7 de fevereiro de 2022

Halloween – No picadeiro do pequeno palhaço

Era como estar preso no pior pesadelo... e nunca conseguir acordar... ou sequer ser capaz de gritar.

Espessas nuvens pardacentas moviam-se freneticamente no céu, anunciando a iminência de uma noite tempestuosa. Até parecia resultado de uma brincadeira infame, um mar de flores algodoeiras banhadas com coca-cola, prontas para a qualquer momento verter cada gota de litros absorvidos. Antes de a tormenta roubar a cena, chegávamos secos a morada para acompanhar às seis horas restantes da melhor noite do ano. Sim, após certa animosidade, acabei cedendo e aceitando passar o Halloween em casa. Iria ascender a abóbora e seu brilho fulgurante ajudaria a levar um punhado de pipocas à boca enquanto nos debruçávamos sobre alguns filmes de terror .

Agora já estava conformado, mas horas atrás, ainda no carro, essa alternativa despertou imenso dissabor.

- O que você tem em mente, arrumar uma fantasia essa hora da tarde e caçar alguma festa para invadir? Porque até onde saiba, ninguém te convidou pra nenhuma! – provocou Christine, em seguida, curvando a cabeça e apoiando as mãos na nuca, gesto adotado frequentemente quando estava impaciente e inteiramente indisposta a embarcar em uma contenda ardorosa. Azar o dela! Eu tinha planos para aquela noite e não pretendia abrir mão deles, pelo menos não tão facilmente.

- Sabe muito bem que não há festa alguma. Mas, quero dar uma espiada no movimento, ver se tem alguma brincadeira rolando por aí. Quem sabe não encontramos algum conhecido e até consiga um convite inesperado. Também não vim despreparado, trouxe na mala do carro umas coisinhas, tipo um chapéu de bruxa, capa, uma ou duas máscaras, tem ainda uma abóbora de plástico. Quem sabe não estamos perdendo alguma coisa boa por aí!

- Não vai rolar nada disso. A cidade está uma loucura, vem muita chuva, chuva grossa.

- Meu amor, se não encontrarmos nada, paramos em alguma praça, pegamos os enfeites que trouxe e tiramos umas fotos. Mas, antes, vamos dar umas voltas.

- Você é alguma espécie de idiota ou está se fazendo? Só falta, Cláudio, inventar de sair por aí com uma bolsinha roxa ou alaranjada tocando campainhas das casas e reclamando por doces. Você não está nos Estados Unidos, isso aqui é Brasil. Além do mais, não percebe como está o tempo? – Foi quando Christine posicionou o dedo indicador para cima, com sua explanação sendo respaldada por uma trovoada, daquelas arrebatadoras, legitimando todo o discurso.

- Ou seja, embora esteja de carro, devo esquecer o Halloween que passei meses ansiando, voltar para casa e me esconder entre as cobertas com medo de relâmpagos e trovões. Naturalmente, por conta de a senhorita ter tido um péssimo dia no trabalho.

- Realmente, Cláudio, tive um péssimo dia e não aguento mais esse emprego. Bem que gostaria que pudesse ter passado o dia comigo, naquela clínica, atendendo todas aquelas clientes insuportáveis. Você se daria conta que as bruxas realmente existem....

- Ah para! Esse papo de novo – tratei de interrompê-la. - Como sempre, você tem capacidade de distorcer as coisas. Agora, pra variar, a culpa é toda minha. Eu quem sou o incompreensível, insensível, e quanto mais íveis possam existir. Definitivamente, hoje não, Christine!

- Na verdade, não estou pedindo para você desistir de nada. Vamos passar um instante no shopping, é caminho de casa. Quem sabe não tenha alguma liquidação daqueles adereços de Halloween que tanto gosta. Você sabe melhor que eu como ficam as ruas dessa cidade com qualquer chuvinha, tudo acaba alagado. É melhor passar, como mesmo você chama: A MELHOR NOITE DO ANO assistindo filmes do que aqui, numa rua cheia d’agua, presos no trânsito. Sem falar na possibilidade de danificar seu amado carrinho...

- “Quem sabe não tenha alguma liquidação daqueles adereços de Halloween que tanto gosta”, tratei de arremedá-la, sabia bem o quanto aquilo a irritava e para minha surpresa não vociferou algo do tipo “Pare de mangar de mim” ou “não se atreva a ficar me imitando”. – Christine, não posso crer que, depois de tudo, você ainda irá me convencer. Até o Monstro de Frankenstein seria mais insistente. Eu realmente não passo de...

- Esquece isso, amor! – Dessa vez a espevitada tratou de invadir meu discurso. - Eu faço a pipoca, com bastante manteiga. Dessa vez, pode tomar quantos copos de refrigerante quiser e também pode escolher os filmes que preferir. O que acha?

- Amor? Foi isso mesmo que ouvi? Mal faz um minuto, você me chamou de idiota. Incrível como as mulheres podem ser volúveis quando é de seu agrado. Mas, agora não tem como voltar atrás, eu escolho os filmes e não irei admitir nenhum tipo de censura.

- Só não me venha com Candyman, sabe o quanto detesto abelhas. Também esqueça Sexta-feira 13, Halloween, Fred Krueger, Cemitério Maldito, O Exorcista, Pânico, Brinquedo Assassino... Definitivamente, estamos fatigados de assistir essas coisas, os tais clássicos. Eu topo ver alguns dos filmes daquele casal, os Warren, desde que não tenha aquela freira diabólica, como é medonha aquela criatura trevosa.

- Eu achava que você tinha concordado em não se intrometer. Além disso, pensei em rever os dois capítulos de IT, talvez Hereditário ou Suspíria, a versão de Dario Argento, naturalmente. Algum filme de vampiro iria bem, digo vampiros de verdade como em A Hora do Espanto, não os genéricos. Quem sabe também alguma produção assinada por expoentes do quilate de Wes Craven, John Carpenter, James Wan - comentei, citando outros cineastas como Mike Flanagan, Jordan Peele, Tobe Hooper, José Mojica Marins...

- Como quiser, meu amor! – Hummmm, parece que agora eu estava vencendo a peleja. Tudo que realmente queria, era curtir de VERDADE uma assustadora noite de Halloween.

O humor de Christine melhorou muito depois do atrito. Embora a visita ao shopping tenha sido breve, até nos divertimos um pouco antes de seguir para o marasmo de casa. Antes, para ilustrar o momento, cheguei a tirar uma foto com duas garotas gêmeas, de aproximadamente oito anos de idade. As duas realmente esbanjavam capacidade de validar o adjetivo estranho.

Pouco tempo depois o ânimo de Christine, inesperadamente, esvaeceu durante a chegada ao apartamento. Percebi logo ao cruzarmos o limiar da sala. Estava um tanto absorta, desnorteada, como se tivesse sido atingida por uma estúrdia sonolência, morbosa por alguma substância ou feitiço. Sua condição suspicaz me fazia ignorar alguns sonidos incógnitos. Em vez de seguir para a cozinha, onde logo um amontoado de pipocas despontaria como a especialidade da noite, Christine deu alguns passos à frente, espiando a varanda de reduzidas dimensões, regressando logo para fitar o compartimento adornado pela mesa de jantar com quatro lugares, mesinha de centro, sofá com dois lugares, duas poltronas de plástico e um aparador instalado próximo ao umbral, precisamente no canto da parede que seguia até a entrada do espaço onde os alimentos eram preparados.

Alguns passos à esquerda a levaram até o corredor onde os três cômodos do imóvel estavam alinhados. A princípio pensei que seguiria para a sala de tevê, ornamentada para agradar um fã inveterado de filmes de terror, com diversos pôsters, bonecos de personagens clássicos como o palhaço Pennywise, os serial killers Jason Voorhees, Michael Myers, Leatherface, Chucky, Ghostface e até entidades maléficas como Valac e Annabelle, além de vários adereços característicos do Halloween como Abóboras Sorridentes (jack-o'-lantern), caldeirões, bruxas, fantasma...

No entanto, o transe a levou a tomar a estreita passagem à direita, possivelmente em direção à suíte, talvez para tomar um banho e trocar de roupa. Resolvi segui-la, quando notei que estava no “quarto do meio”, como chamávamos o escritório e a biblioteca, inteiramente estirada sobre a poltrona pousada de frente a parede, perto da porta.

- Pensei que estava indo para o banheiro trocar de roupa e tomar banho, como gosta de fazer ao voltar do trabalho. – A resposta só não veio em forma de um silêncio quase sepulcral, por conta de diferentes soídos a serem ouvidos em diferentes pontos da casa. Havia até uma espécie de sussurro reverberando, ora parecia mais longe e outros momentos mais próximo. Mais do que um evento meramente heteróclito, o cenário adquiria ares tenebrosos e um tanto dantesco.
Meio tépido, eu disfarçava a sensação de haver alguma coisa errada. Os esforços estavam a serviço de ensaiar uma maneira de retomar a normalidade, apesar de aquela altura já não fazer questão alguma de perpetuar, nas horas seguintes, o clima do Dia das Bruxas.

- Que tal se você adiar o banho um pouco e fosse pra cozinha fazer a pipoca que prometeu, enquanto vou pra sala de tevê escolher os filmes... - Acabei interrompido por um rijo estrondo, trovões ribombavam o céu. Através da moldura vítrea era possível fitar os contornos dos relâmpagos a se formarem, por alguns segundos expurgando a escuridade da noite, ostentando uma alvura intensa. Como o edifício fora erguido em uma região alta, quase como um promontório, a visão de alguma forma acabava privilegiada.

No último clarão resultante de uma descarga elétrica, a luz do condomínio inteiro aparentava ter sido drenada. Ao mesmo tempo foi possível ouvir o barulho de alguma coisa despencando na sala de tevê. Em disparada, fui ver o que aconteceu, cedendo ao impulso de tatear o interruptor, tendo esquecido a falha energética. Para meu espanto, a claridade irrompeu o ambiente, com a queda perdurando então por não mais de 20 segundos. Isso não me causava qualquer estranheza, perturbava mesmo a desagradável surpresa de ver o televisor, antes fixado em um painel de madeira, acabar pendendo e agora repousava sobre o rack.

- Que loucura! Christine, venha aqui, veja que coisa mais estranha. – Sem resposta, acabei empostando a voz em tom quase agressivo. – Não ouviu que estou chamando você? Christine, vem até aqui e que seja logo!

- Eu não quero sair daqui – finalmente ela respondeu, com a voz compassada, como se estivesse alheia a todos os eventos.

- Christine, venha de uma vez. Preciso de ajuda para...

- Já estou aqui! – Confesso que me assustei, não sei exatamente se pelo fato de ela já estar bem atrás de mim ou pelo timbre murmurante da voz, um tanto estrídula e fleumática.

A despeito de totalmente abstraída, acabou me ajudando a içar o televisor e acondicioná-lo novamente no painel, logo acima do rack. Embora o aparelho, por obra do acaso, tenha despencado da peça pregada na parede, não aparentava ter sofrido qualquer avaria. Sequer tive tempo para idear os fatores responsáveis pela queda, afinal não parecia resultado dos estrondos relampejantes, minha atenção de imediato sucumbiu a um dos “assustadores” adornos dispersos no quarto.

Lembro ter ouvido antes barulhos suspeitos ecoarem do palhaço, em contra partida, nunca suas feições adotaram um tom hilário e menos ainda emanava uma luz parca e estranha. O esdrúxulo bufão atracou em nossa “sala de teve” como um presente inusitado de Christine, mas ninguém nunca soube ao certo apontar a gênese da criatura insepulta. No começo, achei seu visual atípico e um tanto soturno, com um alvacento chapéu pontiagudo encimado de cabelos pardos bastantes desgrenhados. A face ainda ostentava o nariz rubro e estrelares olhos, negros como o céu mais escuro, além da boca composta por uma estranha fenda escancarada (encompridada). As roupas cinzentas, no mesmo tom do chapéu, eram repletas de estampas, imitando o formato de bocas brancas com contornos cetrinos, com as vestes se estendendo ao restante do mirrado corpo, inclusive os braços escassos.

Naquela noite, o palhaço adotava a forma de uma criatura ainda mais esfíngica e sombrosa. Escutando pequenos cicios irromperem de sua direção, resolvi tomá-lo entre as mãos, não cedendo à insensatez imposta pelo assombroso delírio. O silvo do vento, de maneira súbita, despertou o palhaço adormecido, o riso mais tétrico varava o silêncio, sendo possível mirar os olhos banhados de ódio. Dezenas de gadanhos passaram a travar uma luta para escapulir da arcada e encontrar estada em meu pescoço para assim sorver cada gota de sangue a percorrer as veias e artérias.

O palhaço não escondia o êxtase de conseguir utilizar as presas, tão afiadas como faca, para extirpar minha carne, desossá-la, antes descosendo os músculos e tendões. Por um instante, pude notar que apesar do formato irregular dos dentes cortantes, a conversão torava-se perfeita quando permaneciam serrados. Enquanto reunia forças para conter a investida, apesar de leve projetava-se contra mim com farta vitalidade, a criatura colocava ainda em prática o intento de tentar me desestruturar com a voz gutural, proferindo insanas ameaças: “Eu vou te matar seu paspalho. Não sabe o quanto esperei por isso. Essa sala agora será minha, irei deixá-la vermelha com seu sangue, extrair suas vísceras e pendurá-las. Irei arrancar suas tripas para enrolá-las na televisão, o enfeite perfeito para o Halloween”.

Enquanto tento conter as ofensivas do palhaço, olho para Christine, empedernida. Não podia me preocupar com ela agora, era necessário dar um jeito na criatura maquiavélica, antes que arrumasse uma maneira de cumprir suas ameaças. Passei a segurar seu corpo escasso com ainda mais força, ao mesmo tempo, abria e fechava a boca de forma célere, como um cão raivoso. O bufão resistia, balburdiando bravatas e tentando cravar as presas em alguma parte do meu corpo.

Com esforço, consegui levá-lo até a cozinha e apesar da luta e dos gritos incessantes pude acondicioná-lo em um volumoso frasco, capaz até de suprimir suas ameaças quando acionei a tampa. Apesar da resistência, o mal estava contido no recipiente, deixado sobre a pia enquanto retornava ao cômodo para ver Christine e tentar demovê-la do choque. É possível que a exasperação lhe tenha trazido de volta ao mesmo lugar de antes, repousando aturdida na poltrona.

- Christine, não temos muito tempo a perder! Precisamos levar essa coisa daqui o quanto antes. Espero que não seja muito tarde, que essa maldição não tenha se arraigado no apartamento, nos assombrando, encontrando eterna morada aqui.

- Eterna morada, assombrando... O picadeiro do palhaço.

- Christine escuta – realmente estava extenuado – sei que o palhaço é seu e lamento muito por isso. Vou encharcar o pote com álcool e queimá-lo. Depois arremessá-lo em algum lugar, provavelmente no esgoto que é o lugar deles. Espero que nossos vizinhos não tenham...

- Tah

- Sabe Christine. Eu penso que, por mais estranho que pareça, estamos diante de uma demonstração do sobrenatural. Podíamos filmar o palhaço, antes de fazer churrasquinho dele. Ainda assim, não acreditariam, ninguém acreditaria, acho.

- Não acreditariam, acho!

- Você poderia vir comigo, para me ajudar, segurar o pote e vigiá-lo. A coisa está...

- Vir comigo... Não!

- Poxa, Christine! Por favor, eu preciso...

- Por favor, poxa... Não quero sair daqui – dizia, mantendo os olhos abertos, sem piscar por um mero segundo.
Sabia que algo estava errado, era nítido e, talvez, fosse necessário me livrar do emissário das sombras para finalmente trazê-la de volta, embora não sabia se queria isso, talvez gostasse dessa Christine. Então começo a caminhar, compassadamente, de volta a cozinha, tinha um novo encontro marcado com um palhaço aterrador e não seria nada salutar deixar o ser sombroso esperando.

O percurso nunca pareceu tão longo, uma marcha peregrina, até o barulho de algo se espatifando vir da cozinha. Alguns rápidos passos para traz me levaram de volta a soleira do “quarto do meio”, onde Christine, apesar dos olhos abertos, convivia com sua letargia. Um novo relampejar fulgente preencheu o longínquo horizonte com seu clarão ominoso, acompanhado pela tríade de estrondos, novamente levando o apartamento a completa escuridão.

A luz não retornava por mais moroso que fosse meu movimento. No picadeiro do palhaço, gargalhadas sussurrantes e o barulho de passadasr rompiam o silêncio perpétuo aliado à escuridão mais perturbante. O emissário das trevas estava ali, em algum lugar, à espreita, sorrateiro nas sombras, com as presas cortantes prontas para extirpar. Talvez pudesse novamente ouvi-lo se movendo caso o ronco de Christine não reverberasse intensamente. Isso era o mais perto do inferno que podia chegar, diante da mais assustadora e verdadeira noite de Halloween.

- Cláudio, decidi ajudar você a procurá-lo – Exprimiu atrás de mim. Era a voz de Christine, retumbando em perfeita sincronia com timbre manifestado antes pelo bufão. Senti então uma coisa inquietante nas costas, atingindo a pele, os músculos, arrefecendo tudo que pudesse ter pela frente.

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26 de janeiro de 2022

Eu te quebro na saída

Rememorar a infância é sempre um ato nostálgico, um tanto romantizado também, haja vista que em alguns momentos a puerícia podia assemelhar-se a um verdadeiro campo de batalha, com os fedelhos esgrimindo por mera ignobilidade. Afinal, às vezes, não importa o quanto hesite, no fim precisará prescindir a pacatez e lutar com todas as forças, como se estivesse em uma disputa pela vida ou, pelo menos, penosamente presumindo tamanha baboseira.

A reminiscência remete a bela Alexandra. Embora haja controvérsias, ainda hoje a considero a garota mais bonita da turma, naquela época a mais exuberante de toda escola. Não tinha traços tão chamativos, era uma beleza mais natural, pura, até cristalina, se possível for. Adorava mirar o modo como ela tocava seus cabelos, castanhos não exatamente lisos, mas extremamente sedosos. Tateá-los era como se estivesse tomado um punhado de algodão, composto por mechas tênues e desmedidas, muito delicadas, ficava a vislumbrar, admirado, com o modo como pareciam serpentear no meio e finalmente ondulando quando atingiam a finitude.

De modo repentino, lembro bem quando Alexandra olhava para traz e me flagrava fitando o mar de fios amarronzados. Tinha apenas onze anos e ainda recordo a sensação de ser alvejado pelo seu singelo sorriso, nada espalhafatoso, carregado até com uma dose de ironia, a bela tinha plena consciência de exercer certo poder sobre mim. Apesar da tenra idade, as garotas parecem despertar, desde muito cedo, certo sexto sentido para essas coisas.

O terceiro elemento da rememoração era Vladimir. A maior parte da turma o chamava de Conde Vladimir Polanski. Como achava um nome meio complicado de pronunciar, possuía predileção pela alcunha de Conde Vlad, era mais rápido e direto e o bom garoto não se importava nem um pouco. Com o pequeno soberano não havia tempo ruim, as meninas o adoravam não apenas pelo porte físico mais atlético (considerando ser apenas uma criança) e sim pela natureza desinibida, jovem cavalheiro de invulgar carisma, atencioso, e até culto considerando a idade. Possuía repertório variado, sabia conversar sobre futebol, automobilismo e a despeito de não figurar como melhor aluno da turma, ostentava notas invejáveis. Também esbanjava certo conhecimento sobre música, destacando-se pelo gosto eclético, além de um devorador inveterado de romances e revistas.

Não vou dizer que o senhorio de primeira ordem era um pouco do que eu, um garoto mais contido, necessariamente gostaria de ser. Não me importaria de ver meu lado sorumbático se dizimar, absorvendo um pouco da atratividade do Vlad, ou quem sabe, não precisar inflamar os neurônios, evocando todas as forças mentais, para manter meros cinco minutos de bate-papo atrativo com as garotas. Se tratando da bela Alexandra, meu recorde deve ter sido não mais de 180 segundos, embora credite à timidez o desempenho insatisfatório.

Certo dia, uma sexta-feira, enfim a chegada do último horário. Talvez estivéssemos extenuados. Era pra ser um dia qualquer, o prenúncio de um divertido fim de semana, mas simplesmente não foi. Aguardando a chegada do professor, a maior parte dos alunos já ocupavam as carteiras, inclusive também não titubeei em tomar meu lugar e aproveitar os átimos para fitar Alexandra, incrivelmente venusta naquela manhã, ou a percepção era fruto de certa tendência ao exagero, impulsionado pelo cruel destino a nos impor distância nos próximos dois dias.

Não sei por que, mas naquele dia a jovem musa virou-se para traz mais rápido, permaneceu mais tempo nessa condição quando nossos olhares se cruzaram, o sorriso formava-se em suas feições, parecendo ainda mais opulento e a cena digna de uma poesia lírica acabou defenestrada por um forte sonido, seguido por uma dor excruciante nas costas. O incômodo grassava na mesma medida em que uma enxurrada de risos reverberava, vinda de todas as direções, inclusive por parte da Alexandra. Isso me alarmava, suscitando mais inquietude.

Enquanto as gargalhavas ecoavam pela sala, notei uma folha de caderno planando até encontrar morada no chão. O papel, em letras garrafais, estampava os dizeres: ME BATA!

- Desculpa Rogério, mas tive que atender ao seu pedido – disse o enlevado Conde Vlad, fazendo jorrar uma nova sessão de risos.

- Na próxima vez, você bate na cadela da sua mãe – respondi enfurecido, ainda sentindo as costas latejando por conta do tabefe. Esperava por uma nova rodada de risos, ao invés disso o clima era taciturno. O vampiro infantojuvenil aproximava-se a passos trôpegos, com semblante extremamente carrancudo e eu sabia a razão.

- É melhor retirar o que disse, ou eu... – Vladimir parecia um tanto aturdido, como se estivesse estupefato pelo rumo tomado com uma brincadeira um tanto singela ter acarretado em um gesto tão ignóbil. O bom Vlad nunca dera vazão a uma fachada tão agressiva e para reforçar a feição tão sisuda, nunca antes vista. Em um gesto rápido, fechou a mão esquerda sobre a gola da minha camisa, parecia se conter para não desferir um soco. – Vamos seu animal asqueroso, repete o que você disse, repete?

O punho direito agora estava armado, parecia pronto para atirar. O rosto do Vlad emanava ainda mais ódio.

- Não vou repetir coisa alguma – respondi.

- Muito bem! – Vlad soltou minha camisa, sugerindo ter desarmado o gatilho, por também ter baixado a mão direita, anteriormente pronta para atingir minha face, como um meteoro cada vez mais perto de se chocar com a Terra. Deu alguns passos para traz, tentando espairecer, retomando gradativamente a serenidade.

- Eu também errei em bater em você. Se me pedir desculpas, encerramos!

O Conde Vlad mantinha-se de cabeça baixa, tentando conter a fúria ainda a ladeá-lo.

- Então cara, estou aguardando, cadê seu pedido de desculpas? Eu errei, mas nada a ver você colocar minha mãe no meio.

- Eu não vou te pedir desculpas – respondi, agora encarrando o olhar odioso do amigo.

- Cara! Minha mãe, minha mãe morreu cara! Como você pode...

- Eu não lembrava. Estava aqui quieto, depois do tabefe que me deu... Eu me recuso!

- Não pode estar falando sério, cara!

- Vá pro seu canto e me deixa em paz. Minhas costas estão doendo ainda!

- Nada disso! Outras coisas podem passar a doer. Te dei uma chance. Agora não tem mais perdão. Eu te quebro na saída! – Ameaçou o Vlad com os olhos marejados, retornando para seu lugar, o professor acabara de adentrar à sala sem idear as circunstâncias do episódio.

Os minutos seguintes de aula fizeram o sangue arrefecer, sucumbindo a adrenalina. Não havia sentido algum naquela animosidade. Vlad era um bom sujeito e aceitaria minhas desculpas. Estava decidido, não teria duelo nenhum. O sinal ressoou, era hora de voltar para casa. Segui meu caminho logo após juntar livros, cadernos e acondicioná-los na mochila. Vlad não estava mais na sala, seguramente percebeu a estupidez em torno do entrevero e foi esfriar a cabeça. A mais sábia atitude, por isso pretendia fazer o mesmo.

Ledo engano! Ao alcançar o pátio do colégio, estranhamente pouco povoado, lá estava o Conde Vlad à minha espreita. O pedido de desculpas agora estaria à disposição e por Deus, tinha fé em ser aceito pelo bom amigo. Vladimir queria atingir logo o desfecho, mostrou ser daqueles que vai direto ao ponto:

- É sua última chance de retirar tudo o que disse e se desculpar! – Como ratos ocultados nos espaços mais recônditos, vários garotos passaram a se concentrar no pátio, mais precisamente formando uma espécie de círculo em nosso redor.

- Rogério, cara, o tapão nem foi tão forte assim! Pede desculpas de uma vez e vamos acabar isso, sem show – frisou outro colega, com tom claramente conciliador, escolhendo bem as palavras como se estivesse evitando que pudesse me sentir pressionado. Estava pronto para oferecer minhas sinceras lamentações, talvez com direito a um breve discurso, dizer até que me envergonhava da atitude infeliz. Tudo estava devidamente ensaiado, quando percebi, entre a plateia, a presença de um membro honorável.

Alexandra estava lá, vigilante a todos os detalhes do entrevero. Lembrei que ela sorria para mim quando subitamente fui atingido pelo safanão. Agora, seria justo vê-la a contemplar minhas súplicas, invocando pelo perdão a uma reação espontaneamente instintiva? Não matei a mãe de ninguém e tampouco minhas sinceras desculpas a trará de volta. Os olhares absortos da garota indicavam uma temporária prisão a um transe semelhante à maneira um tanto desvairada a qual ficava cravando as madeixas moscadas, torcendo para que virasse para mim e permitisse, por meros segundos, espiar as notáveis maçãs rosadas estampadas em seu rosto.

Tinha sido um dia tranquilo e forças ocultas quiseram fazer Alexandra conhecer meus outros atributos, não me resumindo a um garoto desmilinguido e acanhado, conformado apenas em encovar as sombras para melhor observá-la sem se deixar notar. Em vez da humilhação, iria espraiar a coragem, o lado mais armífero, mesmo pagando o preço de uma grande amizade. Iria enfrentar Vlad, lutar com todas as forças para mostrar que, às vezes, um simples plebeu pode derrotar um dignitário. Daria tudo de mim, seria o melhor caçador de vampiros existente naquele colégio.

Minha força era içada pela certeza: Vlad até podia ser mais atlético, como vampiro detinha força descomunal, mas sua motivação se resumia a uma mãe a sete palmos do chão, enquanto eu lutava pelo reconhecimento do grande amor da minha vida. Não podia sucumbir à amizade, seria como tivesse apostando minha vida, não pereceria diante do sugador de sangue. A tirania do vampirão estava fadada ao fenecimento.

- Pela última vez, peça... – Já até sabia qual seria o texto, a resposta veio em forma de um soco certeiro. O bom Vlad estava impassível, como se não esperasse por aquela atitude acintosa.

- Vamos ver quem vai quebrar quem! – Brigas sempre foi um bom momento para frases de impacto. Impelido pelo ódio, passei a atacar o oponente com todas as minhas forças. Estranhamente, o vampiro não revidava. Com os olhos serrados, movendo-se de um lado a outro como se ensaiasse passos de alguma dança macabra, limitava-se a proteger a cabeça e o rosto com as duas mãos.

Vlad era rápido e sua defesa parecia quase instransponível. Logo, iria acabar combalido pelo esforço, seria impossível manter o ritmo por tanto tempo. Na certa havia articulado uma estratégia, inspirada no estratagema de Rocky Balboa no terceiro filme da saga e pretendia sorver todo meu sangue assim que ficasse exaurido. Como não podia perder, não com a apoteótica batalha sendo reproduzida pelos atentos olhos de Alexandra, uma nova e derradeira força brotou não se sabe exatamente de onde. O Conde Vlad, com os braços carminados, logo cedeu à sucessão de golpes.

A chance de trunfo me deixou ainda mais tresloucado e então passei a acertar o adversário com força na cabeça, nuca, várias partes do rosto... Não sabia mais pelo que brigava. Via-me inteiramente dominado pela estranha lascividade em exprimir meu lado mais violento. E assim seguiria, se outros colegas não tivessem se metido entre nós, apartando o confronto.

Com as mãos fixadas sobre a nuca, diversos gestos denunciavam estar sendo acometido por muita dor. O antes imponente Conde Vlad tomava forma de uma caricatura mal feita, como uma imitação barata, revelando-se um morceguinho que teve as asas talhadas. Confiante, tentava, mais uma vez, ir de encontro ao oponente, que em momento algum se dispôs a digladiar. Repousava sobre o assoalho, encostado na parede, com o rosto rubro. Finalmente percebi que o confronto há tempos havia cessado, mas as cenas gratuitas de violência foram insuficientes para expurgar toda a ira.

- Agora, já pode chorar no túmulo da mamãezinha – comentei, ainda sem conseguir acreditar realmente ter dito isso. Então, chega de perder tempo com o vampiro derrotado. Onde estava Alexandra? Ansiava pelo seu sorriso, sem dúvida a menina mais bonita de toda escola se sentiria protegida ao meu lado, afinal era um leão destemido. Entre os estrépitos, podia ouvir um sussurro similar ao choro. O Conde Vlad irrompia em lágrimas silenciosas, muito mais pela insensatez de palavras cruéis, a dor imposta por tantos murros.

- Não fica assim, Vlad. Esse Rogério não passa de um idiota. Não devia ter perdido tempo com ele, é apenas um garoto mimado... – Eu reconhecia aquela voz, era Alexandra, a minha Alexandra, ali acalentando meu oponente, consolando um derrotado.

- O que você está falando... eu, eu... Estava quieto.... – Alexandra sequer me respondeu. Limitou-se a ajudar o choroso Vlad a recolher seus materiais. Os dois sentaram-se juntos a poucos metros, enquanto os demais dispersavam.

Não pude permanecer fleumático a própria dor, mas ali sozinho fiquei por mais um tempo. Como sabia, o espetáculo chegou ao fim, apesar disso era difícil tomar coragem para pegar a mochila e seguir meu caminho. Preferi continuar lá, observando a mais bela garota reconfortar meu oponente, que em momento algum quis embarcar na briga, apenas ansiava por um justo pedido de desculpas. Por um momento, antes de partir vestido da minha vergonha, Vlad passou a me encarar por meros instantes, exibindo um semblante nada caliginoso, adverso ao rancor, como se estivesse sentindo pena. Não precisava ser um vampiro, ter vivido milhares de anos para saber quem realmente foi quebrado na saída.

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21 de abril de 2021

Debaixo dos cobertores

O artificio para fazer as palavras brotarem é sempre semelhante. Começo rememorando todos os pontos a serem explorados na narrativa e quando cada pedaço parece devidamente aglutinado, o desafio se torna deslindar um ponto de partida, por meio de palavras ser capaz de atiçar a curiosidade alheia. Alvejado por um turbilhão de ideias em forma de letras, mesmo concentrando energia para atravancar o desejo, sou impelido pelo súbito desejo de lançar a pergunta: como será que Stephen King faria?

Tudo bem, até aceito o fato de não ser o mestre do terror, mas ao lançar ao léu a despropositada indagação, ao passo de um singelo estralar de dedos, a antes claudicante trama passa a ser adornada por novas nuances, a irromper na mente como resultado de alguma bruxaria ou coisa do tipo.

Certa feita, durante um bate-papo deveras inspirador, duas perguntas acarrearam instantes de ruminação fulcral. Você praticamente venera alguns escritores, mas parece evitar a todo custo “copiar” o estilo deles. Certo? Nunca tinha analisado as coisas por esse prisma. Talvez eu me leve a sério demais para resumir minhas desventuras literárias à condição de reles simulacro, mesmo comprometendo o resultado final. No entanto, o experimento é um tanto mais complexo, acaba atrelado a uma segunda pergunta, até incessantemente respondida por outros autores mais gabaritados: por que o terror? Simplesmente por não ter outra escolha, embora não seja raro me ver enveredando por caminhos diferentes, às vezes mais líricos e melosos.

Essa falta de “escolha” acaba dissociando os textos produzidos das leituras cotidianas. Em quase letargia, agarro mais forte as cobertas enquanto a chuva espessa se choca contra a janela. Ao abrir os olhos, alguma coisa se revela, parece velar meu sono, sorrateira no breu. Se simplesmente me rendo ao temor e tento me ocultar em meio ao cobertor, os pés e tornozelos acabam desnudos, vulneráveis aos gadanhos capazes de desossá-los e gradativamente esgaçar todas as partes corpo, para seguidamente deixar reverberar um riso inclemente, retumbante.

A aparição cessa antes de berrar alto o bastante para despertar os mortos. Será que realmente se foi ou ocultou-se debaixo da cama? Não tenho coragem de olhar! O melhor a fazer é voltar a dormir e, se mais uma vez puder acordar, irei me ater a escrever. Narrar até poder ser o que me mantém vivo, mas o terror, o terror sim é a minha vida.

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IT

Foram sucessivas semanas dedicadas a desbravar as nuances de uma obra atemporal. Por longos anos preteri o desejo de encarar o maléfico Pennywise e suas mais de mil páginas. Até não haver mais como adiar esse momento, teria de enfrentar o maldito bufão a me aterrorizar desde a década de 90, quando Tim Curry, com performance emblemática, encarnou A Coisa na adaptação It – Uma Obra Prima do Medo.

It - A Coisa não desponta por acaso como um dos principais trabalhos de Stephen King. A narrativa rechaça o lugar comum, abdicando da possibilidade de meramente traçar a história de um assassino sobrenatural com cara pintada e roupas coloridas, embora essa perspectiva por si só já seja suficientemente tétrica.

O leitor é levado à fictícia Derry, em dois momentos distintos, separados por um intervalo de 27 anos, em 1958 quando Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly ainda eram crianças e em 1985, já adultos. Como já esperava, a trama é iniciada com o pequeno Georgie Denbrough trajando no dia tempestuoso sua imponente capa amarela, acompanhando o barquinho de papel parafinado singrando pelas águas pluviais. O irmão mais novo de Bill acabou tendo o infortúnio de ficar diante do aterrorizador Pennywise, que em grande estilo entrou em cena após imergir da escuridão, ostentando uma pletora de balões.

O assassinato da inocente criança desponta como o pano de fundo para iniciar de uma jornada épica, repleta de centelhas nostálgicas, desenvolvida ao mesmo tempo em que conjuga eventos após a morte de Georgie e na década de 80, quando a obra foi composta pelo mestre do terror. Com a alternância de períodos King consegue atribuir o caráter alinear à narrativa e sem pedir licença, remete ao leitor à condição de testemunha ocular de uma série de acontecimentos violentos, nos quais crianças e jovens desaparecem ou são trucidados por um homicida misterioso .

O conjunto de acontecimentos acarreta passagens verdadeiramente angustiantes, e esbanjando capacidade de suscitar reflexão sobre o mal por traz de Pennywise, um reflexo itinerante da natureza humana, hora capaz de ser mais pérfido e inclemente em relação à mal-ajambrada vilania. No fim das contas, It é um imenso bodoque e os elásticos presos sobre as extremidades impulsionam a munição, capaz de sobrepor à psique dos leitores para tornar praticamente inexequível o anseio de abortar a narrativa, capaz de reverberar para fora do calhamaço , e em eclosão encontra eterna morada no âmago dos leitores.

Um dia, seguramente, dedicarei outras semanas para reler a vultosa obra. Um novo encontro já está marcado e enquanto esse apoteótico momento não chega, espero até lá que o palhaço me visite algumas noites, assombrando meus piores pesadelos. Estarei esperando, vestido no temor e armado de muito, muito encanto.

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21 de janeiro de 2021

Picadeiro dos Sonhos

Já tive alguns pavorosos sonhos adornados por um palhaço deveras aterrorizante, formando uma experiência perturbadora a ponto de preterir irromper novamente nesses delírios. O arlequim a povoar meus insanos pesadelos é muito semelhante ao da foto dessa pintura de 1966 que coincidentemente (ou não?) pode estar na família da minha mãe há mais de cinco decênios.

A última vez que estive na casa dos meus avós foi em 1997 e não tenho qualquer lembrança desse quadro. Então, qual seria a razão dessa figura assombrar minha vida por tantos anos? Durante os sonhos, o palhaço se manifestava emulando uma dança sinistra, desengonçada, ensaiando falso carisma, até que as máscaras desmancham e o bufão, enfim, passa a ostentar um sorriso caliginoso, gadanhos cortantes brotam dos dedos, até, de maneira trôpega, dar os primeiros passos em minha direção, garantindo que não importa o quanto corresse, minha alma estava condenada a habitar os umbrais do inferno... .

Ou talvez tudo não passe de um relato virtuoso, ideado para chamar atenção. O que será pior: os palhaços maquiavélicos ou as pessoas que se aproveitam deles para fomentar o medo? Sem dúvida, os palhaços são muito, muito piores!

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20 de janeiro de 2021

Credo da remissão

Quando se tem nove anos de idade, é um tanto intimidador ficar diante daquele representante do Senhor, com sua sotaina branca, crucifixo opulento e um par de óculos estampando a face. Começava pedindo a reza do Pai Nosso, chegava a atropelar algumas palavras, mais por conta do nervosismo. Depois era a vez da Ave Maria, também nada capaz de representar um grande infortúnio. Os sobressaltos inquietantes eram tracejados no ato do terceiro desafio, quando o sacerdote postado a minha frente dizia: muito bem, agora o Credo!

- Creio em Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo seu único filho, nosso Senhor...

- E?

- Desculpa padre, vou recomeçar: Creio em Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo seu único filho, nosso Senhor...

O bom padre chegou a passar um verdadeiro sermão, sobre a importância de aprender o credo de cor e salteado. O filme se repetiu pelo menos outras duas vezes e como antes, lembrava apenas do começo e do trecho "desceu a mansão dos mortos" , isso era tão assustador, se tivesse de partir não ansiava descer àquela vultosa morada.

- Se você não souber recitar o Credo de cor, não poderá fazer primeira comunhão – disparou o padre. Lembro-me de relatar o episódio para algumas pessoas, ficaram horrorizadas com a exigência. No fim, acabei me sagrando campeão daquela “queda de braço”, porque fiz a primeira comunhão e não aprendi o tal Credo . Para dizer a verdade, nunca tive orgulho disso, era como triunfar sem benemerência, prevalecendo um impertinente gosto de malogro.

Tantos anos depois, em tempos tão difíceis impostos pela pandemia do novo Coronavírus, as pessoas sentem a necessidade de se apegar a alguma coisa, sendo marcado um reencontro com o Credo e dessa vez acabei assimilando toda a oração, como era esperado pelo padre há quase três decênios. Talvez estivesse certo quem dizia: antes tarde do que nunca! Enfim, agora pareço poder comemorar os êxitos de minha primeira comunhão e até consigo idear o semblante de contentamento do velho sacerdote.

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10 de julho de 2020

O amaro preço da mentira

“Meu último anseio, sentir o doce do seu beijo, sob a anuência dos feixes da luna mais rotunda”. Beijo é um ato animalesco, talvez impulsionado por forças tão intempestivas quanto incógnitas e, pelo jeito, quanto mais se recorre aos ósculos, mais ainda se parece imergir em um campo inexplorado. Se até Jesus Cristo se viu traído por um afável toque de bochecha, por parte de Judas com a boca, não é muito difícil testificar homens (e até mulheres) recorrendo à mentira em detrimento do prêmio: meia dúzia de ardentes osculações.

Longe de querer evocar o estilo santarrão ou promover um estamento ideológico a respeito de atos dessa espécie, mas confesso sempre ter nutrido repugnância por pessoas capazes de recorrer a métodos tão banais para concretizar seus anseios. Aquela velha história, baseada na premissa: definitivamente os fins não justificam os meios, afinal, meios ruins acarretam em fins ainda piores... Até um dia me descortinar, articulando estratagemas ascorosos para ser agraciado pelo méleo beijo da menina mais bonita!

Isso aconteceu no final da década de 90, no período de meio do ano, marcado pelas festas juninas. Acompanhado por alguns amigos, subimos em um ônibus com destino a uma cidade interiorana, jovens ansiosos, prontos para desfrutar do melhor que a noite pudesse oferecer. A cidade estava vestida para a festividade, fogueiras adornavam a fachada das casas, o cheiro de milho cozido se misturava as lufadas do vento, ensandecido, tentando extirpar as bandeirinhas de São João a formarem uma tenra cobertura, capaz de manter secos os corpos dançantes diante da garoa.

À medida que a festa decorria no ritmado sonido da sanfona, em invulgar harmonia com seus íntimos triângulo, sanfona, zabumba e pandeiro, meu grupo foi dizimado em subgrupos, até me ver sozinho na festa, mexendo meu corpo de forma canhestra e tendo meia lata de Coca-Cola como a melhor companheira de dança da noite. Mal sabia, o melhor estava por vir, em forma de uma estonteante morena de negros cabelos ondulados, pernas pomposas devidamente tracejadas no jeans justo e cintado, com uma encurtada blusa quadriculada, deixando parte do abdômen a mostra, além do vestiário típico ser completado pelas botas de salto alto, apetrecho final para a galhardia.

As maçãs do rosto eram salientes de ternura. Seus negros cabelos cacheados despontavam como a moldura para um rosto perfeito, alindado por um olhar penetrante, capaz de suscitar uma airosa vertigem. Lutava para não permitir que os participantes da festa formassem uma parede, ocultando a poética visão: a garota inominada compassadamente dentando uma espiga de milho. Enquanto a fitava, tentando não me deixar notar, nossos olhares subitamente cruzaram, e assim permanecemos, até a exuberante figura desviar o rosto, seguindo até o lixo onde depositaria o sabugo do cereal.

Outra garota, possivelmente as duas estavam juntas na festa, seguiu até ela e pelo gesto, estava sugerindo partirem para outro lugar. Antes, minha nova musa mais uma vez me ofereceu um olhar, juro até ter avistado um singelo sorriso e logo desapareceram, embrenhadas na multidão. Vai logo atrás dela, deixa de ser tão tépido! Seria a decisão mais acertada, mas ao invés disso, apanhei mais uma lata de refrigerante e segui para um ponto menos povoado, contemplando a lua no compasso cadente do xote, xaxado e baião.

- Apostaria que você não é daqui e também não gosta muito de dançar! – Talvez meus olhos estivessem me pregando uma peça, quem sabe estivessem sucumbindo a minha imaginação delirante: a voz invadindo meus ouvidos era mesmo dela. Antes de festejar o presente concedido pelo cupido espírito dos sanfoneiros, pude absorver o iminente conflito. Caso admitisse ser apenas um visitante, minhas chances com a bela morena seriam ínfimas, reduzidas a zero.

- A propósito, eu me chamo Bárbara! – Após me apresentar, tocando sua mão com leveza e encostando meus lábios, molhados de Coca-Cola, em cada lado das perfumadas bochechas, pude ensaiar uma mentirosa solução.

- Sou novo na cidade! Meu pai foi transferido para a agência bancária da praça lá atrás. Ainda não conheço ninguém, além de você, claro! – Nos aproximamos um pouco mais da festa, permanecendo longe o bastante para que pudéssemos papear um pouco, compartilhar nossas agruras. Depois, arriscamos alguns passos de dança e de tão polida, em momento algum transpareceu irritação com minha desengonçada habilidade para conduzi-la. Quando a chuva nos atingiu com maior rigor, Bárbara sorveu o restante de Coca-Cola. Pelo olhar, estava certo de transparecer vontade de encarar seus lábios macios, um beijo resfolegante, marcado pela aceleração da frequência cardíaca. Por um segundo, tentou evitar, talvez me dissuadir alegando não gostar “muito de ficar”.

- Podemos namorar se você quiser! – Então a trouxe depressa pra mim, não podia mais esperar. Dessa vez, Bárbara não oferecia resistência, foram ósculos prolongados, com gosto de “”coca”, como queria ter arrancado uma daquelas bandeiras, testemunha fulcral do momento. Meus lábios, com suavidade, deslizavam pelo seu pescoço, sentindo seus cabelos sedosos emanarem um atordoante cheiro de mato verde, as suas bochechas rosadinhas, o queixo modelado com singular esmero.

Antes do fim da festa, Bárbara disse que precisava ir e pediu para encontrá-la mais tarde na praça, pouco antes da hora do almoço. – De repente, você pode conhecer seus sogros, ainda hoje. Só preciso ver como estará o clima! Tudo bem pra você?

- Claro que sim. Estarei lá, já contando as horas, minutos, segundos... – Como queria estralar os dedos e tornar verdade aquelas famigeradas mentiras. – Você podia me passar o número do seu telefone?

- Mais tarde, na praça! – E depois nossos lábios toparam pela última vez. Horas depois, minha boca experimentava o amaro saibo do remorso. Na estrada, seguindo para casa, podia imaginar Bárbara me esperando no banco da praça, enquanto já estaria repousando na minha cama, em outra cidade.

Há situações que indubitavelmente nos leva para o lado negro e é ainda pior quando temos plena consciência disso. Os cabelos dela tinham um saboroso cheiro de mato. Tantos anos depois, quando caminho por um parque, com a mata regada pela chuva, sou invadido por aquele cheiro inebriante, sendo impossível não rememorar nossos tenros momentos. Possivelmente, Bárbara já olvidou minha existência, mas eu ainda me lembro dela, dos abrasados beijos afanados e do insipiente gosto de Coca-Cola.

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