. Pelo olhar, estava certo de transparecer vontade de encarar seus lábios macios, um beijo resfolegante, marcado pela aceleração da frequência cardíaca. Por um segundo, tentou evitar, talvez me dissuadir alegando não gostar “muito de ficar”.

- Podemos namorar se você quiser! – Então a trouxe depressa pra mim, não podia mais esperar. Dessa vez, Bárbara não oferecia resistência, foram ósculos prolongados, com gosto de “”coca”, como queria ter arrancado uma daquelas bandeiras, testemunha fulcral do momento. Meus lábios, com suavidade, deslizavam pelo seu pescoço, sentindo seus cabelos sedosos emanarem um atordoante cheiro de mato verde, as suas bochechas rosadinhas, o queixo modelado com singular esmero.

Antes do fim da festa, Bárbara disse que precisava ir e pediu para encontrá-la mais tarde na praça, pouco antes da hora do almoço. – De repente, você pode conhecer seus sogros, ainda hoje. Só preciso ver como estará o clima! Tudo bem pra você?

- Claro que sim. Estarei lá, já contando as horas, minutos, segundos... – Como queria estralar os dedos e tornar verdade aquelas famigeradas mentiras. – Você podia me passar o número do seu telefone?

- Mais tarde, na praça! – E depois nossos lábios toparam pela última vez. Horas depois, minha boca experimentava o amaro saibo do remorso. Na estrada, seguindo para casa, podia imaginar Bárbara me esperando no banco da praça, enquanto já estaria repousando na minha cama, em outra cidade.

Há situações que indubitavelmente nos leva para o lado negro e é ainda pior quando temos plena consciência disso. Os cabelos dela tinham um saboroso cheiro de mato. Tantos anos depois, quando caminho por um parque, com a mata regada pela chuva, sou invadido por aquele cheiro inebriante, sendo impossível não rememorar nossos tenros momentos. Possivelmente, Bárbara já olvidou minha existência, mas eu ainda me lembro dela, dos abrasados beijos afanados e do insipiente gosto de Coca-Cola.

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4 de julho de 2020

Andando com os mortos

Os mortos podem vir nos visitar à noite, seja para assombrar ou apenas matar a saudade, um pouco! Se por um lado jamais desacreditei nessa premissa, também não podia atestar sua veracidade, isso até uma madrugada qualquer. Mais invulgar ainda, foi experimentar os sonhos oferecendo a possibilidade de interatuar com uma pessoa morta, tendo como atenuante o fato de, pelo menos naquele mero instante, haver regressado a vida. E quando essa noção resplandece durante o delírio e simplesmente não conseguimos....

... Tudo começou ao ver-me trabalhando em uma espécie de revista, participando de algo semelhante a uma reunião de pauta. A atividade parecia ter se prolongado, o céu estava bem escuro quando foi encerrada. Lembro-me de levantar, pretendia seguir para casa, até ficar diante de uma colega de trabalho, velha amiga de infância, irei chamá-la de Brenda.

- Rafinha, a reunião rendeu, em? – Foi mais ou menos o começo da conversa, transparecendo ter passado um longo período desde nosso último contato. Recordo, sem segundas intenções, ter me oferecido para acompanhá-la até em casa, nunca se sabe os perigos aos quais uma mulher se submete, caminhando sozinha pela rua.

Sem pestanejar, Brenda aceitou a oferta após perguntar se desviar um pouco meu caminho não traria qualquer prejuízo. Ledo engano, como permaneci longo tempo sentado, ansiava mesmo por caminhar alguns quilômetros, em boa companhia, degustar um dedinho de prosa. Afinal, nem sempre a vida reservava essas possibilidades.

Não consigo rememorar, com precisão, o conteúdo dos assuntos. Tudo decorria meio fragmentado, vindo à tona somente alguns lampejos da prosa, passando pelas peripécias no colégio, o período de faculdade e, claro, a expectativa com o novo emprego. Os mistérios passaram, então, a tomar contornos mais tracejados, não chegávamos ao destino ou Brenda, como se fosse possível, já não sabia mais onde morava.

Seguimos como dois errantes, rindo a vagar sem destino, até subitamente uma reminiscência sobrepujou a alegria, acalentando sobressaltos inquietantes: Brenda estava morta! Agora amentava bem o triste acontecimento, um episódio inusitado, realmente marcado por certa estranheza, bem do tipo que se leva uma vida inteira para conceber. O baque foi tão intenso a ponto de me deixar estático, assistindo a falecida vagante permanecer tagarelando, inteiramente alheia ao meu conflito.

- Brenda, eu preciso te dizer uma coisa...

- O que? Pode falar!

Brenda, amiga, você morreu, faleceu há algum tempo, cerca de um ano. Eu tenho certeza! Como pode estar aqui, ao meu lado, andejando? Ansiava por fazer esses questionamentos, no entanto, as palavras se amotinaram desobedientes. Talvez também estivesse morto. Poderia aquela ser alguma maldita realidade paralela? Estaria minha mente sintonizada em alguma existência oculta? Em alguma fenda no canto do universo remoto, Brenda e eu seríamos colegas de trabalho?

De tanto caminhar, sem explicação, acabamos chegando à entrada do condomínio onde moro. O destino não deveria ser a minha casa, embora tenha sido lá que chegamos. Brenda perguntou se podia subir, queria um pouco d’água. No elevador, tentei novamente colocá-la a par dos fatídicos acontecimentos, envolvendo sua existência interrompida, e as malditas palavras insistiam em permanecer recônditas. Na cozinha, Brenda sorveu a água com volúpia e disse que seguiria só.

- Chegamos até aqui. Faço questão de...

- Não precisa. Você foi muito generoso. Deve estar...

- Eu faço questão! Não quer sentar um pouco, caminhamos tanto!

- Eu bem que gostaria. Preciso voltar, desculpe, não tenho muito tempo!

E assim retornamos, a iminência de uma nova caminhada. Novas tentativas de transportá-la a dura realidade seriam postas em práticas, só não ideava mais o triunfo, a revelação parecia fincada sob as garras do anonimato. Já na portaria do prédio, dei por falta do meu celular.

- Brenda, acho que esqueci o meu telefone! Vamos subir, preciso...

- Desculpa, eu não tenho mais tempo.

Por um mísero segundo, dei-lhe as costas. Quando voltei para fitá-la, argumentando que levaria no máximo cinco minutos, minha amiga havia desaparecido, quem sabe regressado ao mundo dos mortos. Não me daria por vencido tão fácil, Brenda estava ali, há míseros segundos. Retornei para falar com o porteiro.

- Você viu a menina que estava aqui comigo, agora!

- Boa noite, Rafael!

Educação é importante, mas o bom homem aparentemente não captou minha agonia. – Você viu pra que direção foi a moça, que estava comigo?

- Moça?

- Sim, a que subiu e desceu comigo, bem agora!

- Rafael, você chegou e desceu sozinho. Está acontecendo alguma coisa com você?

Lembro-me ter regressado à rua e não vislumbrei qualquer pista do paradeiro dela. Antes de despertar, pensei na razão de Brenda repetir sucessivamente: eu não tenho muito tempo. Apesar das chances, por que algo ou alguma coisa me impedia de revelar sua morte? Antes de despertar, em meu íntimo, despedi-me mais uma vez de Brenda e agradeci por ter proporcionado uma última e singela lembrança!

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29 de junho de 2020

Personagem das sombras

O ambiente aberto parecia irrompido por um véu negro. Seja a um metro de distância ou no máximo permitido aos olhos chegarem: era apenas consentido fitar a escuridão, não existindo sequer uma fagulha de lume para incitar a formação da penumbra. Não despontavam obstáculos para refrear o caminhar a passos largos, ou correr impelido pelo medo. Não havia nada, o manto preto talvez tivesse drenado tudo, como se no fim das contas, não tivesse saído do mesmo lugar, tudo persistia apagado. Era impossível descortinar o cenário umbrático, desarvorar o breu enigmático.

Logo, linhas disformes passaram a estampar a escuridade. Formas e traços não chegavam a atingir nitidez, mas vinham carregados pela certeza de haver, sim, algo ali. Podia ser imaginação ou mesmo alguma espécie de poluição visual, até que um riso pavoroso, emergido da figura desmedida, inundou os ouvidos. Diante das trevas, é impossível debelar a escuridão, inútil lutar para se desvencilhar dela.

O gargalhar tornava-se mais estridente à medida que se aproximava, vogando morosamente em minha direção. Pelos contornos tracejados, as carrancudas maçãs do rosto eram bem salientes, adornadas pelas órbitas carcomidas, mais escuras se comparadas com o negro véu. Era uma figura morta, exibindo um semblante um tanto pávido, pelo rosto quase por completo desprendido do crânio, emoldurado por brancas mechas de cabelos esvoaçantes.

- Seria capaz de escalar até as mais elevadas masmorras do inferno para te pegar - asseverou a bruxa, uma voz compassada, marcada pelo timbre tíbio e perturbante.

- O que você quer afinal? – Indaguei, em sobressaltos inquietantes.

- Enfim, perguntou! Me retrate em uma de suas histórias. Ou irei te assombrar, voltarei para encomendar sua alma! – De maneira paulatina, a voz foi ecoando, a luminosidade passou a transfixar o véu, refletindo diante de meus olhos o começo de um novo dia.

Sem hesitar, ative-me logo a escrever para manter distante a assombração. Dará certo, afinal? Por enquanto, sim. Talvez... Apenas por enquanto!

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11 de maio de 2020

Suicídio Ocasional

“Os sonhos eram mais variados do que podia recordar, mas o desfecho, esse era sempre igual. Subitamente me via despencando do topo de um arranha céu, cada segundo cruzando com diferentes pessoas, no interior do prédio, diretas do seu andar, compenetradas no trabalho a ponto de, sequer, observar minha condição. Meu corpo se aproximava do solo com incrível celeridade. Cada milésimo de segundo testemunhava a vida sendo gradativamente drenada e quando enfim contemplaria a finitude da existência, despertava antes do choque , totalmente ileso.”

Seu nome era João de Santo Cristo. Qualquer semelhança com o personagem chave da música Faroeste Caboclo , da Legião Urbana, não era fruto do mero acaso, afinal a banda liderada por Renato Russo despontava como a favorita de sua mãe, uma eterna entusiasta da Turma da Colina e do rock nacional anos 80.

João de Santo Cristo gastava horas tentando decifrar o enigma por trás do excêntrico devaneio, todas as noites insistindo em profanar seu descanso. Talvez, a cena incessantemente reprisada, tivesse alguma relação com seu ofício de zelador. Ao contrário da ilusão projetada pelo inconsciente, não mantinha vínculo profissional com um suntuoso prédio, repleto de vidraças espelhadas, abrigando verdadeiras sumidades do ramo jurídico ou do mercado financeiro.

O Santo Cristo trabalhava em um prédio mais mirrado, um antiquado empreendimento de cinco andares, servido de residência para dezenas de famílias classe média. Esse aspecto fazia toda dubiez despertar sobressaltos inquietantes: se jamais trabalhara (quiçá sequer havia entrado) em uma edificação suspensa e ornada por caixilho com vidros, os sonhos não poderiam mesmo representar uma situação de iminente perigo. Para assepsiar as poucas vidraças sob sua responsabilidade, não precisava arriscar a pele com elevadores externos, plataformas aéreas e tampouco recorrer a técnicas verticais de rapel.

Quem sabe até, aquela queda não pudesse representar uma inanição cognitiva, uma sugestão intrinsecamente fulcral para proporcionar uma fuga, abortando a realidade fatídica. Nem sempre as pessoas conseguem se tornar aquilo que queriam ser quando crescessem e, dessa vez, o Santo Cristo não hesitaria em cumprir sua sina, livrando-se de toda sofreguidão vital.

Um disparo certeiro na cabeça ou uma corda amarrada sobre o pescoço? Conforme o desvaio sugeria, precisava saltar para alcançar a liberdade. Para, então, concretizar seu anseio, ocupou o corredor do quinto e último andar do residencial. Em frente à moldura, ouvia os gemidos das lufadas de vento ainda esvoaçando seus finos cabelos compridos. O zelador utilizou um banco para, em segurança, montar no peitoril da janela. Tudo precisava ser devidamente ensaiado, pensou, especialmente para parecer um acidente. Estava pronto para morrer, ainda assim rechaçava comentários do tipo, “a depressão o matou”, “o Santo Cristo se entregou, não foi forte o bastante”, “agora ele irá pro inferno”. Preferia mesmo suscitar a piedade coletiva e talvez seu jogo de cena pudesse ludibriar o Criador.

Com um pano posicionado na mão direita e um produto do tipo “limpa vidros” na outra, seus pés propositalmente deslizavam sobre a travessa inferior dos marcos das janelas. – Estou perdendo o equilíbrio, alguém me ajude, acho que vou cair – esgoelava, mais um teatro barato, necessário para tornar a mentira convincente.

O pesadelo agora era real. De olhos fechados, o Santo Cristo sentia a força da gravidade sorver seu corpo para baixo. Em questão de segundos, enfim, estaria livre, não havendo tanto tempo, como em seus devaneios, para serenar com a morte... uma morte que como nos pesadelos, na realidade por detalhes, não aconteceu!

Tudo por causa do famigerado vizinho do primeiro andar acima do térreo, que prevendo a possibilidade de alguém tentar ceifar a vida nos próximos dias, expurgando sua existência do mundo, mudou toda estrutura do toldo, novo o bastante para atenuar a queda. Embora a lona não tenha se esgarçado por completo, a estrutura metálica cedeu diante do peso multiplicado, fazendo o Santo Cristo rolar por alguns centímetros até seu corpo ser projetado sobre o teto de um carro antigo, estacionado em frente ao prédio.

Essa é a triste sina de João de Santo Cristo, sendo-lhe outorgada a vida que ele já não queria mais. Ao menos aqueles sonhos, reais o bastante para desencadear pensamentos suicidas ocasionais, jamais voltaram a perturbar seu repouso. Uma mentira egoica, contada diversas vezes, pode levar todos (ou quase) a rememorar o final feliz de um acidente com elementos suficientes o bastante para um desfecho trágico. Quando se trata do passado umbroso, todo mundo manipula os acontecimentos, evocando a ficção.

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9 de abril de 2020

A sombra que me persegue


Esse não é um texto literário, devendo ser concebido como um intrínseco relato acerca de uma aparição fantasmagórica. Aquele não era um espectro qualquer, parecia um tanto aturdido, como se os devaneios suscitados por sua iminente presença também o tivessem alvejado, resultando agora em um fantasma assombrado pela própria condição espectral.

Havia uma canção, serenamente previa uma verdade: “todo mundo esperava (mesmo) alguma coisa de um sábado à noite”, desde baladas com música alta, bebedeira e bastante “pegação”. Há quem recorra a opções mais privativas, como um churrasco entre amigos, uma pizza suculenta ou quem sabe a melhor pedida não possa ser um passeio com a mulher amada sob a anuência da lua.

Naquela noite, minha noiva e eu preterimos todas essas alternativas, elegendo o cinema como nossa fuga da realidade, ainda mais atrativa porque as telonas não exibiriam uma produção qualquer, como filmes no melhor estilo “água com açúcar”, regados à tragédia e beijos arfantes ou mesmo aqueles que abdicam do bom roteiro para apostar em enlevadas cenas de ação. A escolha não poderia ser outra senão um bom longa-metragem de terror, bem daqueles repletos de sangue, vingança, situações inverossímeis, conjugando o melhor possível a se esperar nas últimas horas de um sábado.

Antes de ocuparmos a sala, paramos para garantir pipoca e refrigerante, um verdadeiro assalto capaz de despertar até arrependimento pela ideia de deixar o sacrossanto lar. Quando o pavoroso filme – no melhor sentido possível - já estava lá pela metade, voltei a amaldiçoar o oneroso copo de refrigerante, além de me deixar alguns reais mais pobre, ainda despertava a correr para o banheiro antes dos créditos finais saltarem as telas.

Por sorte, o popular WC ficava anexo à sala, há menos de cinquenta metros do assento ocupado por nós. A vontade de descarregar era vertiginosa a ponto de me fazer abdicar de uma cabine sanitária, recorrendo ao urinol, bem menos reservado. Estava já quase liberto do incômodo e pude perceber que meus ouvidos vinham sendo invadidos por estranhas sucessões de palavras, todas aparentemente sem nexo algum.

As frases ilógicas eram golfadas por um jovem, posicionado na outra extremidade do banheiro, postado à frente do mictório, totalmente impassível. Parecia uma assombração rija, entorpecida por alguma substância, com apenas a boca se movendo, vertendo incongruências, como se tivesse, se tivesse... sem explicação.

- Os protozoários são os seres mais avançados da humanidade.

- As pontas de plástico, no começo e final dos cadarços de sapatos, foram criadas para atender a um propósito maquiavélico. – Nesse instante notei a existência de um terceiro elemento, disposto entre mim e o excêntrico garoto no final do cômodo sanitário. A situação tomou contornos ainda mais apavorantes, quando esse rapaz abandonou o banheiro de forma totalmente autêntica, como se não estivesse testemunhando o invulgar comportamento do estranho, magro e de negros cabelos crespos e curtos, trajando camisa polo estampada e calça jeans. Seu olhar afastado contemplava a parede, tornando impossível, para mim, observar suas feições. Teria ele as órbitas carcomidas, realçando os olhos cerrados, acarminados como um mar de larvas vulcânicas?

Ao mesmo tempo em que me recompunha, voltei a refletir sobre o terceiro elemento. Talvez, ignorasse aquela estranha figura pelo simples fato de que aos seus olhos não havia ninguém ali, além de mim, claro. Não estava diante de algo vivo, mas sim de uma aparição sobrenatural, a se tornar visível somente diante dos meus olhos. Por que eu? O que diabos queria de mim? Iria acompanhar meus passos pelo resto da vida? Vestido no meu medo e possivelmente com os cabelos esvoaçantes, deixei o banheiro sem olhar para traz e também sem lavar as mãos. Mas o fantasma permanecia lá, até o ouvi bradar delírios do quilate:

- Jesus Cristo não se sacrificou pelos seus irmãos. Queria apenas impressionar o pai da garota que amava.

- No fim, a garota que Jesus Cristo amava se casou com seu maior desafeto.

Com minha noiva novamente entre meus braços, até tentei voltar a prestar atenção na trama fílmica, mas o verdadeiro horror a embalar minha agonia esteve dentro daquele fétido sanitário. Não demorei a rememorar a história de um adolescente, com características físicas parecidas com a dele. Reza a lenda que tinha ceifado a própria vida no banheiro daquele cinema, só não lembrava ao certo se foi através da ingestão de veneno ou teria posicionado a arma e apertado o gatilho contra a cabeça.
Os créditos subiam, indicando o final do filme. Talvez a produção pudesse ter configurado uma experiência deveras satisfatória, mas não pude acompanhar o suficiente para opinar. Felizmente, era chegada a hora de retornar ao lar e ficar bem longe do cinema pelos próximos sábados. No entanto, por infortúnio do destino, o dispendioso refrigerante protagonizava mais uma forçosa visita ao assombrado e mal cheiroso toalete masculino.

A súbita vontade fisiológica talvez fosse o oportuno momento para comprovar que a estranha aparição teria sido apenas coincidência ou um espasmo fantasmagórico. Aquela altura estaria se atendo a assombrar outra freguesia, andarilhar novas moradas, bem longe de mim, daquele cinema e também do shopping.

Foi exatamente o que constatei ao entrar no banheiro. Por via das dúvidas, voltei a ignorar as cabines sanitárias, recorrendo pela segunda vez a um dos muitos mictórios instalados. O alívio não durou muito, sendo surpreendido novamente pela insólita alma errante, surgindo de uma das cabines que antes parecia vazia.

- Todos os segredos devem permanecer sempre escondidos.

- Filmes de terror fazem parte de um experimento verdadeiramente sinistro – tagarelou, passando por trás de mim, aparentemente flutuando em direção à porta. Não demorei também para sair em disparada, sendo interceptado por minha noiva, que estava me aguardando próximo à entrada do banheiro.

- Algum problema, Armando? Até parece que viu um fantasma? - Indagou percebendo algo estranho no ar, afinal era evidente estar um tanto pasmado.
- Mariane, por acaso você avistou um rapaz esquisito, bem magrinho, saindo por essa entrada do banheiro, há no máximo uns dois minutos?
- Não vi ninguém sair daqui, além de você, claro. Por quê?

- Vamos cair logo fora daqui. – Aquela deveria ter sido minha resposta, mas diante do epicentro da tormenta, percebendo que estava mesmo ante uma aparição sobrenatural, apenas me ative a caminhar até a saída do shopping, cruzando o empreendimento deserto, a iluminação rarefeita, talvez espraiado por verdadeira horda de seres das sombras.

Do lado de fora, na fachada do shopping, uma chuvarada incessante atingia a região, postergando a ânsia de me deslocar até o carro, para assim dar logo o fora daquele lugar. Talvez precisasse tentar evocar o lado bom da coisa, possuía uma bela história para narrar aos amigos. Quem sabe reuniria nos próximos dias um grupo de desocupados para caçar a tal assombração, devolvendo as trevas aquele expurgo... Enquanto a chuva insistia em não cessar, narrei os fatos a minha noiva, deixando-a um tanto atônita com os acontecimentos. Antes de poder tecer qualquer opinião, assistimos a porta magnética novamente se abrir e de lá emergiu aquela assombração de camisa polo e calça jeans. A entrada triunfal me pasmou menos do que o semblante natural, ausente do antes ideado, olhos vulcânicos e órbita minada, apenas caminhando compassadamente até um táxi parado na porta do shopping. (Jesus Cristo não se sacrificou pelos seus irmãos, apenas queria impressionar o pai da garota que amava.)

- Mariane, diga pra mim: por acaso está vendo aquele cara ali, entrando no carro...

- Claro que sim, por que não estaria! – A resposta colocou ponto final ao mistério. Aquele jovem poderia ser muitas coisas, mas não estava diante de uma assombração e se não fosse aquela noite tempestuosa, essa dúvida permearia por muito tempo, quiçá para sempre. ( Filmes de terror fazem parte de um experimento sinistro.)

No fim, esse poderá continuar não sendo um texto literário e tampouco será concebido como um intrínseco relato acerca de uma aparição fantasmagórica.

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Noite de Halloween


É noite de Halloween.
Somos os olhos da escuridão.
Seres das sombras vagueiam,
asas de morcegos adornam
os jazigos no chão.
Onde repousam inertes,
fantasmas da solidão.

Céu estrelado com teias de aranha
A luz da lua, ofuscada pelas lanternas de abóboras,
que iluminam o caminho por onde passam,
Os funestos seres das trevas.
Esqueletos saltam dos túmulos,
assistem a dança das almas errantes,
em homenagem ao dia das bruxas.

Escondida na floresta, a casa assombrada,
misteriosa, prepara uma festa em honra aos mortos.
Apenas nesse dia, eles podem se misturar com os vivos e...
Quem sabe nunca mais voltar.

Só depois que a lua adormece
o encanto acaba e
o sol novamente acontece.

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22 de agosto de 2019

Lua de fel

Parte de uma trama sórdida traçada pelo destino, os recém-unidos em matrimônio teriam a primeira noite, juntos, sob a anuência do plenilúnio. O deleite pela nudez do momento contrastava com a pureza simbólica do vestido branco, esgarçado pela volúpia, cedendo lugar a qualquer vestígio romanesco, afinal as mostras de sentimentalismo foram exaustivamente encenadas nos longilíneos cinco anos divididos entre o flerte, compromisso, noivado e a enfim chegada do casório.

Queriam mais agora se render ao pecado carnal, teriam outros dias, a sós, para declamar poemas, tecer planos para o futuro, lamentar não terem durante aquela meia década se rendido antes à lascividade. Desnudos, apenas o semblante pervertido do recém-marido, entorpecido diante dos seios avantajados da ruiva, era o bastante para despertar sua excitação. Estacado sobre a cama, também fitava outros tributos do corpo de sua Senhora, seduzido até a desbravar o enigmático olhar o qual não havia sido ainda apresentado. Cada segundo mais enfronhados no prazer, as investidas lúbricas eram testemunhadas apenas pela lua gorda a aclarar o aposento. Pela janela, todo contorno circulante da órbita era emoldurado, abrindo-se na cadência veloz de uma estrela para adornar o ambiente aconchegante. Posicionando-se sobre o amante, a Mulher recorria a um movimento compassado, vertiginoso, levando-o a esgar de prazer. Pura exuberância como os cabelos vermelhos, esvoaçantes, roçando contra seu abdômen, proporcionando uma sensação inenarrável.
- Você me ama, Marido?

- Diga logo se você me ama, Marido – insistiu, após segundos silentes. Acanhado pela inoportuna indagação, pretendia evitar sobressaltos e lutava para não enrubescer de vergonha.

- Eu te amo sim. Te desejo mais do que tudo – respondeu sem muita convicção, torcendo para não se prolongar a sessão de ultrarromantismo.

Lá fora, a força das lufadas desvairadas impulsionavam as poucas nuvens no céu escuro, enquanto na alcova, os passionais indefectíveis foram acometidos pelo incitador calafrio. A luz prata, provinda da noite enluarada, penetrou mais intensamente no cômodo, passando a luzir os cernes descamisados. O uivo estrépito emergiu, rompendo abruptamente o epicentro do prazer. Pávido, o marido observava a metamorfose perturbante, com os belos cabelos rubros desatando do couro, ao mesmo tempo as mãos e dedos se alargaram, ficando cobertos por felpas em tom acinzentado.

O rosto, antes dotado de belas feições, deu lugar a um focinho franzido, repleto de pelos desgrenhados. Os olhos da besta fez o recém-Marido se ver diante do emissário da morte, eram amarelos como fogo, cintilantes, tão penetrantes. A criatura aluada ostentava afiadas presas, amedrontadoras em proporção parecida com as garras, saltando pelas opulentas patas.

O rugido da besta foi ouvido por quase toda a cidade. Com um movimento célere, a fera cravou os afiados dentes contra o pescoço daquele que há instantes, fora seu marido. A morte instantânea foi indolor, mas a felpuda abelha-rainha não estava saciada, fincando seguidamente as garras sobre o peito da vítima, rasgando ossos como papel, arrancando o coração ansioso, repleto de paixão, abocanhado em míseros segundos. O sangue jorra por toda parte e urrando às trevas, a sanguinolenta viúva lobisomem se delicia como mel avermelhado, escorrendo pelas presas aguçadas, enxovalhando os pelos do focinho achatado.

Esviscerado, o semblante congelado do marido denuncia um derradeiro e inusitado pensamento: além de proteções, vinhos e estimulantes, podia não ter se esquecido de trazer uma bala de prata para essa lua de mel, em plena noite de lua cheia ... Amarga como uma lua de fel .

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17 de junho de 2019

A Aparição

Uma casual conversa de bar, passando por uma incidental visita a uma cena de crime, até ser surpreendido por uma aparição fantasmagórica. Às vezes, quando a gente está procurando uma coisa, na base do acaso, acaba sendo encontrado por outra, afinal é impossível delinear os preceitos regidos pelo destino.
Aquela se anunciava como uma tarde diferente. Meu pai, padrinho e eu estávamos numa mesa de bar, jogando conversa fora enquanto transcorria o tempo. Entre goles de cerveja gelada, os dois conversavam sobre economia, evolução e queda abissal do mercado financeiro, um pouco sobre futebol, enquanto eu tentava sair incólume daqueles assuntos pouco inspiradores, preferia vislumbrar o suculento pastel de queijo, devorado com volúpia enquanto sanava a sede deglutindo generosos sorvos de coca-cola.
O pastel oleoso proporcionava uma gula verdadeiramente lasciva, que acabou sendo rompida pelo garçom, ah aquele maldito garçom, surpreendeu a todos com uma notícia nada jubilosa.
- Acabaram de assassinar a Jéssica! E você não vai acreditar seu Carlos, o pai dela, o professor Manuel, é acusado de ter praticado o crime! Tudo indica ser por causa de uma gravidez acidental. Vocês acreditam? – disparou o rapaz, arfante! Após resfolegar por alguns segundos, mencionou ainda a prisão do suposto autor daquele crime bárbaro.
- Quem é Jéssica afinal? – indaguei. Aquela altura o pastel descia de forma nauseante, azando inconveniente vertigem.
- Eu conheço toda família! Manuel foi meu cliente, inclusive. Como pode fazer uma coisa dessas? – lamentava o padrinho, desolado, mencionando o desejo de prestar condolências à família, diante de um momento indubitavelmente tão adverso e violento. Sugerindo que o acompanhássemos naquele penoso propósito, assisti meu pai aceitar o convite de prontidão. Para não me caracterizarem como uma figura dotada de preceitos egóicos, não hesitei em seguir com eles.
No curto percurso até ao apartamento onde moravam, pensei na garota, que teve a vida dizimada por uma mostra de violência tão desmedida, impulsionada por razão tão banal. A família até poderia reunir forças para seguir em frente, dar a volta por cima, mas o alicerce familiar permaneceria eivado.
Na portaria do condomínio onde residiam, foi autorizada nossa entrada. Ainda no hall do luxuoso edifício, meu padrinho mostrou a foto da garota morta, uma jovem com aparentemente menos de 18 anos, seu semblante revelava uma pureza singular, agora maculada pela ira descomunal de um pai tresloucado. Pensava que com o mundo habitado por figuras tão nefandas, o demônio é representado em sua essência natural!
Na porta de entrada para o apartamento, logo após tocar a campainha, lamentava ter que visualizar o local onde repousava a jovem, aquela trama sórdida e com traços obscenos. Uma mulher, possivelmente a secretária, atendeu e permitiu nossa entrada naquele apartamento com energia tão onusta, capaz de despertar inquietude. Mal entrara e estranhamente me sentia confinado naquela caixa de tijolos, areia, cimento, argamassa....
- A dona Vera pode nos receber? - Perguntou meu padrinho, me levando a concluir que a pessoa citada seria esposa do tal assassino e mãe da menina que momentos atrás teve a vida ordinariamente ceifada. – Não sei se chegamos em boa hora. Como amigos, viemos para prestar comiseração nesse...
- A dona Vera saiu para tratar do velório e enterro da filha – interrompeu a secretária. Demonstrando estar muito chocada, lamentou o triste fim imputado à garota por um pai impelido de puro ódio e vaidade! – Tantas meninas engravidam nessa idade. Ainda posso ouvir os gritos dela, enquanto o miserável cravava as facadas contra seu corpo – expôs com os olhos marejados. Antecipando as respostas para outras perguntas, confirmou que Manuel já havia sido preso e o corpo da garota recolhido há poucos minutos.
Embora nos tratasse de maneira amistosa, era perceptível que a secretária estava acometida pela tragédia. Pensei em preencher algumas lacunas, dúvidas a saltar sobre meus olhos, como saber se o tal Manuel demonstrava antes comportamento violento ou se havia alguma rusga entre família e o pai da criança. Mas não tive coragem de ser tão invasivo e petulante.
- Eu vou passar um café para vocês. Se quiserem ver o local do assassinato, foi no segundo quarto à direita – comentou. Antes de seguir para a cozinha, frisou que os investigadores orientaram a entrada de uma pessoa por vez, pedindo ainda para o cômodo ser mantido climatizado, visando a preservação da cena do crime!
- Quem, em sã consciência, teria o mau gosto de visitar o aposento, pano de fundo para um assassinato tão brutal? – refletia assistindo meu padrinho se mover pelo corredor. Torci para ser um alarme falso, naturalmente estava procurando o banheiro, até seus passos lhe levarem precisamente ao segundo corredor à direita. Com a saída do padrinho, foi a vez de meu pai entrar. Como sempre acreditei que é sempre melhor nos arrependemos pelo que fizemos, assim que deixou os aposentos resolvi bisbilhotar também.
A primeira impressão, ao ocupar o dormitório, foi de ter sido alvejado por um choque térmico, afinal a temperatura estava bem álgida em relação a sala de estar. O aposento da jovem era bastante amplo e, como em muitos outros quartos de garotas, tinha a decoração baseada nas cores branco e rosa. Havia ursos de pelúcia sobre vários nichos montados na parede, prateleiras adornadas por livros, além de um televisor tamanho médio pendurado na parede.
A direita ficava o extenso guarda roupa, praticamente caberia uma boutique ali dentro. Dividido em duas partes, a cama ficava entre elas, havendo um criado-mudo de pequenas dimensões no canto esquerdo. De frente a cama, uma escrivaninha, com algumas gotas de sangue que formavam um caminho até ao leito, encharcado pelo líquido.
A despeito de não despontar como um especialista em assassinatos era possível presumir: Jéssica estava sentada na cadeira, de frente ao computador quando foi surpreendida pelo pai. Empunhando uma faca, desferiu os primeiros golpes contra a filha, que, ferida, tentou se desvencilhar do agressor. Havia um ponto no qual era mais concentrada a abundância de sangue, possivelmente ali foram desferidos os golpes mais profundos. Sem forças, a garota tombou sobre a cama, onde permaneceu sofrendo a investida até sucumbir completamente.
Há alguns metros da cama, uma das portas do roupeiro estava aberta e lá havia um espelho. Estranhamente o objeto refletia uma nevoaça, somente visualizada através do reflexo. Observando atentamente, da neblina vi emergir uma garota, coberta por sangue que escorria pelos longos cabelos. Ardilosa nas sombras, ostentava olhos cerrados, negrumes, carregando nas mãos um amontoado de carne humana, semelhante a um feto, completamente desfigurado, exalando um choro pavoroso, mais semelhante a um sussurro agudo.
- Salve o meu bebê, salve o meu bebê, salve o meu bebê, salve o meu... – vociferava cada vez mais alto. A misteriosa e desvairada aparição se aproximava, lentamente. O choro da criança ficava mais intenso, enquanto permanecia se aproximando, bem lentamente... Os passos seguintes deixaram-na tão próximo a ponto de, na tentativa de correr com todas as forças, acabei foi despertando do sono, deveras assustado, como se escapasse da masmorra do inferno.
No mundo real, narrei a trama para amigos. Alguns argumentaram que meu subconsciente armou uma arapuca previsível, nítida pela forma como o enredo foi costurado. Já que tudo não passava de um sonho, lamentei não ter sido capaz de salvar a Jéssica dentro de meu próprio estranho mundo. Por que diabos, o inconsciente preteriu a oportunidade de me tornar herói, apenas para idear uma personagem morta, vivendo tão somente para me assombrar!

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5 de junho de 2019

De olhos bem fechados

A sensação, de estar diante do proibido, despertava mais deleite do que propriamente o ato prestes a ser praticado. Não era sempre que Armando tinha Laura descamisada, sobre seus braços fortes, com o quarto onde os pais dela dormem servindo como alcova para o pecado a se suceder. Se lá fora, a noite era negrume, com uma lua encafurnada pelas nuvens em meio ao céu “desestrelado”, dentro os corpos eram como carvão crepitante, com as peças de roupas se esgarçando diante da tão ávida lascividade.
Os dois se amavam com volúpia, degustando a cama que não lhes pertenciam, por entre as cobertas que já cobriram os corpos de outro casal, talvez até durante núpcias que nove meses depois permitiriam a chegada de Laura ao mundo, a mesma Laura que experimentava ali a excitação descabida, no palco de sua fecundação. O soído da cama, acentuado pela intensidade do movimento corporal, deixava Laura em ainda mais êxtase, enquanto Armando se via cada segundo mais atraído pelo hiperbólico sussurro da amante. E assim seguiram, experimentando, cada vez mais acometidos pela jubilação, até alcançarem juntos a plenitude da fruição!
De olhos bem fechados, antes que o véu retornasse ao seu rosto, sendo tragada a nudez de um murmúrio encantador, Laura seguiu para os braços do seu galanteador, ensaiando um beijo deveras refolegado. – Pena que acabou – lamentou a ruiva, com charme, tocando seu longo e avermelhado cabelo. Ainda despida, deixou a cama que testemunhara a travessura, caminhando languidamente até ao banheiro.
- Será que devo ir embora? – perguntou Armando, ainda arfante. Apesar de atleta, daquele que passa horas debruçado sobre aparelhos de ginástica na academia, faltava-lhe forças para domar os ímpetos da bela ruiva!
- Meus pais ainda vão demorar muito a chegar! Você pode dormir algumas horas, mas precisa ir embora antes de amanhecer! – respondeu Laura, antes de ligar a ducha. Impotente diante do esforço descomunal, sofreguidão praticada durante àquelas horas, Armando não podia se fazer de rogado e aceitou repousar sobre a cama dos sogros.
Fatigado, não demorou a sucumbir, sem perceber os passos dados na suíte. Sequer percebeu a figura postada em frente à cama, velando seu sono de maneira acintosa. Após alguns minutos, deslocava-se compassadamente em direção ao banheiro, deixado com a porta entreaberta. A luz paca, que emergia da lâmpada do espelho, era suficiente para deixar perceptível o vapor proveniente do chuveiro elétrico.
A água, pelando, escorria pela vermelhidão capilar e de lá percorreria todos os cantos daquele corpo exuberante, seios inebriantes, pernas tonificadas, que instantes atrás estavam sedentos pelo prazer cintilante. Mesmo que estivesse se banhando com o líquido frígido daquela noite gélida, ainda permaneceriam acesas as labaredas, bastava rememorar algumas daquelas traquinagens e quantas. Por um instante, chegou a se sentir mal, como se tivesse invadido a intimidade dos pais, profanando seu antro de amor, mas a vontade de se render ao proibido acabou sendo mais austera. Apenas Armando havia lhe despertado essa espécie de libido e ficou assim a pensar, como era bom ter encontrado a pessoa certa.
- Eu acho que vou acabar me casando com esse cara – pensava, exultante por experimentar sensações dessa magnitude, ao contrário dos outros relacionamentos aviltantes os quais acabou colecionando. Laura desligou o chuveiro, apanhou uma toalha pendurada no cabide e passou a se enxugar, começando pelos cabelos, depois as pernas, passando para as partes íntimas. Quando sentiu que poderia sair, sem deixar inundado o banheiro dos pais, deu conta que estava sendo observada por Armando.
- Meu amor, você está acordado! Por um momento, ao desligar o chuveiro, pensei ter ouvido o seu ronco. Você nunca gostou muito de me espiar tomando banho. Juro que se tivesse lhe visto antes de terminar, iria te convidar para aproveitar a água quentinha... – Laura resolveu parar de falar compulsivamente, ao perceber o silêncio do namorado.
O vapor do banho quente havia formado uma espécie de bruma e com a fumaça gradativamente se dissipando, Laura pode perceber que havia algo estranho no semblante do namorado. Ostentava um olhar enegrecido, barba por fazer, diferente de minutos atrás, o cabelo também possuía algumas mechas brancas. O que mais lhe assustou foram os olhos vermelhos, revelando um vazio nunca antes testemunhado, parecia até exalar maldade. Como em minutos, o namorado gracioso, dava lugar aquela persona tão controversa, apinhada de dualidades!
Exibia um sorriso caliginoso enquanto a olhava fixamente, intenso a ponto de despertar desassossego. – O que está acontecendo? Você está tão estranho! – indagava Laura, já em prantos. Armando, ou aquilo que tomava sua forma, limitou-se a responder: - Putinha, suja! Você é uma vadia realmente devassa! – bradou com voz repulsiva, em seguida, deixando o banheiro a passos trôpegos.
Com a toalha cobrindo o corpo, a ruiva não se permitiu nutrir raiva pelas duras palavras e adornada pelo medo seguiu até ao quarto, encontrando Armando ainda prostrado sobre o leito, em estado de pura letargia. Ainda enrolada na veste improvisada, sem vestígio da estranha aparição, faltou-lhe coragem de procurar seus rastros pela casa. Apenas deitou ao lado do namorado, também ansiava por um repouso, faltavam algumas horas para os seus pais chegarem.
Exaurida, buscou refúgio entre a amplidão de músculos braçais do desfalecido amante. Destinaria algumas horas para dormitar, mas sem piscar, mantendo a cada segundo seus olhos bem abertos!

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29 de maio de 2019

Reflexo invertido

Era um casal feliz com uma filhinha. Até que a criancinha... morreu! Uma trama tão sórdida não poderia ter outro cenário senão a velha choupana, verdadeiro pardieiro de madeiras pútridas e rangentes, onde a família se escondia durante certos dias. A atmosfera lúgubre até serviria de prenúncio para anunciar a desventurada incursão, mas o desejo de abordar a freneticidade urbana levava pessoas como aquela a abdicar de qualquer lampejo de sanidade. Até o mais acentuado devaneio, semeado para proporcionar algum líbito da realidade perturbante, esmoronaria diante de opções mais vistosas, como um resort de frente para o mar ou dois dias em algum luxuoso hotel. Com um pouco de imaginação, o humilde casebre poderia converter em um lugar acolhedor, bastava não reparar, principalmente, nas goteiras que encharcavam parte do assoalho mofado. Sem televisor, computador, chuveiro térmico, e até energia elétrica, a iluminação rarefeita das velas era o cenário perfeito para contar histórias de terror, ou simplesmente se deliciar com o duelo de baratas gigantes digladiando-se contra escorpiões impetuosos. Alguns deles ansiavam por ser o dono do pedaço. O pavor ensaiava tomar conta de todos quando a força do vento ensandecido se chocava contra a porta. Era como se alguém estivesse batendo forte, espreitando, os jogos perigosos aqueciam a inventividade, uma profusão de sobressaltos deveras inquietantes. Lá fora, em meio à mata, o vendaval impulsionava a chuva a atingir, com robustez, o telhado e paredes da choupana, ao mesmo tempo, flashs de luzes latejantes cortavam o horizonte desalumiado, chegando a transpassar as janelas, cintilando os cômodos.
Minutos depois, de mandar a Filha subir para escovar os dentes e se preparar para dormir, Pai conferia os tributos da Mãe. Mais um pouco o deleite faria esquecer-se de seguir para o quarto, não podia faltar o sacramento, em forma do beijo de boa noite. No curto percurso, tomou para si a recomendação de caminhar paulatinamente, olhando bem onde pisa, aquela altura as tábuas pouco resistentes já não suportavam serem submetidas a ainda mais peso por mera afobação.
Ao abrir a porta, encontrou a Filha sentada sobre a cama, inerte! – Está tudo bem com você, meu amor? – perguntava o Pai, estranhando o silêncio da menina! - Está tudo bem com você meu amor? – insistia o pai, cada segundo mais ansioso pela resposta!
A garotinha respondeu apontando o dedo para a porta fechada do banheiro, quando Pai se deu conta do ruído de água corrente jorrando pela torneira! – Pai, tem um monstro escondido no banheiro, Pai – explicou. Tomado pela fúria, Pai não percebeu que a voz da garotinha estava um tanto diferente, marcada por rouquidão. Apenas queria bradar algo do tipo: - quantas vezes Filha, tenho que dizer para você desligar a água quando sair do banheiro. Isso é desperdício, nosso líquido mais precioso corre risco de escassez... No entanto, antes de começar a lição, notou que algo ou alguém, simplesmente, fechou a torneira! – Amor, é você? – indagou em voz alta, o último fio de esperança, sabendo que a mulher estava embaixo. – O que foi, querido? – a resposta, cercada de incerteza, deixou o pai atemorizado, alguém estava lá, mas não era para haver um quarto elemento na choupana!
Antes de seguir até ao banheiro, voltou a olhar Filha, ainda sentada na cama, ostentando um semblante insólito, transparecendo medo e certa excitação. – Parece que as histórias de fantasma mexeram com você – afirmou Pai, enquanto seguia em direção à porta, cada passo mais perto da verdade que desvendaria o assombroso mistério!
Antes de tocar a maçaneta, a porta passou a se abrir lentamente e o estridente rangido adornava a ambiguidade. Lá estava a garotinha, sentada na privada, sorrindo para o pai, ludibriado pelos seus olhos que reproduziam duas Filhas, em planos tão próximos quanto distintos. Estático, ainda não podia ver que na banheira, instalada de frente ao sanitário, repousava os nacos de uma criança, enrolados em um lençol pintado pelo mesmo mar de sangue que profanou a singeleza da garota.
Para sempre Pai seria pai de uma filha morta e outras duas erigidas do desconhecido!

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4 de abril de 2019

Filosofando com o homem morto

Que possa padecer no inferno, o primeiro verme que se deleitou com a podridão do meu cadáver, afinal vocês não sabem como pode ser lúgubre os dias, aprisionado nessa caixa de madeira soturna, tendo como companhia apenas as próprias criaturas nefastas que se divertem cavando túneis, quilômetros de microvias por entre o universo de carne morta. Enquanto sirvo de banquete para esses miseráveis seres, sobra muito tempo para refletir. Se tivesse papel e lápis, até me arriscaria a poetizar, não tive tanto tempo para compor versos em vida, agora, ao meu dispor todo tempo do mundo, vejo-me incapaz de registrar minha arte.
Numa oportunidade qualquer, regada à pura nostalgia, não deixei de pensar na família. Coincidência ou não me visitaram no mesmo dia, uma conexão pós-morte, trouxeram flores negras e murchas. Gritei que estava aqui, podia ouvi-los, que sentia saudades, mas acho que o som não emergiu até a superfície, talvez simplesmente não tivessem coragem de escutar. Na mente ideei que pudesse lhes escrever, narrava que as noites costumavam ser frias, capazes de ranger os dentes ou aquilo que sobraram deles. Em contrapartida, os dias eram demasiadamente quentes, fazendo-me sentir saudades das gélidas gavetas do necrotério, como mantinham o frescor da carcaça sem vida.
As noites tempestuosas despontavam como verdadeiros desafios. Cada relampar parecia um anúncio para o fim do mundo, os lampejos eram intensos, capazes de sobrepujar a terra, invadindo as frestas da madeira para irradiar aquela exígua cova. Se os estampidos, provenientes das trovoadas, eram assustadores, as chuvas sempre configuravam a pior parte da desventura.
O volume de água pluvial, gradativamente, infiltrava o cimento gasto, levando poucos minutos para cruzar os sete palmos de terra, e mais rápido transpassava a madeira para inundar todo o caixão. O medo de não conseguir respirar, em meio ao dilúvio, fazia-me sentir vivo, ao menos por meros instantes. Uma parte d’agua entrava pela boca, matando a sede que já não sabia se sentia. Devo admitir: o momento mais divertido era quando o líquido gelado, meio negro por conta da mistura com a terra, escorria pelos orifícios abertos pelos vermes malditos, agora sem saída, meu corpo passou a ser a prisão. Acuados, até podia ouvi-los exalar os últimos suspiros, estavam sepultados dentro de mim, a fusão em um só cerne.
Nas primeiras horas da manhã, o sol volta a irradiar no horizonte, tudo acontece como verso e reverso. Será que algum deles virá me ver hoje? Esse vai ser mais um dia quente ou teremos um pouco de chuva para equilibrar o calor? Dessa vez, os próximos vermes virão depressa, ou passarão dias como da última vez? Na iminência da chegava, estou curioso: os novos invasores das trevas irão aproveitar os caminhos trilhados pelos antigos devoradores ou preferirão pavimentar novos caminhos, desbravando o desconhecido?
Em meio a tantas indagações, impossíveis de presumir nesse momento, estou pronto para mais um dia, fadado a ser igual ao ontem e nada diferente do amanhã, com futuro e passado compondo um mesmo presente. Numa tentativa de mudar essa realidade, ainda reuni, em vão, as últimas forças para tentar erguer o corpo desfalecido. Não pensem que queria fugir do sepulcro, apenas pela milésima vez arriscava ler a mensagem gravada na lápide, todo homem morto deveria ter esse direito.
Resta apenas, com a licença de todos, recolher-me a brevidade do sono eterno. Podem me visitar quando quiser, basta ter disposição para filosofar e depois tocar a campainha da eterna morada!

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9 de outubro de 2018

Pesadelo inominado


Conceitos como o bem e o mal, preto e branco, certo ou errado. O universo das dicotomias também deveria abrir espaço para um fenômeno que pouco se sabe a respeito: sonhos e pesadelos, que podem configurar experiências assombrosas, algumas verdadeiramente aterrorizantes, capazes de despontarem como o mais próximo do inferno que quero e me permito chegar. Há experimentos ainda piores do que se ver vitimado por delírios como despertar em lugares banhados pelo soturno, com murmúrios vindos de todos os lados, sombras fitando nossos passos, mantendo-nos ladeados pelo mal que agrupa e em mero instante se apodera de nossa alma, corrompendo-a. Temi por muito tempo embarcar nessas desventuras, até descobrir que o maior pesadelo de todos só pode ser vivenciado quando estamos acordados.
Não se sabe quem, ou precisamente o que está por trás dessa investida aterradora. Possui vários epítetos criados pelos homens como bruxa do sonho, demônio das sombras, homem da meia-noite, ou simplesmente bicho-papão. O ser das trevas, ou entidade, como prefira concebê-lo, parece habitar os sonhos das pessoas, onde se mantém vivo, perpetrando o horror.
No abrir dos olhos, é possível observá-lo no canto do quarto, sorrateiro nas sombras, postado sobre os pés da cama, com aquele aparente sorriso recheado de cinismo, conseguindo manter meu corpo paralisado, havendo controle apenas sobre o movimento dos olhos. Sua primeira manifestação ocorreu quando ainda era criança e tantos anos depois, permanece sendo impossível descrever sua aparência com riqueza de detalhes: um vulto na escuridão, movendo-se através das sobras que se formam.
O expurgo do inferno era ausente de feições. A energia que emanava era formada por algo ainda pior e mais intenso que a maldade. Estava acordado sim, mas não conseguia me mexer, por mais que tentasse, era como se a bel-prazer pudesse me manter imóvel, com o poder da mente. Cada segundo, a famigerada experiência atingia contornos ainda mais aterrorizantes.
Era possível que a estranha figura não fosse munida de poder algum, além de costurar as presas com o próprio medo, aprisionando gradativamente toda capacidade de reação. Algumas vezes a insólita entidade parecia adotar a forma de uma mulher e quando, em meu íntimo, atenho-me a rezar por uma saída, simplesmente estendia seus braços compridos, formando a imagem de uma cruz, parte de um estratagema frívolo, sórdido, articulado com único propósito de defenestrar a fé, insultando aquilo que acreditava.
Antes de partir para desbravar outros pesadelos, seus olhos frios e escuros cruzavam com o meu, despertando ainda mais inquietude. Subitamente a figura assombrosa, vultuosamente, caminhava ao meu encontro. O mal ainda se manifestava através das sombras que se espalhavam compassadamente pelas paredes gélidas, profanando o cômodo agora tomado pela escuridão, não há dúvidas: estávamos diante de algo verdadeiramente maligno.
Em um gesto de desespero, tentava reunir as últimas forças para gritar, romper a inconveniente paralisia e correr o máximo possível para longe, mas não havia resposta, continuava imóvel, diante dos olhares daquele emissário do demônio, a voz tragada pela escuridão, as pernas desobedecem. Sem perceber, retomava ao sono profundo e todo cenário era desmantelado.
Não era apenas um pesadelo, era diferente, diferente, realmente díspar. Outros caracterizarão como embustice ensaiada por dissimulados, mas não importa. Certo é que a criatura das trevas, ser inominado, está agora em algum lugar, espalhando medo, encontrando morada no pesadelo de outras pessoas. Um novo encontro estará marcado, só resta saber quando retornará para povoar meus tristes delírios.

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