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19 de outubro de 2022

Assombração no Gas Station

Cemitérios, igrejas, hotéis... Quem sabe hospitais, escolas ou casas antigas. Quando o assunto é assombrações esses seriam os locais mais propícios para registro de atividades dessa espécie. Disse seriam porque a esfera sobrenatural costuma contrariar as regras – isso se existirem regras – e às vezes um ambiente não lá muito apropriado, como o banheiro de um posto de combustível, pode servir de morada para uma assombração ou talvez uma mera alma errante se manifestando durante breve passagem.

Do lugar de onde vim, postos de combustíveis não servem somente para abastecer os carros. Essa até pode ser uma das funções mais desimportantes do local içado por um amontoado de ferro, sustentados pelo conjunto de vigas interligadas ao piso lajeado. Debaixo das placas de cimento, há um paquidérmico tanque recheado de material inflamável, portanto bastaria apenas uma centelha flamejante para colapsar a estrutura, colocando tudo pelos ares.

Ainda assim, dizem que postos de gasolina são locais muito seguros e a prova disso são as chamadas lojas de conveniência, que acabam servindo como uma ponte para estreitar a distância entre amigos imposta pela vida. Afinal, quem nunca reuniu a galera ao redor de um carro estacionado no posto. Cada um pode escolher – e melhor ainda pagar – pela própria bebida , jogando conversa fora a noite inteira, com direito até a trilha sonora, mas sem abusar demais do volume.

O nosso posto era o Gas Station. Passava ao largo de ser o point, embora estivesse sempre aberto, seja durante a semana ou nas fogosas noites de sexta e sábado, quando não se tinha nada melhor para fazer, e naturalmente, isso quase nunca ocorria. E mais uma noite, marcando o começo do fim de semana, era inaugurada em nossa segunda casa, tendo sobre nossas cabeças a estrutura em ferro corroído, já carecendo de reforma, antigas bombas de abastecimento reclamando por aposentadoria, além do piso escurecido com sua coleção de fissuras. Em contrapartida, a antiga loja de conveniência esbanjava precisão em reabastecer o estoque de bebidas estupidamente geladas e a melhor parte: praticava preços bem abaixo da concorrência.

Eu já estava na terceira lata de Coca-Cola, as duas primeiras foram batizadas com algumas gotas de vodca, afinal ninguém é de ferro. Enquanto Thiago protagonizava um monólogo sem fim, sobre a possibilidade de o Gas Station fechar temporariamente para reforma, os outros dois amigos se entretinham no celular e eu me limitava a observar os fachos de luz, provenientes dos faróis dos carros a vararem a escuridão da via. Nessa toada, enfim notei a necessidade de esvaziar a bexiga e nunca fiquei tão satisfeito em ocupar o sanitário fétido, a oportunidade perfeita para debelar o insuportável assunto.

Logo na entrada do banheiro havia uma pia equipada com duas torneiras e um espelho paramentado por manchas escuras, comprometendo a reprodução de imagens. Com mais alguns passos, e tentando respirar o mínimo possível, cheguei ao urinol. Alguns segundos foram o bastante para debandar minha agonia e voltar para os amigos e a Coca-Cola, terceira lata não batizada.

Já estava pronto para marchar de volta, quando fui surpreendido por uma estranha figura, postada defronte ao velho espelho. Mais do que a presença em si, estranhei o fato de não ter escutado o som de passos anunciando a chegada. Aparentemente se tratava de uma mulher, bastante maltrapilha, usando calças com várias partes esgarçada, permitido mirar as pernas mirradas com inúmeras marcas de sangue coagulado. A blusa também tinha rasgos suficientes para deixar à mostra uma parte do abdômen, repleto de traços roxos. Talvez aquela mulher precisasse de ajuda, só não estava necessariamente diante de um herói.
- Não sei se percebeu, mas a senhora entrou no banheiro masculino. O das mulheres é logo... – O silêncio dela, mais do que incômodo, passara a ser agoniante e me fazia desejar sair logo dali. - Está tudo bem com a senhora?

Àquela altura não sabia ainda se a mulher mais parecia uma mendiga, se foi espancada em alguma mostra de crueldade humana ou a pior hipótese: vítima de violência sexual.
- A senhora precisa de ajuda, precisa que chame alguém? – Lógico, eu não era o alguém capaz de ajudá-la e tinha um reencontro marcado com meu refrigerante.

A mulher insistia em permanecer de cabeça baixa, emudecida, apenas encarando o espelho de soslaio. Não havia observado antes, mas as mãos executavam um estranho movimento rítmico, talvez parte de um estranho e involuntário estímulo cerebral. Agora, com deslocamento paulatino, passou a lançar seu olhar, movendo a cabeça em minha direção.

Confesso não ter permanecido no banheiro para acompanhar o desfecho. Do lado de fora, estava crente que meus amigos, logo quando saísse, estariam entregues ao riso compulsivo. Só que não exibiram qualquer gargalhada. Thiago continuava falando sobre a iminente reforma no posto e agora Paulo lhe emprestava atenção, só Nando seguia firme no celular. Talvez estivessem fazendo cena, os risos iriam irromper apenas quando a mulher deixasse o sanitário. No entanto, os minutos transcorriam e tanto ela não cruzava a soleira da porta como eles não diziam nada.
- O que foi, Daniel? Parece ter visto fantasma! - Thiago me surpreendeu, seguindo para o sanitário. Em meu íntimo, respondi que talvez tivesse mesmo visto algum. Quando regressou, indaguei Thiago quanto a ter percebido algo estranho, talvez a mulher também o tivesse assustado.
- O cheiro? Hoje parece pior do que nunca, como se houvesse algo podre lá dentro. Ainda hoje, não sei se me arrependo por não ter tido coragem de entrar novamente e observar se a mulher permanecia no banheiro do Gas Station. Estava claro, todos naquela noite ocuparam o sanitário, lidaram com o cheiro pútrido, mas somente eu fui contemplado pela estranha presença.

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7 de fevereiro de 2022

Halloween – No picadeiro do pequeno palhaço

Era como estar preso no pior pesadelo... e nunca conseguir acordar... ou sequer ser capaz de gritar.

Espessas nuvens pardacentas moviam-se freneticamente no céu, anunciando a iminência de uma noite tempestuosa. Até parecia resultado de uma brincadeira infame, um mar de flores algodoeiras banhadas com coca-cola, prontas para a qualquer momento verter cada gota de litros absorvidos. Antes de a tormenta roubar a cena, chegávamos secos a morada para acompanhar às seis horas restantes da melhor noite do ano. Sim, após certa animosidade, acabei cedendo e aceitando passar o Halloween em casa. Iria ascender a abóbora e seu brilho fulgurante ajudaria a levar um punhado de pipocas à boca enquanto nos debruçávamos sobre alguns filmes de terror .

Agora já estava conformado, mas horas atrás, ainda no carro, essa alternativa despertou imenso dissabor.

- O que você tem em mente, arrumar uma fantasia essa hora da tarde e caçar alguma festa para invadir? Porque até onde saiba, ninguém te convidou pra nenhuma! – provocou Christine, em seguida, curvando a cabeça e apoiando as mãos na nuca, gesto adotado frequentemente quando estava impaciente e inteiramente indisposta a embarcar em uma contenda ardorosa. Azar o dela! Eu tinha planos para aquela noite e não pretendia abrir mão deles, pelo menos não tão facilmente.

- Sabe muito bem que não há festa alguma. Mas, quero dar uma espiada no movimento, ver se tem alguma brincadeira rolando por aí. Quem sabe não encontramos algum conhecido e até consiga um convite inesperado. Também não vim despreparado, trouxe na mala do carro umas coisinhas, tipo um chapéu de bruxa, capa, uma ou duas máscaras, tem ainda uma abóbora de plástico. Quem sabe não estamos perdendo alguma coisa boa por aí!

- Não vai rolar nada disso. A cidade está uma loucura, vem muita chuva, chuva grossa.

- Meu amor, se não encontrarmos nada, paramos em alguma praça, pegamos os enfeites que trouxe e tiramos umas fotos. Mas, antes, vamos dar umas voltas.

- Você é alguma espécie de idiota ou está se fazendo? Só falta, Cláudio, inventar de sair por aí com uma bolsinha roxa ou alaranjada tocando campainhas das casas e reclamando por doces. Você não está nos Estados Unidos, isso aqui é Brasil. Além do mais, não percebe como está o tempo? – Foi quando Christine posicionou o dedo indicador para cima, com sua explanação sendo respaldada por uma trovoada, daquelas arrebatadoras, legitimando todo o discurso.

- Ou seja, embora esteja de carro, devo esquecer o Halloween que passei meses ansiando, voltar para casa e me esconder entre as cobertas com medo de relâmpagos e trovões. Naturalmente, por conta de a senhorita ter tido um péssimo dia no trabalho.

- Realmente, Cláudio, tive um péssimo dia e não aguento mais esse emprego. Bem que gostaria que pudesse ter passado o dia comigo, naquela clínica, atendendo todas aquelas clientes insuportáveis. Você se daria conta que as bruxas realmente existem....

- Ah para! Esse papo de novo – tratei de interrompê-la. - Como sempre, você tem capacidade de distorcer as coisas. Agora, pra variar, a culpa é toda minha. Eu quem sou o incompreensível, insensível, e quanto mais íveis possam existir. Definitivamente, hoje não, Christine!

- Na verdade, não estou pedindo para você desistir de nada. Vamos passar um instante no shopping, é caminho de casa. Quem sabe não tenha alguma liquidação daqueles adereços de Halloween que tanto gosta. Você sabe melhor que eu como ficam as ruas dessa cidade com qualquer chuvinha, tudo acaba alagado. É melhor passar, como mesmo você chama: A MELHOR NOITE DO ANO assistindo filmes do que aqui, numa rua cheia d’agua, presos no trânsito. Sem falar na possibilidade de danificar seu amado carrinho...

- “Quem sabe não tenha alguma liquidação daqueles adereços de Halloween que tanto gosta”, tratei de arremedá-la, sabia bem o quanto aquilo a irritava e para minha surpresa não vociferou algo do tipo “Pare de mangar de mim” ou “não se atreva a ficar me imitando”. – Christine, não posso crer que, depois de tudo, você ainda irá me convencer. Até o Monstro de Frankenstein seria mais insistente. Eu realmente não passo de...

- Esquece isso, amor! – Dessa vez a espevitada tratou de invadir meu discurso. - Eu faço a pipoca, com bastante manteiga. Dessa vez, pode tomar quantos copos de refrigerante quiser e também pode escolher os filmes que preferir. O que acha?

- Amor? Foi isso mesmo que ouvi? Mal faz um minuto, você me chamou de idiota. Incrível como as mulheres podem ser volúveis quando é de seu agrado. Mas, agora não tem como voltar atrás, eu escolho os filmes e não irei admitir nenhum tipo de censura.

- Só não me venha com Candyman, sabe o quanto detesto abelhas. Também esqueça Sexta-feira 13, Halloween, Fred Krueger, Cemitério Maldito, O Exorcista, Pânico, Brinquedo Assassino... Definitivamente, estamos fatigados de assistir essas coisas, os tais clássicos. Eu topo ver alguns dos filmes daquele casal, os Warren, desde que não tenha aquela freira diabólica, como é medonha aquela criatura trevosa.

- Eu achava que você tinha concordado em não se intrometer. Além disso, pensei em rever os dois capítulos de IT, talvez Hereditário ou Suspíria, a versão de Dario Argento, naturalmente. Algum filme de vampiro iria bem, digo vampiros de verdade como em A Hora do Espanto, não os genéricos. Quem sabe também alguma produção assinada por expoentes do quilate de Wes Craven, John Carpenter, James Wan - comentei, citando outros cineastas como Mike Flanagan, Jordan Peele, Tobe Hooper, José Mojica Marins...

- Como quiser, meu amor! – Hummmm, parece que agora eu estava vencendo a peleja. Tudo que realmente queria, era curtir de VERDADE uma assustadora noite de Halloween.

O humor de Christine melhorou muito depois do atrito. Embora a visita ao shopping tenha sido breve, até nos divertimos um pouco antes de seguir para o marasmo de casa. Antes, para ilustrar o momento, cheguei a tirar uma foto com duas garotas gêmeas, de aproximadamente oito anos de idade. As duas realmente esbanjavam capacidade de validar o adjetivo estranho.

Pouco tempo depois o ânimo de Christine, inesperadamente, esvaeceu durante a chegada ao apartamento. Percebi logo ao cruzarmos o limiar da sala. Estava um tanto absorta, desnorteada, como se tivesse sido atingida por uma estúrdia sonolência, morbosa por alguma substância ou feitiço. Sua condição suspicaz me fazia ignorar alguns sonidos incógnitos. Em vez de seguir para a cozinha, onde logo um amontoado de pipocas despontaria como a especialidade da noite, Christine deu alguns passos à frente, espiando a varanda de reduzidas dimensões, regressando logo para fitar o compartimento adornado pela mesa de jantar com quatro lugares, mesinha de centro, sofá com dois lugares, duas poltronas de plástico e um aparador instalado próximo ao umbral, precisamente no canto da parede que seguia até a entrada do espaço onde os alimentos eram preparados.

Alguns passos à esquerda a levaram até o corredor onde os três cômodos do imóvel estavam alinhados. A princípio pensei que seguiria para a sala de tevê, ornamentada para agradar um fã inveterado de filmes de terror, com diversos pôsters, bonecos de personagens clássicos como o palhaço Pennywise, os serial killers Jason Voorhees, Michael Myers, Leatherface, Chucky, Ghostface e até entidades maléficas como Valac e Annabelle, além de vários adereços característicos do Halloween como Abóboras Sorridentes (jack-o'-lantern), caldeirões, bruxas, fantasma...

No entanto, o transe a levou a tomar a estreita passagem à direita, possivelmente em direção à suíte, talvez para tomar um banho e trocar de roupa. Resolvi segui-la, quando notei que estava no “quarto do meio”, como chamávamos o escritório e a biblioteca, inteiramente estirada sobre a poltrona pousada de frente a parede, perto da porta.

- Pensei que estava indo para o banheiro trocar de roupa e tomar banho, como gosta de fazer ao voltar do trabalho. – A resposta só não veio em forma de um silêncio quase sepulcral, por conta de diferentes soídos a serem ouvidos em diferentes pontos da casa. Havia até uma espécie de sussurro reverberando, ora parecia mais longe e outros momentos mais próximo. Mais do que um evento meramente heteróclito, o cenário adquiria ares tenebrosos e um tanto dantesco.
Meio tépido, eu disfarçava a sensação de haver alguma coisa errada. Os esforços estavam a serviço de ensaiar uma maneira de retomar a normalidade, apesar de aquela altura já não fazer questão alguma de perpetuar, nas horas seguintes, o clima do Dia das Bruxas.

- Que tal se você adiar o banho um pouco e fosse pra cozinha fazer a pipoca que prometeu, enquanto vou pra sala de tevê escolher os filmes... - Acabei interrompido por um rijo estrondo, trovões ribombavam o céu. Através da moldura vítrea era possível fitar os contornos dos relâmpagos a se formarem, por alguns segundos expurgando a escuridade da noite, ostentando uma alvura intensa. Como o edifício fora erguido em uma região alta, quase como um promontório, a visão de alguma forma acabava privilegiada.

No último clarão resultante de uma descarga elétrica, a luz do condomínio inteiro aparentava ter sido drenada. Ao mesmo tempo foi possível ouvir o barulho de alguma coisa despencando na sala de tevê. Em disparada, fui ver o que aconteceu, cedendo ao impulso de tatear o interruptor, tendo esquecido a falha energética. Para meu espanto, a claridade irrompeu o ambiente, com a queda perdurando então por não mais de 20 segundos. Isso não me causava qualquer estranheza, perturbava mesmo a desagradável surpresa de ver o televisor, antes fixado em um painel de madeira, acabar pendendo e agora repousava sobre o rack.

- Que loucura! Christine, venha aqui, veja que coisa mais estranha. – Sem resposta, acabei empostando a voz em tom quase agressivo. – Não ouviu que estou chamando você? Christine, vem até aqui e que seja logo!

- Eu não quero sair daqui – finalmente ela respondeu, com a voz compassada, como se estivesse alheia a todos os eventos.

- Christine, venha de uma vez. Preciso de ajuda para...

- Já estou aqui! – Confesso que me assustei, não sei exatamente se pelo fato de ela já estar bem atrás de mim ou pelo timbre murmurante da voz, um tanto estrídula e fleumática.

A despeito de totalmente abstraída, acabou me ajudando a içar o televisor e acondicioná-lo novamente no painel, logo acima do rack. Embora o aparelho, por obra do acaso, tenha despencado da peça pregada na parede, não aparentava ter sofrido qualquer avaria. Sequer tive tempo para idear os fatores responsáveis pela queda, afinal não parecia resultado dos estrondos relampejantes, minha atenção de imediato sucumbiu a um dos “assustadores” adornos dispersos no quarto.

Lembro ter ouvido antes barulhos suspeitos ecoarem do palhaço, em contra partida, nunca suas feições adotaram um tom hilário e menos ainda emanava uma luz parca e estranha. O esdrúxulo bufão atracou em nossa “sala de teve” como um presente inusitado de Christine, mas ninguém nunca soube ao certo apontar a gênese da criatura insepulta. No começo, achei seu visual atípico e um tanto soturno, com um alvacento chapéu pontiagudo encimado de cabelos pardos bastantes desgrenhados. A face ainda ostentava o nariz rubro e estrelares olhos, negros como o céu mais escuro, além da boca composta por uma estranha fenda escancarada (encompridada). As roupas cinzentas, no mesmo tom do chapéu, eram repletas de estampas, imitando o formato de bocas brancas com contornos cetrinos, com as vestes se estendendo ao restante do mirrado corpo, inclusive os braços escassos.

Naquela noite, o palhaço adotava a forma de uma criatura ainda mais esfíngica e sombrosa. Escutando pequenos cicios irromperem de sua direção, resolvi tomá-lo entre as mãos, não cedendo à insensatez imposta pelo assombroso delírio. O silvo do vento, de maneira súbita, despertou o palhaço adormecido, o riso mais tétrico varava o silêncio, sendo possível mirar os olhos banhados de ódio. Dezenas de gadanhos passaram a travar uma luta para escapulir da arcada e encontrar estada em meu pescoço para assim sorver cada gota de sangue a percorrer as veias e artérias.

O palhaço não escondia o êxtase de conseguir utilizar as presas, tão afiadas como faca, para extirpar minha carne, desossá-la, antes descosendo os músculos e tendões. Por um instante, pude notar que apesar do formato irregular dos dentes cortantes, a conversão torava-se perfeita quando permaneciam serrados. Enquanto reunia forças para conter a investida, apesar de leve projetava-se contra mim com farta vitalidade, a criatura colocava ainda em prática o intento de tentar me desestruturar com a voz gutural, proferindo insanas ameaças: “Eu vou te matar seu paspalho. Não sabe o quanto esperei por isso. Essa sala agora será minha, irei deixá-la vermelha com seu sangue, extrair suas vísceras e pendurá-las. Irei arrancar suas tripas para enrolá-las na televisão, o enfeite perfeito para o Halloween”.

Enquanto tento conter as ofensivas do palhaço, olho para Christine, empedernida. Não podia me preocupar com ela agora, era necessário dar um jeito na criatura maquiavélica, antes que arrumasse uma maneira de cumprir suas ameaças. Passei a segurar seu corpo escasso com ainda mais força, ao mesmo tempo, abria e fechava a boca de forma célere, como um cão raivoso. O bufão resistia, balburdiando bravatas e tentando cravar as presas em alguma parte do meu corpo.

Com esforço, consegui levá-lo até a cozinha e apesar da luta e dos gritos incessantes pude acondicioná-lo em um volumoso frasco, capaz até de suprimir suas ameaças quando acionei a tampa. Apesar da resistência, o mal estava contido no recipiente, deixado sobre a pia enquanto retornava ao cômodo para ver Christine e tentar demovê-la do choque. É possível que a exasperação lhe tenha trazido de volta ao mesmo lugar de antes, repousando aturdida na poltrona.

- Christine, não temos muito tempo a perder! Precisamos levar essa coisa daqui o quanto antes. Espero que não seja muito tarde, que essa maldição não tenha se arraigado no apartamento, nos assombrando, encontrando eterna morada aqui.

- Eterna morada, assombrando... O picadeiro do palhaço.

- Christine escuta – realmente estava extenuado – sei que o palhaço é seu e lamento muito por isso. Vou encharcar o pote com álcool e queimá-lo. Depois arremessá-lo em algum lugar, provavelmente no esgoto que é o lugar deles. Espero que nossos vizinhos não tenham...

- Tah

- Sabe Christine. Eu penso que, por mais estranho que pareça, estamos diante de uma demonstração do sobrenatural. Podíamos filmar o palhaço, antes de fazer churrasquinho dele. Ainda assim, não acreditariam, ninguém acreditaria, acho.

- Não acreditariam, acho!

- Você poderia vir comigo, para me ajudar, segurar o pote e vigiá-lo. A coisa está...

- Vir comigo... Não!

- Poxa, Christine! Por favor, eu preciso...

- Por favor, poxa... Não quero sair daqui – dizia, mantendo os olhos abertos, sem piscar por um mero segundo.
Sabia que algo estava errado, era nítido e, talvez, fosse necessário me livrar do emissário das sombras para finalmente trazê-la de volta, embora não sabia se queria isso, talvez gostasse dessa Christine. Então começo a caminhar, compassadamente, de volta a cozinha, tinha um novo encontro marcado com um palhaço aterrador e não seria nada salutar deixar o ser sombroso esperando.

O percurso nunca pareceu tão longo, uma marcha peregrina, até o barulho de algo se espatifando vir da cozinha. Alguns rápidos passos para traz me levaram de volta a soleira do “quarto do meio”, onde Christine, apesar dos olhos abertos, convivia com sua letargia. Um novo relampejar fulgente preencheu o longínquo horizonte com seu clarão ominoso, acompanhado pela tríade de estrondos, novamente levando o apartamento a completa escuridão.

A luz não retornava por mais moroso que fosse meu movimento. No picadeiro do palhaço, gargalhadas sussurrantes e o barulho de passadasr rompiam o silêncio perpétuo aliado à escuridão mais perturbante. O emissário das trevas estava ali, em algum lugar, à espreita, sorrateiro nas sombras, com as presas cortantes prontas para extirpar. Talvez pudesse novamente ouvi-lo se movendo caso o ronco de Christine não reverberasse intensamente. Isso era o mais perto do inferno que podia chegar, diante da mais assustadora e verdadeira noite de Halloween.

- Cláudio, decidi ajudar você a procurá-lo – Exprimiu atrás de mim. Era a voz de Christine, retumbando em perfeita sincronia com timbre manifestado antes pelo bufão. Senti então uma coisa inquietante nas costas, atingindo a pele, os músculos, arrefecendo tudo que pudesse ter pela frente.

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26 de janeiro de 2022

Eu te quebro na saída

Rememorar a infância é sempre um ato nostálgico, um tanto romantizado também, haja vista que em alguns momentos a puerícia podia assemelhar-se a um verdadeiro campo de batalha, com os fedelhos esgrimindo por mera ignobilidade. Afinal, às vezes, não importa o quanto hesite, no fim precisará prescindir a pacatez e lutar com todas as forças, como se estivesse em uma disputa pela vida ou, pelo menos, penosamente presumindo tamanha baboseira.

A reminiscência remete a bela Alexandra. Embora haja controvérsias, ainda hoje a considero a garota mais bonita da turma, naquela época a mais exuberante de toda escola. Não tinha traços tão chamativos, era uma beleza mais natural, pura, até cristalina, se possível for. Adorava mirar o modo como ela tocava seus cabelos, castanhos não exatamente lisos, mas extremamente sedosos. Tateá-los era como se estivesse tomado um punhado de algodão, composto por mechas tênues e desmedidas, muito delicadas, ficava a vislumbrar, admirado, com o modo como pareciam serpentear no meio e finalmente ondulando quando atingiam a finitude.

De modo repentino, lembro bem quando Alexandra olhava para traz e me flagrava fitando o mar de fios amarronzados. Tinha apenas onze anos e ainda recordo a sensação de ser alvejado pelo seu singelo sorriso, nada espalhafatoso, carregado até com uma dose de ironia, a bela tinha plena consciência de exercer certo poder sobre mim. Apesar da tenra idade, as garotas parecem despertar, desde muito cedo, certo sexto sentido para essas coisas.

O terceiro elemento da rememoração era Vladimir. A maior parte da turma o chamava de Conde Vladimir Polanski. Como achava um nome meio complicado de pronunciar, possuía predileção pela alcunha de Conde Vlad, era mais rápido e direto e o bom garoto não se importava nem um pouco. Com o pequeno soberano não havia tempo ruim, as meninas o adoravam não apenas pelo porte físico mais atlético (considerando ser apenas uma criança) e sim pela natureza desinibida, jovem cavalheiro de invulgar carisma, atencioso, e até culto considerando a idade. Possuía repertório variado, sabia conversar sobre futebol, automobilismo e a despeito de não figurar como melhor aluno da turma, ostentava notas invejáveis. Também esbanjava certo conhecimento sobre música, destacando-se pelo gosto eclético, além de um devorador inveterado de romances e revistas.

Não vou dizer que o senhorio de primeira ordem era um pouco do que eu, um garoto mais contido, necessariamente gostaria de ser. Não me importaria de ver meu lado sorumbático se dizimar, absorvendo um pouco da atratividade do Vlad, ou quem sabe, não precisar inflamar os neurônios, evocando todas as forças mentais, para manter meros cinco minutos de bate-papo atrativo com as garotas. Se tratando da bela Alexandra, meu recorde deve ter sido não mais de 180 segundos, embora credite à timidez o desempenho insatisfatório.

Certo dia, uma sexta-feira, enfim a chegada do último horário. Talvez estivéssemos extenuados. Era pra ser um dia qualquer, o prenúncio de um divertido fim de semana, mas simplesmente não foi. Aguardando a chegada do professor, a maior parte dos alunos já ocupavam as carteiras, inclusive também não titubeei em tomar meu lugar e aproveitar os átimos para fitar Alexandra, incrivelmente venusta naquela manhã, ou a percepção era fruto de certa tendência ao exagero, impulsionado pelo cruel destino a nos impor distância nos próximos dois dias.

Não sei por que, mas naquele dia a jovem musa virou-se para traz mais rápido, permaneceu mais tempo nessa condição quando nossos olhares se cruzaram, o sorriso formava-se em suas feições, parecendo ainda mais opulento e a cena digna de uma poesia lírica acabou defenestrada por um forte sonido, seguido por uma dor excruciante nas costas. O incômodo grassava na mesma medida em que uma enxurrada de risos reverberava, vinda de todas as direções, inclusive por parte da Alexandra. Isso me alarmava, suscitando mais inquietude.

Enquanto as gargalhavas ecoavam pela sala, notei uma folha de caderno planando até encontrar morada no chão. O papel, em letras garrafais, estampava os dizeres: ME BATA!

- Desculpa Rogério, mas tive que atender ao seu pedido – disse o enlevado Conde Vlad, fazendo jorrar uma nova sessão de risos.

- Na próxima vez, você bate na cadela da sua mãe – respondi enfurecido, ainda sentindo as costas latejando por conta do tabefe. Esperava por uma nova rodada de risos, ao invés disso o clima era taciturno. O vampiro infantojuvenil aproximava-se a passos trôpegos, com semblante extremamente carrancudo e eu sabia a razão.

- É melhor retirar o que disse, ou eu... – Vladimir parecia um tanto aturdido, como se estivesse estupefato pelo rumo tomado com uma brincadeira um tanto singela ter acarretado em um gesto tão ignóbil. O bom Vlad nunca dera vazão a uma fachada tão agressiva e para reforçar a feição tão sisuda, nunca antes vista. Em um gesto rápido, fechou a mão esquerda sobre a gola da minha camisa, parecia se conter para não desferir um soco. – Vamos seu animal asqueroso, repete o que você disse, repete?

O punho direito agora estava armado, parecia pronto para atirar. O rosto do Vlad emanava ainda mais ódio.

- Não vou repetir coisa alguma – respondi.

- Muito bem! – Vlad soltou minha camisa, sugerindo ter desarmado o gatilho, por também ter baixado a mão direita, anteriormente pronta para atingir minha face, como um meteoro cada vez mais perto de se chocar com a Terra. Deu alguns passos para traz, tentando espairecer, retomando gradativamente a serenidade.

- Eu também errei em bater em você. Se me pedir desculpas, encerramos!

O Conde Vlad mantinha-se de cabeça baixa, tentando conter a fúria ainda a ladeá-lo.

- Então cara, estou aguardando, cadê seu pedido de desculpas? Eu errei, mas nada a ver você colocar minha mãe no meio.

- Eu não vou te pedir desculpas – respondi, agora encarrando o olhar odioso do amigo.

- Cara! Minha mãe, minha mãe morreu cara! Como você pode...

- Eu não lembrava. Estava aqui quieto, depois do tabefe que me deu... Eu me recuso!

- Não pode estar falando sério, cara!

- Vá pro seu canto e me deixa em paz. Minhas costas estão doendo ainda!

- Nada disso! Outras coisas podem passar a doer. Te dei uma chance. Agora não tem mais perdão. Eu te quebro na saída! – Ameaçou o Vlad com os olhos marejados, retornando para seu lugar, o professor acabara de adentrar à sala sem idear as circunstâncias do episódio.

Os minutos seguintes de aula fizeram o sangue arrefecer, sucumbindo a adrenalina. Não havia sentido algum naquela animosidade. Vlad era um bom sujeito e aceitaria minhas desculpas. Estava decidido, não teria duelo nenhum. O sinal ressoou, era hora de voltar para casa. Segui meu caminho logo após juntar livros, cadernos e acondicioná-los na mochila. Vlad não estava mais na sala, seguramente percebeu a estupidez em torno do entrevero e foi esfriar a cabeça. A mais sábia atitude, por isso pretendia fazer o mesmo.

Ledo engano! Ao alcançar o pátio do colégio, estranhamente pouco povoado, lá estava o Conde Vlad à minha espreita. O pedido de desculpas agora estaria à disposição e por Deus, tinha fé em ser aceito pelo bom amigo. Vladimir queria atingir logo o desfecho, mostrou ser daqueles que vai direto ao ponto:

- É sua última chance de retirar tudo o que disse e se desculpar! – Como ratos ocultados nos espaços mais recônditos, vários garotos passaram a se concentrar no pátio, mais precisamente formando uma espécie de círculo em nosso redor.

- Rogério, cara, o tapão nem foi tão forte assim! Pede desculpas de uma vez e vamos acabar isso, sem show – frisou outro colega, com tom claramente conciliador, escolhendo bem as palavras como se estivesse evitando que pudesse me sentir pressionado. Estava pronto para oferecer minhas sinceras lamentações, talvez com direito a um breve discurso, dizer até que me envergonhava da atitude infeliz. Tudo estava devidamente ensaiado, quando percebi, entre a plateia, a presença de um membro honorável.

Alexandra estava lá, vigilante a todos os detalhes do entrevero. Lembrei que ela sorria para mim quando subitamente fui atingido pelo safanão. Agora, seria justo vê-la a contemplar minhas súplicas, invocando pelo perdão a uma reação espontaneamente instintiva? Não matei a mãe de ninguém e tampouco minhas sinceras desculpas a trará de volta. Os olhares absortos da garota indicavam uma temporária prisão a um transe semelhante à maneira um tanto desvairada a qual ficava cravando as madeixas moscadas, torcendo para que virasse para mim e permitisse, por meros segundos, espiar as notáveis maçãs rosadas estampadas em seu rosto.

Tinha sido um dia tranquilo e forças ocultas quiseram fazer Alexandra conhecer meus outros atributos, não me resumindo a um garoto desmilinguido e acanhado, conformado apenas em encovar as sombras para melhor observá-la sem se deixar notar. Em vez da humilhação, iria espraiar a coragem, o lado mais armífero, mesmo pagando o preço de uma grande amizade. Iria enfrentar Vlad, lutar com todas as forças para mostrar que, às vezes, um simples plebeu pode derrotar um dignitário. Daria tudo de mim, seria o melhor caçador de vampiros existente naquele colégio.

Minha força era içada pela certeza: Vlad até podia ser mais atlético, como vampiro detinha força descomunal, mas sua motivação se resumia a uma mãe a sete palmos do chão, enquanto eu lutava pelo reconhecimento do grande amor da minha vida. Não podia sucumbir à amizade, seria como tivesse apostando minha vida, não pereceria diante do sugador de sangue. A tirania do vampirão estava fadada ao fenecimento.

- Pela última vez, peça... – Já até sabia qual seria o texto, a resposta veio em forma de um soco certeiro. O bom Vlad estava impassível, como se não esperasse por aquela atitude acintosa.

- Vamos ver quem vai quebrar quem! – Brigas sempre foi um bom momento para frases de impacto. Impelido pelo ódio, passei a atacar o oponente com todas as minhas forças. Estranhamente, o vampiro não revidava. Com os olhos serrados, movendo-se de um lado a outro como se ensaiasse passos de alguma dança macabra, limitava-se a proteger a cabeça e o rosto com as duas mãos.

Vlad era rápido e sua defesa parecia quase instransponível. Logo, iria acabar combalido pelo esforço, seria impossível manter o ritmo por tanto tempo. Na certa havia articulado uma estratégia, inspirada no estratagema de Rocky Balboa no terceiro filme da saga e pretendia sorver todo meu sangue assim que ficasse exaurido. Como não podia perder, não com a apoteótica batalha sendo reproduzida pelos atentos olhos de Alexandra, uma nova e derradeira força brotou não se sabe exatamente de onde. O Conde Vlad, com os braços carminados, logo cedeu à sucessão de golpes.

A chance de trunfo me deixou ainda mais tresloucado e então passei a acertar o adversário com força na cabeça, nuca, várias partes do rosto... Não sabia mais pelo que brigava. Via-me inteiramente dominado pela estranha lascividade em exprimir meu lado mais violento. E assim seguiria, se outros colegas não tivessem se metido entre nós, apartando o confronto.

Com as mãos fixadas sobre a nuca, diversos gestos denunciavam estar sendo acometido por muita dor. O antes imponente Conde Vlad tomava forma de uma caricatura mal feita, como uma imitação barata, revelando-se um morceguinho que teve as asas talhadas. Confiante, tentava, mais uma vez, ir de encontro ao oponente, que em momento algum se dispôs a digladiar. Repousava sobre o assoalho, encostado na parede, com o rosto rubro. Finalmente percebi que o confronto há tempos havia cessado, mas as cenas gratuitas de violência foram insuficientes para expurgar toda a ira.

- Agora, já pode chorar no túmulo da mamãezinha – comentei, ainda sem conseguir acreditar realmente ter dito isso. Então, chega de perder tempo com o vampiro derrotado. Onde estava Alexandra? Ansiava pelo seu sorriso, sem dúvida a menina mais bonita de toda escola se sentiria protegida ao meu lado, afinal era um leão destemido. Entre os estrépitos, podia ouvir um sussurro similar ao choro. O Conde Vlad irrompia em lágrimas silenciosas, muito mais pela insensatez de palavras cruéis, a dor imposta por tantos murros.

- Não fica assim, Vlad. Esse Rogério não passa de um idiota. Não devia ter perdido tempo com ele, é apenas um garoto mimado... – Eu reconhecia aquela voz, era Alexandra, a minha Alexandra, ali acalentando meu oponente, consolando um derrotado.

- O que você está falando... eu, eu... Estava quieto.... – Alexandra sequer me respondeu. Limitou-se a ajudar o choroso Vlad a recolher seus materiais. Os dois sentaram-se juntos a poucos metros, enquanto os demais dispersavam.

Não pude permanecer fleumático a própria dor, mas ali sozinho fiquei por mais um tempo. Como sabia, o espetáculo chegou ao fim, apesar disso era difícil tomar coragem para pegar a mochila e seguir meu caminho. Preferi continuar lá, observando a mais bela garota reconfortar meu oponente, que em momento algum quis embarcar na briga, apenas ansiava por um justo pedido de desculpas. Por um momento, antes de partir vestido da minha vergonha, Vlad passou a me encarar por meros instantes, exibindo um semblante nada caliginoso, adverso ao rancor, como se estivesse sentindo pena. Não precisava ser um vampiro, ter vivido milhares de anos para saber quem realmente foi quebrado na saída.

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21 de abril de 2021

Debaixo dos cobertores

O artificio para fazer as palavras brotarem é sempre semelhante. Começo rememorando todos os pontos a serem explorados na narrativa e quando cada pedaço parece devidamente aglutinado, o desafio se torna deslindar um ponto de partida, por meio de palavras ser capaz de atiçar a curiosidade alheia. Alvejado por um turbilhão de ideias em forma de letras, mesmo concentrando energia para atravancar o desejo, sou impelido pelo súbito desejo de lançar a pergunta: como será que Stephen King faria?

Tudo bem, até aceito o fato de não ser o mestre do terror, mas ao lançar ao léu a despropositada indagação, ao passo de um singelo estralar de dedos, a antes claudicante trama passa a ser adornada por novas nuances, a irromper na mente como resultado de alguma bruxaria ou coisa do tipo.

Certa feita, durante um bate-papo deveras inspirador, duas perguntas acarrearam instantes de ruminação fulcral. Você praticamente venera alguns escritores, mas parece evitar a todo custo “copiar” o estilo deles. Certo? Nunca tinha analisado as coisas por esse prisma. Talvez eu me leve a sério demais para resumir minhas desventuras literárias à condição de reles simulacro, mesmo comprometendo o resultado final. No entanto, o experimento é um tanto mais complexo, acaba atrelado a uma segunda pergunta, até incessantemente respondida por outros autores mais gabaritados: por que o terror? Simplesmente por não ter outra escolha, embora não seja raro me ver enveredando por caminhos diferentes, às vezes mais líricos e melosos.

Essa falta de “escolha” acaba dissociando os textos produzidos das leituras cotidianas. Em quase letargia, agarro mais forte as cobertas enquanto a chuva espessa se choca contra a janela. Ao abrir os olhos, alguma coisa se revela, parece velar meu sono, sorrateira no breu. Se simplesmente me rendo ao temor e tento me ocultar em meio ao cobertor, os pés e tornozelos acabam desnudos, vulneráveis aos gadanhos capazes de desossá-los e gradativamente esgaçar todas as partes corpo, para seguidamente deixar reverberar um riso inclemente, retumbante.

A aparição cessa antes de berrar alto o bastante para despertar os mortos. Será que realmente se foi ou ocultou-se debaixo da cama? Não tenho coragem de olhar! O melhor a fazer é voltar a dormir e, se mais uma vez puder acordar, irei me ater a escrever. Narrar até poder ser o que me mantém vivo, mas o terror, o terror sim é a minha vida.

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IT

Foram sucessivas semanas dedicadas a desbravar as nuances de uma obra atemporal. Por longos anos preteri o desejo de encarar o maléfico Pennywise e suas mais de mil páginas. Até não haver mais como adiar esse momento, teria de enfrentar o maldito bufão a me aterrorizar desde a década de 90, quando Tim Curry, com performance emblemática, encarnou A Coisa na adaptação It – Uma Obra Prima do Medo.

It - A Coisa não desponta por acaso como um dos principais trabalhos de Stephen King. A narrativa rechaça o lugar comum, abdicando da possibilidade de meramente traçar a história de um assassino sobrenatural com cara pintada e roupas coloridas, embora essa perspectiva por si só já seja suficientemente tétrica.

O leitor é levado à fictícia Derry, em dois momentos distintos, separados por um intervalo de 27 anos, em 1958 quando Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly ainda eram crianças e em 1985, já adultos. Como já esperava, a trama é iniciada com o pequeno Georgie Denbrough trajando no dia tempestuoso sua imponente capa amarela, acompanhando o barquinho de papel parafinado singrando pelas águas pluviais. O irmão mais novo de Bill acabou tendo o infortúnio de ficar diante do aterrorizador Pennywise, que em grande estilo entrou em cena após imergir da escuridão, ostentando uma pletora de balões.

O assassinato da inocente criança desponta como o pano de fundo para iniciar de uma jornada épica, repleta de centelhas nostálgicas, desenvolvida ao mesmo tempo em que conjuga eventos após a morte de Georgie e na década de 80, quando a obra foi composta pelo mestre do terror. Com a alternância de períodos King consegue atribuir o caráter alinear à narrativa e sem pedir licença, remete ao leitor à condição de testemunha ocular de uma série de acontecimentos violentos, nos quais crianças e jovens desaparecem ou são trucidados por um homicida misterioso .

O conjunto de acontecimentos acarreta passagens verdadeiramente angustiantes, e esbanjando capacidade de suscitar reflexão sobre o mal por traz de Pennywise, um reflexo itinerante da natureza humana, hora capaz de ser mais pérfido e inclemente em relação à mal-ajambrada vilania. No fim das contas, It é um imenso bodoque e os elásticos presos sobre as extremidades impulsionam a munição, capaz de sobrepor à psique dos leitores para tornar praticamente inexequível o anseio de abortar a narrativa, capaz de reverberar para fora do calhamaço , e em eclosão encontra eterna morada no âmago dos leitores.

Um dia, seguramente, dedicarei outras semanas para reler a vultosa obra. Um novo encontro já está marcado e enquanto esse apoteótico momento não chega, espero até lá que o palhaço me visite algumas noites, assombrando meus piores pesadelos. Estarei esperando, vestido no temor e armado de muito, muito encanto.

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21 de janeiro de 2021

Picadeiro dos Sonhos

Já tive alguns pavorosos sonhos adornados por um palhaço deveras aterrorizante, formando uma experiência perturbadora a ponto de preterir irromper novamente nesses delírios. O arlequim a povoar meus insanos pesadelos é muito semelhante ao da foto dessa pintura de 1966 que coincidentemente (ou não?) pode estar na família da minha mãe há mais de cinco decênios.

A última vez que estive na casa dos meus avós foi em 1997 e não tenho qualquer lembrança desse quadro. Então, qual seria a razão dessa figura assombrar minha vida por tantos anos? Durante os sonhos, o palhaço se manifestava emulando uma dança sinistra, desengonçada, ensaiando falso carisma, até que as máscaras desmancham e o bufão, enfim, passa a ostentar um sorriso caliginoso, gadanhos cortantes brotam dos dedos, até, de maneira trôpega, dar os primeiros passos em minha direção, garantindo que não importa o quanto corresse, minha alma estava condenada a habitar os umbrais do inferno... .

Ou talvez tudo não passe de um relato virtuoso, ideado para chamar atenção. O que será pior: os palhaços maquiavélicos ou as pessoas que se aproveitam deles para fomentar o medo? Sem dúvida, os palhaços são muito, muito piores!

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20 de janeiro de 2021

Credo da remissão

Quando se tem nove anos de idade, é um tanto intimidador ficar diante daquele representante do Senhor, com sua sotaina branca, crucifixo opulento e um par de óculos estampando a face. Começava pedindo a reza do Pai Nosso, chegava a atropelar algumas palavras, mais por conta do nervosismo. Depois era a vez da Ave Maria, também nada capaz de representar um grande infortúnio. Os sobressaltos inquietantes eram tracejados no ato do terceiro desafio, quando o sacerdote postado a minha frente dizia: muito bem, agora o Credo!

- Creio em Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo seu único filho, nosso Senhor...

- E?

- Desculpa padre, vou recomeçar: Creio em Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo seu único filho, nosso Senhor...

O bom padre chegou a passar um verdadeiro sermão, sobre a importância de aprender o credo de cor e salteado. O filme se repetiu pelo menos outras duas vezes e como antes, lembrava apenas do começo e do trecho "desceu a mansão dos mortos" , isso era tão assustador, se tivesse de partir não ansiava descer àquela vultosa morada.

- Se você não souber recitar o Credo de cor, não poderá fazer primeira comunhão – disparou o padre. Lembro-me de relatar o episódio para algumas pessoas, ficaram horrorizadas com a exigência. No fim, acabei me sagrando campeão daquela “queda de braço”, porque fiz a primeira comunhão e não aprendi o tal Credo . Para dizer a verdade, nunca tive orgulho disso, era como triunfar sem benemerência, prevalecendo um impertinente gosto de malogro.

Tantos anos depois, em tempos tão difíceis impostos pela pandemia do novo Coronavírus, as pessoas sentem a necessidade de se apegar a alguma coisa, sendo marcado um reencontro com o Credo e dessa vez acabei assimilando toda a oração, como era esperado pelo padre há quase três decênios. Talvez estivesse certo quem dizia: antes tarde do que nunca! Enfim, agora pareço poder comemorar os êxitos de minha primeira comunhão e até consigo idear o semblante de contentamento do velho sacerdote.

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10 de julho de 2020

O amaro preço da mentira

“Meu último anseio, sentir o doce do seu beijo, sob a anuência dos feixes da luna mais rotunda”. Beijo é um ato animalesco, talvez impulsionado por forças tão intempestivas quanto incógnitas e, pelo jeito, quanto mais se recorre aos ósculos, mais ainda se parece imergir em um campo inexplorado. Se até Jesus Cristo se viu traído por um afável toque de bochecha, por parte de Judas com a boca, não é muito difícil testificar homens (e até mulheres) recorrendo à mentira em detrimento do prêmio: meia dúzia de ardentes osculações.

Longe de querer evocar o estilo santarrão ou promover um estamento ideológico a respeito de atos dessa espécie, mas confesso sempre ter nutrido repugnância por pessoas capazes de recorrer a métodos tão banais para concretizar seus anseios. Aquela velha história, baseada na premissa: definitivamente os fins não justificam os meios, afinal, meios ruins acarretam em fins ainda piores... Até um dia me descortinar, articulando estratagemas ascorosos para ser agraciado pelo méleo beijo da menina mais bonita!

Isso aconteceu no final da década de 90, no período de meio do ano, marcado pelas festas juninas. Acompanhado por alguns amigos, subimos em um ônibus com destino a uma cidade interiorana, jovens ansiosos, prontos para desfrutar do melhor que a noite pudesse oferecer. A cidade estava vestida para a festividade, fogueiras adornavam a fachada das casas, o cheiro de milho cozido se misturava as lufadas do vento, ensandecido, tentando extirpar as bandeirinhas de São João a formarem uma tenra cobertura, capaz de manter secos os corpos dançantes diante da garoa.

À medida que a festa decorria no ritmado sonido da sanfona, em invulgar harmonia com seus íntimos triângulo, sanfona, zabumba e pandeiro, meu grupo foi dizimado em subgrupos, até me ver sozinho na festa, mexendo meu corpo de forma canhestra e tendo meia lata de Coca-Cola como a melhor companheira de dança da noite. Mal sabia, o melhor estava por vir, em forma de uma estonteante morena de negros cabelos ondulados, pernas pomposas devidamente tracejadas no jeans justo e cintado, com uma encurtada blusa quadriculada, deixando parte do abdômen a mostra, além do vestiário típico ser completado pelas botas de salto alto, apetrecho final para a galhardia.

As maçãs do rosto eram salientes de ternura. Seus negros cabelos cacheados despontavam como a moldura para um rosto perfeito, alindado por um olhar penetrante, capaz de suscitar uma airosa vertigem. Lutava para não permitir que os participantes da festa formassem uma parede, ocultando a poética visão: a garota inominada compassadamente dentando uma espiga de milho. Enquanto a fitava, tentando não me deixar notar, nossos olhares subitamente cruzaram, e assim permanecemos, até a exuberante figura desviar o rosto, seguindo até o lixo onde depositaria o sabugo do cereal.

Outra garota, possivelmente as duas estavam juntas na festa, seguiu até ela e pelo gesto, estava sugerindo partirem para outro lugar. Antes, minha nova musa mais uma vez me ofereceu um olhar, juro até ter avistado um singelo sorriso e logo desapareceram, embrenhadas na multidão. Vai logo atrás dela, deixa de ser tão tépido! Seria a decisão mais acertada, mas ao invés disso, apanhei mais uma lata de refrigerante e segui para um ponto menos povoado, contemplando a lua no compasso cadente do xote, xaxado e baião.

- Apostaria que você não é daqui e também não gosta muito de dançar! – Talvez meus olhos estivessem me pregando uma peça, quem sabe estivessem sucumbindo a minha imaginação delirante: a voz invadindo meus ouvidos era mesmo dela. Antes de festejar o presente concedido pelo cupido espírito dos sanfoneiros, pude absorver o iminente conflito. Caso admitisse ser apenas um visitante, minhas chances com a bela morena seriam ínfimas, reduzidas a zero.

- A propósito, eu me chamo Bárbara! – Após me apresentar, tocando sua mão com leveza e encostando meus lábios, molhados de Coca-Cola, em cada lado das perfumadas bochechas, pude ensaiar uma mentirosa solução.

- Sou novo na cidade! Meu pai foi transferido para a agência bancária da praça lá atrás. Ainda não conheço ninguém, além de você, claro! – Nos aproximamos um pouco mais da festa, permanecendo longe o bastante para que pudéssemos papear um pouco, compartilhar nossas agruras. Depois, arriscamos alguns passos de dança e de tão polida, em momento algum transpareceu irritação com minha desengonçada habilidade para conduzi-la. Quando a chuva nos atingiu com maior rigor, Bárbara sorveu o restante de Coca-Cola. Pelo olhar, estava certo de transparecer vontade de encarar seus lábios macios, um beijo resfolegante, marcado pela aceleração da frequência cardíaca. Por um segundo, tentou evitar, talvez me dissuadir alegando não gostar “muito de ficar”.

- Podemos namorar se você quiser! – Então a trouxe depressa pra mim, não podia mais esperar. Dessa vez, Bárbara não oferecia resistência, foram ósculos prolongados, com gosto de “”coca”, como queria ter arrancado uma daquelas bandeiras, testemunha fulcral do momento. Meus lábios, com suavidade, deslizavam pelo seu pescoço, sentindo seus cabelos sedosos emanarem um atordoante cheiro de mato verde, as suas bochechas rosadinhas, o queixo modelado com singular esmero.

Antes do fim da festa, Bárbara disse que precisava ir e pediu para encontrá-la mais tarde na praça, pouco antes da hora do almoço. – De repente, você pode conhecer seus sogros, ainda hoje. Só preciso ver como estará o clima! Tudo bem pra você?

- Claro que sim. Estarei lá, já contando as horas, minutos, segundos... – Como queria estralar os dedos e tornar verdade aquelas famigeradas mentiras. – Você podia me passar o número do seu telefone?

- Mais tarde, na praça! – E depois nossos lábios toparam pela última vez. Horas depois, minha boca experimentava o amaro saibo do remorso. Na estrada, seguindo para casa, podia imaginar Bárbara me esperando no banco da praça, enquanto já estaria repousando na minha cama, em outra cidade.

Há situações que indubitavelmente nos leva para o lado negro e é ainda pior quando temos plena consciência disso. Os cabelos dela tinham um saboroso cheiro de mato. Tantos anos depois, quando caminho por um parque, com a mata regada pela chuva, sou invadido por aquele cheiro inebriante, sendo impossível não rememorar nossos tenros momentos. Possivelmente, Bárbara já olvidou minha existência, mas eu ainda me lembro dela, dos abrasados beijos afanados e do insipiente gosto de Coca-Cola.

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4 de julho de 2020

Andando com os mortos

Os mortos podem vir nos visitar à noite, seja para assombrar ou apenas matar a saudade, um pouco! Se por um lado jamais desacreditei nessa premissa, também não podia atestar sua veracidade, isso até uma madrugada qualquer. Mais invulgar ainda, foi experimentar os sonhos oferecendo a possibilidade de interatuar com uma pessoa morta, tendo como atenuante o fato de, pelo menos naquele mero instante, haver regressado a vida. E quando essa noção resplandece durante o delírio e simplesmente não conseguimos....

... Tudo começou ao ver-me trabalhando em uma espécie de revista, participando de algo semelhante a uma reunião de pauta. A atividade parecia ter se prolongado, o céu estava bem escuro quando foi encerrada. Lembro-me de levantar, pretendia seguir para casa, até ficar diante de uma colega de trabalho, velha amiga de infância, irei chamá-la de Brenda.

- Rafinha, a reunião rendeu, em? – Foi mais ou menos o começo da conversa, transparecendo ter passado um longo período desde nosso último contato. Recordo, sem segundas intenções, ter me oferecido para acompanhá-la até em casa, nunca se sabe os perigos aos quais uma mulher se submete, caminhando sozinha pela rua.

Sem pestanejar, Brenda aceitou a oferta após perguntar se desviar um pouco meu caminho não traria qualquer prejuízo. Ledo engano, como permaneci longo tempo sentado, ansiava mesmo por caminhar alguns quilômetros, em boa companhia, degustar um dedinho de prosa. Afinal, nem sempre a vida reservava essas possibilidades.

Não consigo rememorar, com precisão, o conteúdo dos assuntos. Tudo decorria meio fragmentado, vindo à tona somente alguns lampejos da prosa, passando pelas peripécias no colégio, o período de faculdade e, claro, a expectativa com o novo emprego. Os mistérios passaram, então, a tomar contornos mais tracejados, não chegávamos ao destino ou Brenda, como se fosse possível, já não sabia mais onde morava.

Seguimos como dois errantes, rindo a vagar sem destino, até subitamente uma reminiscência sobrepujou a alegria, acalentando sobressaltos inquietantes: Brenda estava morta! Agora amentava bem o triste acontecimento, um episódio inusitado, realmente marcado por certa estranheza, bem do tipo que se leva uma vida inteira para conceber. O baque foi tão intenso a ponto de me deixar estático, assistindo a falecida vagante permanecer tagarelando, inteiramente alheia ao meu conflito.

- Brenda, eu preciso te dizer uma coisa...

- O que? Pode falar!

Brenda, amiga, você morreu, faleceu há algum tempo, cerca de um ano. Eu tenho certeza! Como pode estar aqui, ao meu lado, andejando? Ansiava por fazer esses questionamentos, no entanto, as palavras se amotinaram desobedientes. Talvez também estivesse morto. Poderia aquela ser alguma maldita realidade paralela? Estaria minha mente sintonizada em alguma existência oculta? Em alguma fenda no canto do universo remoto, Brenda e eu seríamos colegas de trabalho?

De tanto caminhar, sem explicação, acabamos chegando à entrada do condomínio onde moro. O destino não deveria ser a minha casa, embora tenha sido lá que chegamos. Brenda perguntou se podia subir, queria um pouco d’água. No elevador, tentei novamente colocá-la a par dos fatídicos acontecimentos, envolvendo sua existência interrompida, e as malditas palavras insistiam em permanecer recônditas. Na cozinha, Brenda sorveu a água com volúpia e disse que seguiria só.

- Chegamos até aqui. Faço questão de...

- Não precisa. Você foi muito generoso. Deve estar...

- Eu faço questão! Não quer sentar um pouco, caminhamos tanto!

- Eu bem que gostaria. Preciso voltar, desculpe, não tenho muito tempo!

E assim retornamos, a iminência de uma nova caminhada. Novas tentativas de transportá-la a dura realidade seriam postas em práticas, só não ideava mais o triunfo, a revelação parecia fincada sob as garras do anonimato. Já na portaria do prédio, dei por falta do meu celular.

- Brenda, acho que esqueci o meu telefone! Vamos subir, preciso...

- Desculpa, eu não tenho mais tempo.

Por um mísero segundo, dei-lhe as costas. Quando voltei para fitá-la, argumentando que levaria no máximo cinco minutos, minha amiga havia desaparecido, quem sabe regressado ao mundo dos mortos. Não me daria por vencido tão fácil, Brenda estava ali, há míseros segundos. Retornei para falar com o porteiro.

- Você viu a menina que estava aqui comigo, agora!

- Boa noite, Rafael!

Educação é importante, mas o bom homem aparentemente não captou minha agonia. – Você viu pra que direção foi a moça, que estava comigo?

- Moça?

- Sim, a que subiu e desceu comigo, bem agora!

- Rafael, você chegou e desceu sozinho. Está acontecendo alguma coisa com você?

Lembro-me ter regressado à rua e não vislumbrei qualquer pista do paradeiro dela. Antes de despertar, pensei na razão de Brenda repetir sucessivamente: eu não tenho muito tempo. Apesar das chances, por que algo ou alguma coisa me impedia de revelar sua morte? Antes de despertar, em meu íntimo, despedi-me mais uma vez de Brenda e agradeci por ter proporcionado uma última e singela lembrança!

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29 de junho de 2020

Estrada dos sonhos

A felicidade não vive nas sinuosas curvas da estrada. O asfalto é a própria felicidade, oferece a possibilidade de fitar as nuances do mundo pela metade do pára-brisa, além de vislumbrar a ultrajante risca tracejada, marcando infinitamente o centro da via. O sonho, o sonho será sempre a melhor estrada!

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Personagem das sombras

O ambiente aberto parecia irrompido por um véu negro. Seja a um metro de distância ou no máximo permitido aos olhos chegarem: era apenas consentido fitar a escuridão, não existindo sequer uma fagulha de lume para incitar a formação da penumbra. Não despontavam obstáculos para refrear o caminhar a passos largos, ou correr impelido pelo medo. Não havia nada, o manto preto talvez tivesse drenado tudo, como se no fim das contas, não tivesse saído do mesmo lugar, tudo persistia apagado. Era impossível descortinar o cenário umbrático, desarvorar o breu enigmático.

Logo, linhas disformes passaram a estampar a escuridade. Formas e traços não chegavam a atingir nitidez, mas vinham carregados pela certeza de haver, sim, algo ali. Podia ser imaginação ou mesmo alguma espécie de poluição visual, até que um riso pavoroso, emergido da figura desmedida, inundou os ouvidos. Diante das trevas, é impossível debelar a escuridão, inútil lutar para se desvencilhar dela.

O gargalhar tornava-se mais estridente à medida que se aproximava, vogando morosamente em minha direção. Pelos contornos tracejados, as carrancudas maçãs do rosto eram bem salientes, adornadas pelas órbitas carcomidas, mais escuras se comparadas com o negro véu. Era uma figura morta, exibindo um semblante um tanto pávido, pelo rosto quase por completo desprendido do crânio, emoldurado por brancas mechas de cabelos esvoaçantes.

- Seria capaz de escalar até as mais elevadas masmorras do inferno para te pegar - asseverou a bruxa, uma voz compassada, marcada pelo timbre tíbio e perturbante.

- O que você quer afinal? – Indaguei, em sobressaltos inquietantes.

- Enfim, perguntou! Me retrate em uma de suas histórias. Ou irei te assombrar, voltarei para encomendar sua alma! – De maneira paulatina, a voz foi ecoando, a luminosidade passou a transfixar o véu, refletindo diante de meus olhos o começo de um novo dia.

Sem hesitar, ative-me logo a escrever para manter distante a assombração. Dará certo, afinal? Por enquanto, sim. Talvez... Apenas por enquanto!

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7 de junho de 2020

Falsas Verdades

É possível que muitas boas histórias tenham tido supermercados como pano de fundo, e infelizmente, todas essas tramas testemunhadas por latas, invólucros, garrafas, frutas, eletrodomésticos, tenham se perdido no tempo ou encontrado morada em algum espaço obtuso, uma espécie de cemitério das histórias perdidas. E naquela não tão lépida noite de sábado, mais uma trama intriguista estava prestes a se desenrolar e, assim como outras tantas, fadadas a recamar os limbos.

Tom acabara de romper as soleiras da porta de vidro eletrônica, empurrando vagamente o carrinho metálico, já achando inconveniente o sonido proveniente da má lubrificação das rodas. Enquanto caminhava pela fileira de caixas, a caminho dos corredores onde eram ofertados os produtos, tentou a todo custo não fitar os tributos de uma bela jovem, ligeiramente curvada, trajando um modelo de saia jeans capaz de valorizar as exuberantes pernas avantajadas.

Por um momento, a mente remeteria a imagem da ex-mulher. Nos primeiros anos de namoro, saias faziam bem parte de seu vestiário, exibindo pernas muito mais bonitas. Conseguiu, felizmente, afugentar a tempo o suvenir da mente, antes que efetivamente pudesse passar a povoar seus pensamentos de maneira inconveniente. Procurou pensar como a loja estava vazia naquele dia, com meia dúzia de gatos pingados na sempre disputada seção de eletrodomésticos, além de haver alguns jovens discutindo qual marca de vodca levariam para um luau a beira da praia. Garotos imberbes, de mãos dadas com essas espevitadas garotas de cabelos pintados, brincos, piercings, shorts justos ou saias encouradas. Todos ansiosos pelo melhor da noite, um mundo de descobertas que ainda estava por vir. Ainda me lembro, eu e meus inseparáveis amigos, nessa idade, definitivamente não fazíamos nada disso.

As queixas demoraram um pouco mais a cessar em seu íntimo. Sem se deixar notar, como uma sombra assombrando o grupo infanto-juvenil, Tom apanhou duas garrafas de seu vinho favorito e após breve conflito de incerteza, retornou para pegar uma terceira garrafa. Sem perceber, todos os seus passos vinham sendo observados por um olhar atento e não era pelas dúzias de lentes vitrificadas, verbalmente reclamando por um sorriso. Tom chegou a passar próximo à mulher, astuta o bastante para se esconder atrás de um amontoado de refrigerantes em promoção, mas por sorte, pelo menos naquela noite, demonstrava predileção por vinhos, latas de cerveja e energético, seguindo agora em direção ao setor de congelados. Possivelmente, de lá iria incursionar pelos laticínios, padaria... Era tempo o bastante para permanecer no anonimato, passar no corredor de sucos e seguir para o caixa.

Menos de dois minutos depois, a mulher, antes a observar os passos de Tom, carregando na mão direita a cesta cheia de mantimentos, movia-se apressadamente até o último caixa de atendimento, bem próximo a saída. Apenas poucos metros a separava do guichê, só que antes mesmo de celebrar a vitória, o alvo da fugitiva, distraído, saiu de um corredor e por pouco não a atingiu, acidentalmente, com o carrinho.

- Sofia, você por aqui, essa hora da noite?
- Tomas, que surpresa! – Respondeu, esforçando-se ao máximo para realmente ensaiar um ar de surpresa. – Não esperava encontrar você por aqui, afinal o apartamento que alugou fica há uns cinco quilômetros daqui. Algum problema com os mercadinhos daquela região? – brincou Sofia, tentando disfarçar a respiração ofegante, afinal o ex-marido não precisava descobrir que estava fugindo dele.

- Fomos casados tempo suficiente para você me chamar de Tom. Na verdade, Sofia, eu não estava em casa. Minha namorada, a Melissa, mora aqui bem próximo. Nós combinamos passar a noite tomando um bom vinho, assistindo Netflix, com direito a pão de alho, como pode ver e se a fome bater mais forte, um macarrão a bolonhesa – respondeu Tom, utilizado seu peculiar tom de ostentação.

- Vendo todas essas coisas, logo pensei que estava com uma larica daquelas. Bem Tom, foi bom te...

- Espera, eu conheço bem esse vestido! Lembro que há anos gastei metade do meu salário com ele. Mas, até o momento em que éramos casados, lembro bem que ele não cabia mais em você. O divórcio parece ter lhe feito muito bem – Tom tratou de sutilmente – talvez nem tanto assim – devolver a provocação inicial, afinal tinha direito de ir e vir com seu belo possante, um dos poucos bens destinados a ele no pós-separação. Logo, a ex sugeriria ter ido aquele mercado apenas com esperança de reencontrá-la.

- Realmente eu perdi alguns quilos, estou me sentindo mais bonita do que nunca. Você também me parece bem, só acho que sua nova mulher poderia cozinhar pra você algo mais apropriado para um sábado à noite, porque macarrão a bolonhesa, em? Você foi melhor acostumado.

- Você estaria certa se...

- Após todo esse tempo de divórcio, jamais pensei que viveria pra ver você me dar razão.

Tom não escondia certo cinismo em seu riso. - É porque, na verdade, eu que pretendo cozinhar pra ela. Melissa é uma pessoa muito simples, adora macarrão a bolonhesa. Já você, por favor, não me leve a mal, sei que já não tenho nada mais a ver com sua vida. Mas, não precisava se pintar toda e usar um vestido lindo e tão caro como esse para, para, fazer compras.

- Não sei se deveria dizer nada, mas apenas vim comprar umas coisinhas para o almoço de amanhã. A propósito, quando você entrou, Tomas, ou melhor, Tom, percebeu aquela SUV importada, de cor laranja, estacionada ali na porta?
- Sim, vi sim!

- É o carro do meu namorado e nós estamos indo pra uma festa agora. Uma pena ter recebido um telefonema assim que chegamos, era uma reunião de negócios, os executivos são sempre muito ocupados. A ligação impossibilitou de estar aqui, comigo, agora. Adoraria apresentá-los. Talvez outro dia, não é mesmo?

- Bom Sofia, não quero atrasar você e seu namorado, vocês devem ter muitas coisas para executar. O caixa está vazio, pode seguir...

- Na verdade, lembrei que preciso pegar mais algumas coisas, você sabe como sou esquecida. É melhor não deixar a Melissa esperando, certo?

Tom hesitou no começo, mas acabou não resistindo a entregar a Sofia um abraço de despedida. Por um instante, os rostos se tocaram e cada um se viu abstraído pela vastidão do olhar do outro. Se a incerteza, somada a excitante sensação do proibido e principalmente o remorso, não tivesse sobrepujado o desejo, o supermercado e suas câmeras de segurança testemunhariam uma luta travada entre lábios deveras abrasados.

Com as sacolas na mão, Tom de cabeça baixa cruzou a SUV laranja, sem olhar para o lado por um segundo sequer. Minutos depois, foi a vez de Sofia também deixar a loja. Curiosamente, passou pelo carro importado como se não o conhecesse e, honestamente, ela realmente não parecia estar mentindo. Posicionou as compras no banco traseiro do carro popular financiado e retornou para o antigo lar do casal, repleto de lembranças, retirando o vestido e jogando água contra o rosto para remover a maquiagem.

Quase simultaneamente, Tom chegou ao seu apartamento alugado e sequer tentou imaginar uma Melissa sedenta por vinho e macarrão a bolonhesa, preferindo rememorar os tempos de casado, enquanto maratonava uma série qualquer da Netflix e sorvia algumas taças de vinho. Certo momento, os dois se renderam ao sono, sem descortinar os desejos recônditos, afinal casamentos podem chegar ao fim, mas as mentiras que rodeiam certos casais, essas sim são fadadas a perdurar por longo período, quiçá para sempre.

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11 de maio de 2020

Seios e coca-cola

Pelo corredor estreito, a bela se movia lascivamente. Nas mãos, sustentava latas de meu refrigerante predileto, acondicionadas em um balde paramentado por gelo. Descamisada, enquanto fitava o rotundo par de seios desnudos, orbitando meus ressequidos lábios, fiquei admirado ao perceber seu reflexo turvo bruxuleando a vermelhidão enlatada.

Sem mais delongas, impelido pelo êxtase da sofreguidão, não hesitei em avançar, chegando a esgar pela imersão do prazer... Juro ter sorvido cada milimétrica gota daquela deleitosa coca-cola.

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Suicídio Ocasional

“Os sonhos eram mais variados do que podia recordar, mas o desfecho, esse era sempre igual. Subitamente me via despencando do topo de um arranha céu, cada segundo cruzando com diferentes pessoas, no interior do prédio, diretas do seu andar, compenetradas no trabalho a ponto de, sequer, observar minha condição. Meu corpo se aproximava do solo com incrível celeridade. Cada milésimo de segundo testemunhava a vida sendo gradativamente drenada e quando enfim contemplaria a finitude da existência, despertava antes do choque , totalmente ileso.”

Seu nome era João de Santo Cristo. Qualquer semelhança com o personagem chave da música Faroeste Caboclo , da Legião Urbana, não era fruto do mero acaso, afinal a banda liderada por Renato Russo despontava como a favorita de sua mãe, uma eterna entusiasta da Turma da Colina e do rock nacional anos 80.

João de Santo Cristo gastava horas tentando decifrar o enigma por trás do excêntrico devaneio, todas as noites insistindo em profanar seu descanso. Talvez, a cena incessantemente reprisada, tivesse alguma relação com seu ofício de zelador. Ao contrário da ilusão projetada pelo inconsciente, não mantinha vínculo profissional com um suntuoso prédio, repleto de vidraças espelhadas, abrigando verdadeiras sumidades do ramo jurídico ou do mercado financeiro.

O Santo Cristo trabalhava em um prédio mais mirrado, um antiquado empreendimento de cinco andares, servido de residência para dezenas de famílias classe média. Esse aspecto fazia toda dubiez despertar sobressaltos inquietantes: se jamais trabalhara (quiçá sequer havia entrado) em uma edificação suspensa e ornada por caixilho com vidros, os sonhos não poderiam mesmo representar uma situação de iminente perigo. Para assepsiar as poucas vidraças sob sua responsabilidade, não precisava arriscar a pele com elevadores externos, plataformas aéreas e tampouco recorrer a técnicas verticais de rapel.

Quem sabe até, aquela queda não pudesse representar uma inanição cognitiva, uma sugestão intrinsecamente fulcral para proporcionar uma fuga, abortando a realidade fatídica. Nem sempre as pessoas conseguem se tornar aquilo que queriam ser quando crescessem e, dessa vez, o Santo Cristo não hesitaria em cumprir sua sina, livrando-se de toda sofreguidão vital.

Um disparo certeiro na cabeça ou uma corda amarrada sobre o pescoço? Conforme o desvaio sugeria, precisava saltar para alcançar a liberdade. Para, então, concretizar seu anseio, ocupou o corredor do quinto e último andar do residencial. Em frente à moldura, ouvia os gemidos das lufadas de vento ainda esvoaçando seus finos cabelos compridos. O zelador utilizou um banco para, em segurança, montar no peitoril da janela. Tudo precisava ser devidamente ensaiado, pensou, especialmente para parecer um acidente. Estava pronto para morrer, ainda assim rechaçava comentários do tipo, “a depressão o matou”, “o Santo Cristo se entregou, não foi forte o bastante”, “agora ele irá pro inferno”. Preferia mesmo suscitar a piedade coletiva e talvez seu jogo de cena pudesse ludibriar o Criador.

Com um pano posicionado na mão direita e um produto do tipo “limpa vidros” na outra, seus pés propositalmente deslizavam sobre a travessa inferior dos marcos das janelas. – Estou perdendo o equilíbrio, alguém me ajude, acho que vou cair – esgoelava, mais um teatro barato, necessário para tornar a mentira convincente.

O pesadelo agora era real. De olhos fechados, o Santo Cristo sentia a força da gravidade sorver seu corpo para baixo. Em questão de segundos, enfim, estaria livre, não havendo tanto tempo, como em seus devaneios, para serenar com a morte... uma morte que como nos pesadelos, na realidade por detalhes, não aconteceu!

Tudo por causa do famigerado vizinho do primeiro andar acima do térreo, que prevendo a possibilidade de alguém tentar ceifar a vida nos próximos dias, expurgando sua existência do mundo, mudou toda estrutura do toldo, novo o bastante para atenuar a queda. Embora a lona não tenha se esgarçado por completo, a estrutura metálica cedeu diante do peso multiplicado, fazendo o Santo Cristo rolar por alguns centímetros até seu corpo ser projetado sobre o teto de um carro antigo, estacionado em frente ao prédio.

Essa é a triste sina de João de Santo Cristo, sendo-lhe outorgada a vida que ele já não queria mais. Ao menos aqueles sonhos, reais o bastante para desencadear pensamentos suicidas ocasionais, jamais voltaram a perturbar seu repouso. Uma mentira egoica, contada diversas vezes, pode levar todos (ou quase) a rememorar o final feliz de um acidente com elementos suficientes o bastante para um desfecho trágico. Quando se trata do passado umbroso, todo mundo manipula os acontecimentos, evocando a ficção.

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9 de abril de 2020

A sombra que me persegue


Esse não é um texto literário, devendo ser concebido como um intrínseco relato acerca de uma aparição fantasmagórica. Aquele não era um espectro qualquer, parecia um tanto aturdido, como se os devaneios suscitados por sua iminente presença também o tivessem alvejado, resultando agora em um fantasma assombrado pela própria condição espectral.

Havia uma canção, serenamente previa uma verdade: “todo mundo esperava (mesmo) alguma coisa de um sábado à noite”, desde baladas com música alta, bebedeira e bastante “pegação”. Há quem recorra a opções mais privativas, como um churrasco entre amigos, uma pizza suculenta ou quem sabe a melhor pedida não possa ser um passeio com a mulher amada sob a anuência da lua.

Naquela noite, minha noiva e eu preterimos todas essas alternativas, elegendo o cinema como nossa fuga da realidade, ainda mais atrativa porque as telonas não exibiriam uma produção qualquer, como filmes no melhor estilo “água com açúcar”, regados à tragédia e beijos arfantes ou mesmo aqueles que abdicam do bom roteiro para apostar em enlevadas cenas de ação. A escolha não poderia ser outra senão um bom longa-metragem de terror, bem daqueles repletos de sangue, vingança, situações inverossímeis, conjugando o melhor possível a se esperar nas últimas horas de um sábado.

Antes de ocuparmos a sala, paramos para garantir pipoca e refrigerante, um verdadeiro assalto capaz de despertar até arrependimento pela ideia de deixar o sacrossanto lar. Quando o pavoroso filme – no melhor sentido possível - já estava lá pela metade, voltei a amaldiçoar o oneroso copo de refrigerante, além de me deixar alguns reais mais pobre, ainda despertava a correr para o banheiro antes dos créditos finais saltarem as telas.

Por sorte, o popular WC ficava anexo à sala, há menos de cinquenta metros do assento ocupado por nós. A vontade de descarregar era vertiginosa a ponto de me fazer abdicar de uma cabine sanitária, recorrendo ao urinol, bem menos reservado. Estava já quase liberto do incômodo e pude perceber que meus ouvidos vinham sendo invadidos por estranhas sucessões de palavras, todas aparentemente sem nexo algum.

As frases ilógicas eram golfadas por um jovem, posicionado na outra extremidade do banheiro, postado à frente do mictório, totalmente impassível. Parecia uma assombração rija, entorpecida por alguma substância, com apenas a boca se movendo, vertendo incongruências, como se tivesse, se tivesse... sem explicação.

- Os protozoários são os seres mais avançados da humanidade.

- As pontas de plástico, no começo e final dos cadarços de sapatos, foram criadas para atender a um propósito maquiavélico. – Nesse instante notei a existência de um terceiro elemento, disposto entre mim e o excêntrico garoto no final do cômodo sanitário. A situação tomou contornos ainda mais apavorantes, quando esse rapaz abandonou o banheiro de forma totalmente autêntica, como se não estivesse testemunhando o invulgar comportamento do estranho, magro e de negros cabelos crespos e curtos, trajando camisa polo estampada e calça jeans. Seu olhar afastado contemplava a parede, tornando impossível, para mim, observar suas feições. Teria ele as órbitas carcomidas, realçando os olhos cerrados, acarminados como um mar de larvas vulcânicas?

Ao mesmo tempo em que me recompunha, voltei a refletir sobre o terceiro elemento. Talvez, ignorasse aquela estranha figura pelo simples fato de que aos seus olhos não havia ninguém ali, além de mim, claro. Não estava diante de algo vivo, mas sim de uma aparição sobrenatural, a se tornar visível somente diante dos meus olhos. Por que eu? O que diabos queria de mim? Iria acompanhar meus passos pelo resto da vida? Vestido no meu medo e possivelmente com os cabelos esvoaçantes, deixei o banheiro sem olhar para traz e também sem lavar as mãos. Mas o fantasma permanecia lá, até o ouvi bradar delírios do quilate:

- Jesus Cristo não se sacrificou pelos seus irmãos. Queria apenas impressionar o pai da garota que amava.

- No fim, a garota que Jesus Cristo amava se casou com seu maior desafeto.

Com minha noiva novamente entre meus braços, até tentei voltar a prestar atenção na trama fílmica, mas o verdadeiro horror a embalar minha agonia esteve dentro daquele fétido sanitário. Não demorei a rememorar a história de um adolescente, com características físicas parecidas com a dele. Reza a lenda que tinha ceifado a própria vida no banheiro daquele cinema, só não lembrava ao certo se foi através da ingestão de veneno ou teria posicionado a arma e apertado o gatilho contra a cabeça.
Os créditos subiam, indicando o final do filme. Talvez a produção pudesse ter configurado uma experiência deveras satisfatória, mas não pude acompanhar o suficiente para opinar. Felizmente, era chegada a hora de retornar ao lar e ficar bem longe do cinema pelos próximos sábados. No entanto, por infortúnio do destino, o dispendioso refrigerante protagonizava mais uma forçosa visita ao assombrado e mal cheiroso toalete masculino.

A súbita vontade fisiológica talvez fosse o oportuno momento para comprovar que a estranha aparição teria sido apenas coincidência ou um espasmo fantasmagórico. Aquela altura estaria se atendo a assombrar outra freguesia, andarilhar novas moradas, bem longe de mim, daquele cinema e também do shopping.

Foi exatamente o que constatei ao entrar no banheiro. Por via das dúvidas, voltei a ignorar as cabines sanitárias, recorrendo pela segunda vez a um dos muitos mictórios instalados. O alívio não durou muito, sendo surpreendido novamente pela insólita alma errante, surgindo de uma das cabines que antes parecia vazia.

- Todos os segredos devem permanecer sempre escondidos.

- Filmes de terror fazem parte de um experimento verdadeiramente sinistro – tagarelou, passando por trás de mim, aparentemente flutuando em direção à porta. Não demorei também para sair em disparada, sendo interceptado por minha noiva, que estava me aguardando próximo à entrada do banheiro.

- Algum problema, Armando? Até parece que viu um fantasma? - Indagou percebendo algo estranho no ar, afinal era evidente estar um tanto pasmado.
- Mariane, por acaso você avistou um rapaz esquisito, bem magrinho, saindo por essa entrada do banheiro, há no máximo uns dois minutos?
- Não vi ninguém sair daqui, além de você, claro. Por quê?

- Vamos cair logo fora daqui. – Aquela deveria ter sido minha resposta, mas diante do epicentro da tormenta, percebendo que estava mesmo ante uma aparição sobrenatural, apenas me ative a caminhar até a saída do shopping, cruzando o empreendimento deserto, a iluminação rarefeita, talvez espraiado por verdadeira horda de seres das sombras.

Do lado de fora, na fachada do shopping, uma chuvarada incessante atingia a região, postergando a ânsia de me deslocar até o carro, para assim dar logo o fora daquele lugar. Talvez precisasse tentar evocar o lado bom da coisa, possuía uma bela história para narrar aos amigos. Quem sabe reuniria nos próximos dias um grupo de desocupados para caçar a tal assombração, devolvendo as trevas aquele expurgo... Enquanto a chuva insistia em não cessar, narrei os fatos a minha noiva, deixando-a um tanto atônita com os acontecimentos. Antes de poder tecer qualquer opinião, assistimos a porta magnética novamente se abrir e de lá emergiu aquela assombração de camisa polo e calça jeans. A entrada triunfal me pasmou menos do que o semblante natural, ausente do antes ideado, olhos vulcânicos e órbita minada, apenas caminhando compassadamente até um táxi parado na porta do shopping. (Jesus Cristo não se sacrificou pelos seus irmãos, apenas queria impressionar o pai da garota que amava.)

- Mariane, diga pra mim: por acaso está vendo aquele cara ali, entrando no carro...

- Claro que sim, por que não estaria! – A resposta colocou ponto final ao mistério. Aquele jovem poderia ser muitas coisas, mas não estava diante de uma assombração e se não fosse aquela noite tempestuosa, essa dúvida permearia por muito tempo, quiçá para sempre. ( Filmes de terror fazem parte de um experimento sinistro.)

No fim, esse poderá continuar não sendo um texto literário e tampouco será concebido como um intrínseco relato acerca de uma aparição fantasmagórica.

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Noite de Halloween


É noite de Halloween.
Somos os olhos da escuridão.
Seres das sombras vagueiam,
asas de morcegos adornam
os jazigos no chão.
Onde repousam inertes,
fantasmas da solidão.

Céu estrelado com teias de aranha
A luz da lua, ofuscada pelas lanternas de abóboras,
que iluminam o caminho por onde passam,
Os funestos seres das trevas.
Esqueletos saltam dos túmulos,
assistem a dança das almas errantes,
em homenagem ao dia das bruxas.

Escondida na floresta, a casa assombrada,
misteriosa, prepara uma festa em honra aos mortos.
Apenas nesse dia, eles podem se misturar com os vivos e...
Quem sabe nunca mais voltar.

Só depois que a lua adormece
o encanto acaba e
o sol novamente acontece.

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22 de agosto de 2019

Lua de fel

Parte de uma trama sórdida traçada pelo destino, os recém-unidos em matrimônio teriam a primeira noite, juntos, sob a anuência do plenilúnio. O deleite pela nudez do momento contrastava com a pureza simbólica do vestido branco, esgarçado pela volúpia, cedendo lugar a qualquer vestígio romanesco, afinal as mostras de sentimentalismo foram exaustivamente encenadas nos longilíneos cinco anos divididos entre o flerte, compromisso, noivado e a enfim chegada do casório.

Queriam mais agora se render ao pecado carnal, teriam outros dias, a sós, para declamar poemas, tecer planos para o futuro, lamentar não terem durante aquela meia década se rendido antes à lascividade. Desnudos, apenas o semblante pervertido do recém-marido, entorpecido diante dos seios avantajados da ruiva, era o bastante para despertar sua excitação. Estacado sobre a cama, também fitava outros tributos do corpo de sua Senhora, seduzido até a desbravar o enigmático olhar o qual não havia sido ainda apresentado. Cada segundo mais enfronhados no prazer, as investidas lúbricas eram testemunhadas apenas pela lua gorda a aclarar o aposento. Pela janela, todo contorno circulante da órbita era emoldurado, abrindo-se na cadência veloz de uma estrela para adornar o ambiente aconchegante. Posicionando-se sobre o amante, a Mulher recorria a um movimento compassado, vertiginoso, levando-o a esgar de prazer. Pura exuberância como os cabelos vermelhos, esvoaçantes, roçando contra seu abdômen, proporcionando uma sensação inenarrável.
- Você me ama, Marido?

- Diga logo se você me ama, Marido – insistiu, após segundos silentes. Acanhado pela inoportuna indagação, pretendia evitar sobressaltos e lutava para não enrubescer de vergonha.

- Eu te amo sim. Te desejo mais do que tudo – respondeu sem muita convicção, torcendo para não se prolongar a sessão de ultrarromantismo.

Lá fora, a força das lufadas desvairadas impulsionavam as poucas nuvens no céu escuro, enquanto na alcova, os passionais indefectíveis foram acometidos pelo incitador calafrio. A luz prata, provinda da noite enluarada, penetrou mais intensamente no cômodo, passando a luzir os cernes descamisados. O uivo estrépito emergiu, rompendo abruptamente o epicentro do prazer. Pávido, o marido observava a metamorfose perturbante, com os belos cabelos rubros desatando do couro, ao mesmo tempo as mãos e dedos se alargaram, ficando cobertos por felpas em tom acinzentado.

O rosto, antes dotado de belas feições, deu lugar a um focinho franzido, repleto de pelos desgrenhados. Os olhos da besta fez o recém-Marido se ver diante do emissário da morte, eram amarelos como fogo, cintilantes, tão penetrantes. A criatura aluada ostentava afiadas presas, amedrontadoras em proporção parecida com as garras, saltando pelas opulentas patas.

O rugido da besta foi ouvido por quase toda a cidade. Com um movimento célere, a fera cravou os afiados dentes contra o pescoço daquele que há instantes, fora seu marido. A morte instantânea foi indolor, mas a felpuda abelha-rainha não estava saciada, fincando seguidamente as garras sobre o peito da vítima, rasgando ossos como papel, arrancando o coração ansioso, repleto de paixão, abocanhado em míseros segundos. O sangue jorra por toda parte e urrando às trevas, a sanguinolenta viúva lobisomem se delicia como mel avermelhado, escorrendo pelas presas aguçadas, enxovalhando os pelos do focinho achatado.

Esviscerado, o semblante congelado do marido denuncia um derradeiro e inusitado pensamento: além de proteções, vinhos e estimulantes, podia não ter se esquecido de trazer uma bala de prata para essa lua de mel, em plena noite de lua cheia ... Amarga como uma lua de fel .

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